Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




A REALIDADE ONIPRESENTE (A Vida Divina de Sri Aurobindo) Cap IV

“Se O conhecemos como Brahman, o Não-Ser, ele se torna não-existente. Se conhecemos que Brahman É, então Ele é conhecido como o real na existência.”

Taittiriya Upanishad [1]


Então, posto que admitimos tanto o clamor do Espírito puro manifestando em nós sua absoluta liberdade, como o clamor da Matéria universal por ser o molde e a condição de nossa manifestação, devemos encontrar uma verdade que possa reconciliar inteiramente estes antagonistas e proceda a ambos sua porção merecida na Vida e sua merecida justificação no Pensamento, sem privar-lhes de nenhum de seus direitos, sem negar a soberana verdade da qual mesmo seus erros, mesmo a exclusividade de seus exageros extraem uma força tão constante. Pois, onde quer que haja uma afirmação extrema que faça tão poderoso apelo à mente humana, podemos estar certos de que estamos em presença não de um mero erro, superstição ou alucinação, mas de um fato soberano, disfarçado, que exige nossa fidelidade e se vingará se for negado ou excluído. Aqui reside a dificuldade de uma solução satisfatória e a fonte dessa carência de finalidade que persegue todos os compromissos entre Espírito e Matéria. Um compromisso é um negócio, uma transação de interesses entre dois poderes em conflito; não é uma verdadeira reconciliação. A verdadeira reconciliação procede sempre pela compreensão mútua que conduz a uma espécie de íntima unidade. Por isso, é através da máxima unificação possível entre Espírito e Matéria que melhor chegaremos a sua reconciliável verdade, e assim, a uma base mais forte para uma prática reconciliatória entre a vida interior do indivíduo e sua existência externa.
Já descobrimos que, na consciência cósmica, há uma ponte de encontro onde a Matéria se torna real para o Espírito, e o Espírito se torna real para a Matéria. Pois, na consciência cósmica, Vida e Mente são intermediários e não mais, como na egoística mentalidade ordinária, agentes de separação, fomentadores de uma querela artificial entre os princípios positivo e negativo da mesma Realidade incognoscível. Alcançando a Mente da con­sciência cósmica, iluminada por um conhecimento que percebe de imediato a verdade da Unidade e a verdade da Multiplicidade e apreende as fórmulas de sua interação, ela encontra suas próprias discordâncias imediatamente explicadas e reconciliadas pela divina Harmonia; satisfeita, consente em converter-se no agente dessa suprema união entre Deus e a Vida, para a qual tendemos. A Matéria se revela para o pensamento realizador e para os sentidos sutilizados como figura e corpo do Espírito - o Espírito em sua extensão autoformadora. O Espírito se revela através dos mesmos agentes de consentimento que a alma, a verdade, a essência da Matéria. Ambos se admitem e se confessam mutuamente divinos, reais e essencialmente unos. A Mente e a Vida são reveladas nessa iluminação como, imediatamente, figuras e instrumentos do supremo Ser Consciente, através do qual Ele Se estende e Se aloja na forma material, e nessa forma Se revela a para os Seus múltiplos centros de consciência. A Mente atinge sua autorrealização quando se converte em puro espelho da Verdade do Ser, que se expressa a Si mesmo nos símbolos do universo; e a Vida, quando esta conscientemente empresta suas energias à perfeita autofiguração do Divino em formas e atividades sempre novas da existência universal.

Na luz desta concepção, podemos perceber a possibilidade de uma vida divina para o homem no mundo, que irá de imediato justificar a Ciência, revelando um sentido e uma meta inteligível para a evolução cósmica e terrestre, e irá realizar, pela transfiguração da alma humana em divina, o grande sonho ideal de todas as religiões elevadas.

E o que dizer desse silencioso Eu, inativo, puro, autoexistente, autossatisfeito, que se apresente a nós como a permanente justificação do asceta? Aqui também a harmonia, e não a oposição irreconciliável, deve ser a verdade iluminadora. O silencioso e ativo Brahman não são entidades diferentes, opostas e irreconciliáveis, uma negando, a outra afirmando a ilusão cósmica; eles são dois aspectos do mesmo Brahman, o positivo e o negativo, e cada um é necessário ao outro. É fora do Silêncio que a Palavra que cria os mundos sempre atua; pois a Palavra expressa aquilo que está semiescondido no Silêncio. É a eterna passividade que torna possível a perfeita liberdade e a onipotência de uma eterna atividade divina em inúmeros sistemas cósmicos. Pois as derivações dessa atividade obtêm suas energias e seu ilimitável poder de variação e harmonia, do imparcial sustentáculo do Ser imutável, de seu consentimento a esta infinita fecundidade de sua própria dinâmica Natureza.

Também o homem só se torna perfeito quando encontrou dentro de si aquela absoluta calma e passividade do Brahman, e mantém através dela com a mesma divina tolerância e a mesma divina beatitude, uma atividade livre e inextinguível. Assim, aqueles que possuem a Calma dentro de si podem sempre perceber, emanando de seu silêncio o perene suprimento de energias que trabalham no universo. Por isso, não é, por assim dizer, a verdade do Silêncio que é, por natureza, a rejeição da atividade cósmica. A aparente incompatibilidade dos dois estados é um erro da Mente limitada, que, acostumada a vigorosas oposições de afirmação e negação e passando repentinamente de um pólo ao outro, é incapaz de conceber uma consciência compreensiva, vasta e forte o suficiente para incluir ambos num simultâneo abraço. O Silêncio não rejeita o mundo, o Sustenta. Ou melhor, ele suporta com igual imparcialidade à atividade e a retirada da atividade, e aprova também a reconciliação da qual a alma permanece livre e calma, mesmo quando se entrega a toda ação.

Mais há ainda a retirada absoluta, há o Não-Ser. Do Não-Ser, diz a antiga Escritura, surgiu o Ser [2]. Daí este último irá, com certeza mergulhar novamente no Não-Ser. Se a infinita e indiscriminada Existência permite todas as possibilidades de discriminação e de múltipla realização, não é verdade que o Não-Ser, ao menos como estado primário e única realidade constante, nega e rejeita toda possibilidade de um universo real? O Nihil de certas escolas budistas seria, então, a verdadeira solução ascética; o Eu, como o Ego, seria apenas uma formação ideativa concebida por uma ilusória consciência fenomênica.

Mas novamente verificamos que estamos sendo iludidos por palavras, enganados pelas vigorosas oposições de nossa mentalidade limitada, com sua tendência a confiar em distinções verbais, como se elas representassem perfeitamente verdades básicas, e na interpretação de nossas experiências supramentais nos termos dessas intolerantes distinções. Não-Ser é apenas uma palavra. Quando examinamos o fato que ela representa, já não estamos mais seguros de que a não-existência absoluta tenha qualquer chance, assim como o infinito Eu, significar, com esse Nada, algo além do último termo ao qual podemos reduzir nossa mais pura concepção e nossa mais abstrata ou sutil experiência de ser real como o conhecemos enquanto neste universo. Esse Nada, então, é alguma coisa além da concepção positiva. Erigimos uma ficção do nada com o intuito de ultrapassar, pelo método da exclusão total, tudo o que podemos conhecer e que conscientemente somos. Na realidade, quando examinamos de perto ao Nihil de certas filosofias, começamos a perceber que ele é um zero que é Tudo ou um indefinível Infinito que aparece, à mente, como um vazio, pois a mente só capta construções finitas, mas ele, de fato, a única Existência verdadeira [3] .

E quando dizemos que do Não-Ser surgiu o Ser, percebemos que estamos falando em termos de Tempo, sobre algo que está além do Tempo. Pois o que era aquela portentosa data na história do eterno Nada em que o Ser nasceu dele, ou quando virá essa data igualmente formidável em que um irreal tudo irá recair no eterno vazio? Sat e Asat, se ambos têm de ser afirmados, devem conceber-se como obtidos simultaneamente. Eles permitem um ao outro, mesmo se recusam misturar-se. Ambos, já que devemos falar em termos de Tempo, são eternos. E quem irá persuadir o Ser eterno de que ele não existe e que só o eterno Não-Ser eterno?

O puro Ser é a afirmação, pelo Incognoscível, de Si mesmo como base livre de toda existência cósmica. Damos o nome de Não-Ser a uma afirmação contrária de Sua liberdade em relação a toda existência cósmica - liberdade, quer dizer, em relação a todos os termos positivos da existência real nos quais a consciência pode formular-se no universo, inclusive o mais abstrato e o mais transcendente. Não os nega como real expressão de Si mesmo, mas nega Sua limitação mediante todo ou qualquer tipo de expressão. O Não-Ser permite o Ser, bem como o Silêncio permite a Atividade. Através dessa negação e afirmação simultâneas, que não são mutuamente destrutivas, mas sim complementares como todos os contrários, uma à outra como todos os contrários, a simultânea compreensão do auto-Ser como uma realidade e do Incognoscível, que está além, como a mesma Realidade, torna-se possível para alma humana desperta. Assim é que foi possível para Buda atingir o estado do Nirvana e atuar poderosamente no mundo, impessoal em sua consciência interna, em sua ação a mais poderosa personalidade que sabemos ter vivido e produzido resultados sobre a Terra.

Quando ponderamos sobre essas coisas, começamos a perceber quão débeis, em sua violência auto-afirmativa, e quão confusa, em sua enganosa diferenciação, são as palavras que usamos. Começamos também a perceber, que as limitações que impomos ao Brahman surgem de uma estreiteza de experiência da mente individual, que se concentra em um só aspecto do Incognoscível e age diretamente no sentido de negar ou denegrir todo o resto. Também tendemos a traduzir demasiado rigidamente o que concebemos ou sabemos do Absoluto, nos termos de nossa própria e particular relatividade. Afirmamos o Único e Idêntico discriminando apaixonadamente e fazendo valer o egoísmo de nossas próprias opiniões e experiências parciais contra as opiniões e experiências parciais de outros. É mais prudente esperar, aprender, crescer, e, já que somos obrigados, em atenção à nossa auto-perfeição, a falar destas coisas que a fala humana não pode expressar, buscar a mais ampla, a mais universal afirmação possível, e estabelecer com ela a máxima e mais compreensiva harmonia.

Reconhecemos, então, que é possível para a consciência do indivíduo entrar num estado em que a existência relativa parece dissolver-se e mesmo o Eu parece ser uma concepção inadequada. É possível tombar num Silêncio além do Silêncio. Mas isto não é a totalidade de nossa experiência definitiva, nem a simples e totalmente excludente verdade. Pois descobrimos que este Nirvana, essa auto-extinção, ao mesmo tempo que concede paz absoluta e liberdade à alma, no seu interior, consiste, na prática, em uma ação isenta mais efetiva. Essa possibilidade de uma impessoalidade inteiramente imóvel e de uma Calma vazia o interior, realizando exteriormente o trabalho das verdades eternas - Amor, Verdade e Retidão - foi talvez a real essência da doutrina de Buda - essa superioridade com respeito ao ego e à cadeia de trabalhos pessoais e à identificação com a forma mutável e a idéia, e não o insignificante ideal do escape à aflição e ao sofrimento do nascimento físico. Em todo caso, como o homem perfeito combinaria em si o silêncio e a atividade, assim também a alma completamente consciente voltaria a alcançar a absoluta liberdade do Não-Ser sem por isso perder seu poder sobre a Existência e o universo. Assim ela reproduziria em si mesma, perpetuamente, o eterno milagre da divina Existência no universo, porém indo além dele e até mesmo - como se estivesse - além de si mesma. A experiência oposta só poderia ser uma concentração da mentalidade do indivíduo sobre a Não-existência, e o resultado seria um esquecimento a retirada pessoal da atividade cósmica, ainda e sempre agindo na consciência do Ser Eterno.

Assim, após reconciliar Espírito e Matéria na consciência cósmica, percebemos a reconciliação, na consciência transcendental, da afirmação final de tudo e de sua negação. Descobrimos que todas as afirmações são declarações de status ou de atividade no Incognoscível; todas as negações correspondentes são declarações de Sua liberdade, a partir desse ou nesse status ou atividade. O Incognoscível é Algo para nós supremo, maravilhoso e inefável que Se formula continuamente à nossa consciência e continuamente escapa da formulação que fez. Não faz isso como algum espírito malicioso ou um caprichoso mago, conduzindo-nos de uma falsidade a uma falsidade maior, e então, uma negação de todas as cosas, mas sim como o Sábio que está além de nossa sabedoria, guiando-nos da realidade para uma sempre mais profunda e mais vasta realidade, até que encontremos a mais profunda e vasta de que somos capazes. O Brahman é uma realidade onipresente, não a causa onipresente de ilusões per­sistentes.

Se dessa forma aceitamos uma base positiva para nossa harmonia - e em que outra harmonia poderia ser fundada?— As diversas formulações conceituais do Incognoscível, cada uma representando uma verdade além do conceito, devem ser compreendidas, na medida do possível, em sua relação mútua e em seu efeito sobre a vida, não em separado, não exclusivamente, não formuladas para destruir ou minimizar indevidamente todas as outras afirmações. O Monismo real, o verdadeiro Adwaita, é aquele que admite todas as coisas como o uno Brahman e não procura dividir Sua existência em duas entidades incompatíveis, uma eterna Verdade e uma eterna Falsidade, Brahman e Não-Brahman, Eu e Não-Eu, um Eu real e um irreal porém perpétua Maya. Se, é verdade que o Eu isolado existe, também deve ser verdade que tudo é o Eu. E se esse Eu, Deus ou Brahman não é um estado de desamparo, um poder amarrado, uma personalidade limitada, sendo o Todo autoconsciente, deve haver alguma boa e inerente razão para a manifestação, e para descobri-la devemos prosseguir na hipótese de alguma potência, alguma sabedoria, alguma verdade do ser em tudo que se manifesta. A discórdia e o aparente mal do mundo devem ser admitidos em sua esfera, mas não aceitos como nossos conquistadores. O mais profundo instinto da humanidade busca sempre, e sabiamente, a sabedoria como a última palavra da manifestação universal, não uma eterna zombaria e uma ilusão - um secreto e finalmente triunfante bem, não um mal todo-criador e invencível - uma vitória definitiva e a realização, não o recuo desapontado da alma frente a sua grande aventura.

Pois não podemos supor que a Entidade isolada é compelida por algo fora dela ou outro que não Ela, porque tal coisa inexiste. Tampouco podemos supor que Ela se submete contra a vontade a algo parcial, dentro de si, que é hostil a seu Ser inteiro, negado por Ela e demasiado forte para Ela; pois isto só serviria para criar, em outra linguagem, a mesma contradição de um Todo e algo diferente do Todo. Mesmo se afirmamos que o universo só existe porque o Eu em sua absoluta imparcialidade, tolera todas as coisas sem distinção, encarando com indiferença todas as realidades e todas as possibilidades, há, no entanto, alguma coisa que quer a manifestação e a mantém, e por isso só pode ser o Todo. Brahman é indivisível em todas as coisas, e, o que quer que tenha sido desejado no mundo, foi desejado definitivamente por Brahman. É apenas nossa consciência relativa, que, alarmada ou frustrada pelos fenômenos do mal, da ignorância e da dor no cosmos, procura livrar o Brahman da responsabilidade por Si e por suas obras criando algum princípio oposto, Maya ou Mara, o mal consciente ou auto-existente princípio do mal. Só existe um Senhor e Eu; os muitos são apenas Suas representações e derivações.

Se, então, o mundo é um sonho, uma ilusão ou um erro, é um sonho originado e desejado pelo Eu em sua totalidade, e não apenas originado e desejado, mas sustentado e perpetuamente acolhido. Além disso, é um sonho existindo na Realidade, e o material de que é feito é essa Realidade; pois Brahman deve ser o material do mundo bem como sua base continente. Se o ouro de que o vaso é feito é real, como podemos pensar que o vaso é uma miragem? Vemos que essas palavras, vaso, sonho, ilusão, são truques de linguagem, hábitos de nossa consciência relativa; eles representam certa verdade, até mesmo uma grande verdade, mas eles também a deturpam. Exatamente como o Não-Ser se transforma na mera nulidade, assim o Sonho cósmico se transforma em outra coisa que não um mero fantasma ou alucinação da mente. O Fenômeno não é um fantasma; o Fenômeno é a forma substancial de uma Verdade.

Começamos, então, com a concepção de uma Realidade onipresente da qual nem o Não-Ser de um lado, nem o universo do outro, são negações que anulam; eles são ao invés disso, diferentes estados da Realidade, afirmações de verso e reverso. A mais elevada experiência desta Realidade no universo mostra que ela não é apenas uma Existência consciente, mas também uma Inteligência e Forças supremas, e uma Bem-Aventurança auto-existente. Por isso, estamos certos em supor que, mesmo as dualidades do universo, quando interpretadas, não como agora, por nossos conceitos sensórias e parciais, mas por nossa inteligência e experiência liberadas, serão também resolvidas nesses termos elevados. Enquanto ainda trabalharmos sob a tensão da dualidade, essa percepção deverá, sem dúvida, basear-se num ato de fé, mas uma fé que a mais elevada Razão e a mais ampla e mais paciente reflexão não negam, antes afirmam. Na realidade essa crença é dada à humanidade para apoiá-la em sua jornada, até que ela chegue à um estágio de desenvolvimento em que a fé se transformará em conhecimento e a perfeita experiência e a Sabedoria verão suas obras justificadas.

[1] II, 6.

[2] No começo tudo era o Não-Ser. Foi então que o Ser nasceu. Taittiriya Upanishad, II, 7.

[3] Outro Upanishad rejeita o nascimento do Ser a partir do Não-Ser como uma impossibilidade; o Ser, diz ele, só pode nascer do Ser. Mas se tomamos o Não-Ser no sentido, não de um inexistente Nihil mas de um x que supera a nossa idéia de experiência da existência, - sentido este aplicável ao Brahman absoluto do Adwaita bem como ao vazio ou zero dos Budistas—a impossibilidade desaparece, pois Aquilo pode muito bem ser a fonte do ser, seja por uma conceitual ou formativa Maya, seja como uma manifestação ou criação a partir de si mesmo.



MAYA SUPERIOR E MAYA INFERIOR (A filosofia de Sri Aurobindo) Cap.III

O movimento triplo de Sachchidananda tem fornecido a chave para a compreensão da integração

entre idealismo e materialismo; mas ainda não sabemos o processo pelo qual aquela Realidade tem

transformado a si própria nesse fenômeno:

"Nós temos a chave desse enigma, temos ainda que encontrar a fechadura em que ela irá girar. Pois

essa Existência, Consciência-Força, Deleite não atua diretamente ou com uma soberana

irresponsabilidade como um mágico erigindo mundos e universos pelo mero ‘fiat’ de suas palavras.

Nós percebemos um processo, nós estamos conscientes de uma lei." (1)

A Bíblia nos diz, "Deus disse, faça-se a Luz, e fez-se a luz". Quando dizemos "faça-se a Luz", nós

postulamos um ato de poder consciente que pode trazer luz para fora daquilo que não era luz.

Quando lemos "E fez-se a Luz", presumimos um ativo poder de consciência que produz o resultado.

Sri Aurobindo refere-se a esse poder (como o fizeram os antigos sábios védicos) como Maya (2).

Sri Aurobindo fala de duas mayas, a inferior (mental) e a superior (divina). Tradicionalmente, maya

era empregado como um termo abrangente referindo-se ao mundo como uma aparência sobreposta

a Brahman, portanto ilusório e enganador. Sri Aurobindo sustenta que a maya superior não é um

engano, é um poder criativo ou mediador entre o Uno Absoluto e o mundo de multiplicidade. Um

mediador é necessário entre os dois porque um ser infinito pode apenas produzir um mundo infinito.

O atributo transcendente do absoluto está além das palavras e é indescritível. No momento em que

atribuímos qualidades ou predicados a ele, nós impomos limitações. Contudo a maya superior pode

ser caracterizada pelos mais altos e menos limitantes atributos que conhecemos. Sri Aurobindo a

denomina o Puro Existente que é "a afirmação, pelo Incognoscível, de si mesmo como a base livre

de toda existência cósmica" (3). "Quando o Puro Existente é conhecido, então tudo é conhecido",

porque o Puro Existente é um e indivisível. Atrás de todo fenômeno está o Puro Existente, infinito

e indefinível. "Se todas as formas, quantidades, qualidades desaparecessem, este deveria

permanecer" (4).

Sri Aurobindo, fiel à sua desafeição por argumentos provindos da razão pura somente, diz, "nós

devemos julgar a existência não por aquilo que concebemos mentalmente, mas por aquilo que

vemos que existe" (5).

"Como a intuição fixa a si própria sobre somente aquilo que nós nos tornamos, nós vemos a nós

próprios como uma progressão contínua de movimento e transformação na consciência na eterna

sucessão do tempo... Mas há uma experiência suprema e uma suprema intuição pelas quais nos

retiramos para trás de nosso si superficial e percebemos que esse vir-a-ser, essa transformação,

sucessão, são apenas um modo de nosso ser e que há aquilo em nós que não está de maneira

nenhuma envolvido no vir-a-ser. Nós não apenas podemos ter a intuição disso que é estável e eterno

em nós, não apenas ter um vislumbre disso na experiência por detrás do véu do contínuo e

impermanente vir-a-ser, mas podemos nos retirar para dentro disso e viver nisso inteiramente,

efetuando assim uma mudança total em nossa vida exterior e em nossa atitude e em nossa ação

sobre os movimentos do mundo. E essa estabilidade na qual podemos assim viver é precisamente

aquela que a Razão pura já nos deu, embora possa ser alcançada sem argumentações, sem conhecer

previamente o que é ela - ela é existência pura, eterna, infinita, indefinível, não afetada pela

sucessão do Tempo, não envolvida na extensão de Espaço, além da forma, quantidade, qualidade, -

Si unicamente e absoluto." (6)

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Existem, então, dois fatos de existência pura; um fato de Ser e um fato de Vir-a-Ser (tornar-se).

Negar um ou outro, diz Sri Aurobindo, é fácil; reconhecer a realidade de ambos e estudar as

relações entre eles é sabedoria. "Estabilidade e movimento... são apenas nossa representação

psicológica do Absoluto, como também são unidade e multiplicidade" (7).

A questão agora surge; é o vir-a-ser simplesmente uma ininteligível energia de movimento ou é

uma força consciente? Essa é uma questão de importância, pois de sua resposta depende a validade

da colocação de Sri Aurobindo que as pessoas, como seres transitivos, têm um objetivo de viver no

mundo uma vida divina. Isso significa que o mundo e tudo nele têm um propósito divino.

Se, como diz o materialista, a existência não é consciente e a consciência é apenas um

desenvolvimento da energia material, como é possível derivar um ser consciente de uma força

inconsciente? Os materialistas dizem que tudo o que nós podemos pesquisar é a maneira e o

processo da manifestação e seu movimento.

"Sendo Existência e Força, ambas inertes, - status inerte e impulsão inerte, - ambas inconscientes e

não inteligentes, não pode haver qualquer propósito ou meta final na evolução, ou qualquer causa

ou intenção original." (3)

Investigação e experimentação progressivas apontam para além da posição do materialismo

ortodoxo e mostram que a capacidade de nossa consciência excede de longe a capacidade de nosso

organismo físico, porque "a consciência usa o cérebro que nossos esforços em direção ao alto têm

produzido, o cérebro não tem produzido a consciência nem usa a consciência" (9). Contudo, o

materialismo é correto, como também o é o idealismo, na medida em que propõe que "o princípio

das coisas é um movimento formativo de energias" (10), pois, "este é o mundo como nós o

experienciamos e dessa experiência devemos sempre partir" (11).

"A análise física da Matéria pela ciência moderna tem chegado à mesma conclusão geral, mesmo se

umas poucas últimas dúvidas ainda persistem. Intuição e experiência confirmam essa concordância

de Ciência e Filosofia. A razão pura encontra aí a satisfação de suas próprias concepções essenciais.

Pois mesmo na visão do mundo como essencialmente um ato de consciência, um ato é implícito e,

no ato, o movimento de Força, jogo de Energia. Isso, também, quando examinamos de dentro de

nossa própria experiência, prova-se ser a natureza fundamental do mundo. Todas nossas atividades

são o jogo da força tripla das antigas filosofias, força-conhecimento, força-desejo, força-ação, e

todas elas provam-se ser realmente três correntes de um poder idêntico e original..." (12)

Aqui, Sri Aurobindo levanta duas questões: "como esse movimento veio a acontecer afinal" (13), e

porquê? O idealista absoluto coloca que o fenômeno empírico, desde que aparenta ser diferente do

uno Absoluto, não possui realidade e é, portanto, ilusório (maya). Desde que o uno Absoluto é a

única realidade, identificação com as coisas do mundo fenomenal é um engano, e assim

procedendo, nós sobrepomos à Realidade Absoluta, características que ela não possui. Como

ordinariamente percebido, o mundo todo é uma aparência do absoluto - nada mais. Quando nós

experienciarmos a verdadeira Realidade, seremos liberados da falsa identificação com o mundo

fenomenal e o compreenderemos como um movimento de energia projetado.

Sri Aurobindo responde que é a natureza da força inerente na existência ter ambas as

potencialidades de repouso e movimento. Não é nunca separada da existência infinita. Mas porque

não poderia a força permanecer sempre em repouso, livre de formação? Se não há consciência na

força ou na existência, então a questão não pode surgir. Por outro lado, se a existência é consciente,

mas a força, inconsciente, então a manifestação seria caótica, pois a força imporia a si própria à

existência e um Brahman compelido pela natureza não poderia ser Brahman, "mas um Infinito

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inerte com um conteúdo ativo em si, mais poderoso que o continente" (14). Uma absoluta existência

consciente deve ser livre para manifestar ou não manifestar e isso é análogo a dizer que a força em

movimento é consciente e inteligente.

Antes de estudar o relacionamento entre força e consciência, Sri Aurobindo diz-nos que ele não se

refere à nossa ordinária consciência mental do estado desperto, tal qual estamos conscientes durante

a maior parte de nossa existência corpórea. Essa "idéia vulgar da natureza da consciência deve

desaparecer de nosso pensamento filosófico" (15). Nós sabemos que há algo consciente em nós

quando estamos dormindo, drogados ou inconscientes. "Mesmo em nosso estado desperto, o que

denominamos então nossa consciência é apenas uma pequena seleção de nosso ser consciente

inteiro" (16).

"Atrás dele, muito mais vasto que ele, há uma mente subliminal ou subconsciente que é a maior

parte de nós mesmos e contém alturas e profundidades que nenhum homem ainda tem sondado ou

avaliado. Este conhecimento dá-nos um ponto de partida para a verdadeira ciência da Força e seus

trabalhos; isto liberta-nos definitivamente da circunscrição pelo material e da ilusão do óbvio." (17)

Desde que há associado ao sistema nervoso completo muitos níveis ou graus de consciência, do

subconsciente ao superconsciente, não é impossível "que mesmo em objetos materiais, uma mente

universal subconsciente esteja presente, embora incapaz de agir ou comunicar-se com suas

superfícies por falta de órgãos" (18). O estado material, em vez de ser um vazio de consciência,

pode ser consciência que está adormecida.

"Não há em nós, ou no mundo, formas de consciência que são sub-mentais, para as quais nós

podemos dar o nome de consciência física ou vital? Se assim é, nós devemos supor na planta e no

metal também uma força para a qual podemos dar o nome de consciência, embora não seja a

mentalidade humana ou animal para as quais temos até agora preservado o monopólio daquela

descrição. Não somente é isso provável, mas, se considerarmos as coisas desapaixonadamente, isso

é certo." (19)

Sri Aurobindo argumenta que nós temos o direito de supor que essa consciência universal tenha um

propósito universal. No animal nós vemos perfeitas e propositadas operações do instinto que

freqüentemente excedem a mentalidade animal. E nas operações da natureza inanimada, nós

podemos discernir a mesma característica de uma "inteligência oculta", "o certamente eventual ou

imediato chegando à meta buscada" (20). Ele coloca que o único argumento contrário a uma fonte

consciente e inteligente na natureza é o desperdício que nós observamos:

"Mas obviamente esta é uma objeção baseada nas limitações de nosso intelecto humano, que

procura impor sua própria racionalidade particular, boa o suficiente para fins humanos limitados,

nas operações gerais da Força-Mundo." (21)

Força, então, implica uma inteligência e propósito e é essa força que cria os mundos. Essa energiaconsciente,

conhecida como Chit, Sri Aurobindo refere-se a ela como a Mãe Divina:

"A Mãe é a Força Consciente divina que domina toda existência, una e ao mesmo tempo com tantas

faces que seguir seus movimentos é impossível mesmo para a mente mais rápida e para a mais livre

e mais vasta inteligência. A Mãe é a consciência e a força do Supremo... Transcendente, a suprema

Shakti original, ela permanece acima dos mundos e interliga a criação ao sempre não manifesto

mistério do Supremo. Universal, a Mahashakti cósmica, ela cria todos esses seres e contém e

penetra, suporta e conduz todos esses milhões de processos e forças. Individual, ela incorpora o

poder desses dois mais vastos modos de sua existência, os faz vivos e próximos a nós e intermedia

entre a personalidade humana e a Natureza divina." (22)

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Mas, mesmo se nós aceitamos Sat e Chit, Sri Aurobindo pergunta, "Porque Brahman, perfeito,

absoluto, infinito, não necessitando de nada, não desejando nada, lançou de si forças de consciência

para criar em si próprio esses mundos de formas?". "Só pode ser por uma razão, por deleite" (23).

Exatamente como o finito resulta do infinito e o mutável do imutável, assim todas as coisas

variáveis são expressões do uno invariável deleite da existência.

"Aquilo que tem lançado a si próprio em formas é a trindade Existência-Consciência-Deleite,

Sachchidananda, cuja consciência é em sua natureza uma força criativa ou ainda auto-expressiva,

capaz de variação infinita em fenômeno e forma de seu ser auto-consciente e infindável desfrutar do

deleite daquela variação." (24)

Nosso engano parece repousar em nossa maneira ordinária de olhar o problema. Nosso ponto de

vista de que o mundo é tanto um mundo de sofrimento quanto um mundo de deleite é um exagero,

"um erro de perspectiva" (25). Realmente, se pudermos olhar o mundo impessoalmente,

descobriremos que o prazer em muito excede a dor. Nós tomamos o prazer já como dado e

dificilmente o notamos. A dor nos afeta mais profundamente por que é anormal ao nosso ser. O

problema torna-se mais confuso ainda pela noção de um Deus pessoal extra-cósmico que envolve a

questão ética. Se um tal Deus extra-cósmico é pressuposto, então não há como explicar dor,

sofrimento e mal. Nesse contexto, se Deus é Deus-de-Tudo, quem criou o sofrimento? E se nós

dizemos que sofrimento é uma provação que devemos atravessar, então somos deixados com um

problema moral, pois temos projetado um Deus imoral ou não-moral. Aqui, a questão poderia

surgir: "Quem criou ou porquê ou de onde foi criado aquele mal moral que lega a punição de dor e

sofrimento?" (26). E se nós dizemos que mal moral é meramente uma forma de ignorância, quem

criou a lei que pune um ato de ignorância? Porque, se o absoluto é livre e Deus de tudo, o mal não é

impedido de existir? Sri Aurobindo responde que essa questão é falsa porque nossas idéias

ordinárias de bem derivam de uma concepção dualística das coisas, baseadas em nosso ponto de

vista relativo. Isso é atacar o problema partindo de um ponto de vista das coisas errado. Ele deseja

resolver o problema "em sua pureza original, em bases de unidade na diferença" (27).

Primeiro, diz Sri Aurobindo, se nós nos elevarmos acima do ponto de vista humano ordinário,

podemos ver que "não vivemos em um mundo ético" (28). Quando tentamos forçar um significado

ético na totalidade da natureza, nos impedimos de chegar ao conhecimento de uma visão mais

compreensiva. Aquilo que está abaixo da humanidade é não ético e sempre existe um

distanciamento daquilo que causa mal e uma atração por aquilo que beneficia. "Este distanciamento

é a origem primária da ética, mas não é em si ético" (29).

Culpa e condenação são o início da ética, seja culpando a nós mesmos ou a outros. As pessoas

desejam auto-expressão e auto-satisfação; tudo que ameaça essa expressão é considerado mal, tudo

que auxilia é bem. Então, conforme a compreensão e auto-desenvolvimento se eleva acima do ego,

isto se estende a outras pessoas e ao universo.

Ética é apenas um estágio temporário na evolução. Abaixo da humanidade existe o estágio infraético,

e acima, o estágio supra-ético. Nós não podemos aplicar ética, desse ponto de vista, à solução

total do problema, mas podemos usá-la como parte da solução. Em outras palavras, não auxiliará a

questão da bondade de Sachchidananda, referindo-se a ela como retirar-se da dor e sofrimento

experienciados pela egoística consciência humana. A consciência universal é muito maior que o

despertar humano ordinário e o deleite universal é mais que emoção e sensação do ego ordinário.

"Quando o deleite do ser busca realizar a si próprio como deleite do vir-a-ser, move-se no

movimento de forças e ele próprio toma diferentes formas de movimento dos quais prazer e dor são

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correntes negativas e positivas. Subconsciente na matéria, superconsciente além da Mente, este

deleite busca na Mente e Vida, realizar a si próprio por emergência no vir a ser, na crescente autoconsciência

do movimento." (30)

Quando nossas mentes e egos tornarem-se harmônicos com outros seres e com as forças universais,

então dor e sofrimento irão diminuir. Mas mesmo na vida ordinária é possível eliminar a dor; por

exemplo, um sujeito hipnotizado pode, com sucesso, ser proibido de sentir dor enquanto sob

hipnose, e retornar ao estado de sentir dor quando acordado:

"... o hipnotizador suspende a consciência desperta habitual que é a escrava dos hábitos nervosos e é

capaz de apelar para o ser mental subliminal nas profundezas, o ser mental interior, que é o mestre,

se ele quiser, dos nervos do corpo." (31)

A mesma liberdade pode ser alcançada pela vontade quando somos capazes de identificar-nos com

a unidade divina tanto quanto com a separação dos objetos. O Si real em nós é o ser consciente

indivisível que suporta com deleite todas nossas experiências. Como seres mentais, contudo, nos

identificamos superficialmente com todas as variedades de experiências de bom e ruim, prazer e

dor. Mas isso não é necessário; isto é apenas hábito e nós podemos, se quisermos, voltar à resposta

oposta. Em vez de reações mecânicas de prazer e dor, podemos experienciar deleite, que é "o

verdadeiro e vasto Si-de-Deleite em nós" (32). Este seria um domínio maior do que uma atitude

desapegada ou de supressão, porque não haveria mais a aceitação de imperfeições - o imperfeito é

convertido ao perfeito. O Deleite toma o lugar de todas as dualidades que se desenvolvem em nosso

plano mental. A verdadeira natureza da dualidade é devida à nossa "auto-limitação pelo egoísmo"

como conseqüência de nossa ignorância de Sachchidananda que é nosso verdadeiro si.

No universo físico, o deleite da existência está subconsciente, então emerge em um movimento de

massa que se torna sensação, e então a mente e o ego emergem na "tripla vibração de dor, prazer e

indiferença" (33). Por último, emerge a totalmente consciente Sachchidananda. Este, diz Sri

Aurobindo, é o curso do mundo. Mas, diz ele, uma outra importante questão surge: Porque deveria a

Existência Una deleitar-se em tal movimento? Foi experiência de Sri Aurobindo que a resposta

repousa no fato de que "todas as possibilidades são inerentes em Sua infinitude e que o deleite da

existência - em seu mutante vir a ser, não em seu ser imutável - repousa precisamente na variável

realização de suas possibilidades" (34).

Nessa criação, onde o ser infinito perde a si próprio na aparência do não-ser e emerge na aparência

da alma finita, onde a consciência infinita perde a si própria na aparente inconsciência e emerge na

aparência de uma consciência limitada, onde a força infinita perde a si própria no aparente caos de

átomos e emerge no aparente equilíbrio incerto do mundo, onde o deleite infinito perde a si próprio

na aparente insensibilidade da matéria e emerge na aparência de discórdia, e onde a unidade toma a

aparência da multiplicidade, a real Sachchidananda, diz Sri Aurobindo, tem que emergir. E:

"O Homem, o indivíduo, deve tornar-se e viver como um ser universal; sua limitação da consciência

mental deve ampliar-se à unidade superconsciente na qual cada um abrange o todo; seu estreito

coração deve aprender o abraço infinito e substituir sua luxúria e discórdia pelo amor universal e

seu restrito ser vital deve tornar-se equânime a todo choque do universo sobre si e ser capaz de

deleite universal; seu verdadeiro ser físico deve conhecer a si próprio não como uma entidade

separada, mas una com, e sustentando em si própria, o total fluxo da força indivisível que é todas as

coisas; sua total natureza deve reproduzir no indivíduo, a unidade, a harmonia, a unidade em tudo,

da suprema Existência-Consciência-Deleite." (35)

A visão que Sri Aurobindo está apresentando é a de uma Realidade consciente manifestando a si

própria em formas mutáveis de sua própria substância imutável. O mundo é um "nascimento

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consciente" daquele princípio de conhecimento e vontade diretivos além da mente racional e não

uma concepção parcial na mente universal. A "maya" divina é então caracterizada por descrições

que melhor representam o luminoso "vir-a-ser" da Existência, Consciência-Força, Deleite, a

tradicional Sachchidananda. A maya inferior consiste em mente, vida e matéria em nosso mundo

familiar; ela é real, mas menos real que a maya divina, que é o aspecto de Sachchidananda da

Verdade dinâmica e auto-ordenada.

"Uma Verdade de ser consciente suporta essas formas e expressa a si própria nelas, e o

conhecimento correspondente à verdade assim expressada reina como uma Consciência-Verdade

supramental (36) organizando idéias reais em uma harmonia perfeita antes que elas sejam lançadas

para dentro do molde mental-vital-material. Mente, Vida e Corpo são uma consciência inferior e

uma expressão parcial que se esforça para chegar, na forma de uma variada evolução, àquela

superior expressão de si própria já existente para o Além-Mente. Aquilo que está no Além-Mente é

o ideal que, em suas próprias condições, está laborando para realizar." (37)

Mente é o princípio de divisão e análise, que é necessário para desenvolver medições e formações.

Mas por ser a mente mais uma faculdade que procura conhecimento que uma faculdade de

conhecimento, ela não pode explicar a existência no universo. A mente interpreta a verdade da

existência universal para seu uso prático, mas não pode conhecer ou identificar-se com essa

existência.

Mente, de acordo com Sri Aurobindo, é a primeira em uma série de separações que, por

necessidade, a vida deve seguir, pois ela é uma "forma de energia de consciência intermediária e

apropriada para a ação da Mente sobre a Matéria" (38). Vida é "um aspecto de energia da Mente,

não quando esta cria e refere-se a si própria à idéias mas à movimentos de força e à formas de

substâncias" (39). A Vida, em essência, não é necessariamente como nós a percebemos em plantas e

animais, ela é:

"Consciência-Força, força-consciente inerente de ser-consciente que manifesta a si própria como

energia nervosa plena de sensação submental na planta, como sentido-desejo e vontade-desejo nas

formas animais primárias, como sentido e força auto-consciente no animal em desenvolvimento,

como vontade e conhecimento mental acima de todos os anteriores, no homem." (40)

Na vida atômica, a forma individual é a base. Ela "assegura por sua agregação com outras, uma

existência mais ou menos prolongada de formas agregadas que devem ser a base de

individualizações mentais e vitais" (41). Sendo o primeiro agregado, o átomo é a fundação de

"unidades agregadas". A Força-Vida organiza energias vitais e quando dissolução, dispersão e

reconstrução ocorrem, essas energias vitais misturam-se entre si e se unem a outros seres.

"Intercâmbio, inter-mistura e fusão de ser com ser é o verdadeiro processo da vida" (42). Parece que

existem dois princípios de vida; um protege a separatividade individual e o outro une a si próprio

com outros. O mundo físico força a separatividade individual por que precisa ter formas separadas

concretas. Então, tendo construído essas formas concretas, a natureza inverte o processo - a forma

individual perece e a vida agregada progride com os elementos da forma que é dissolvida. No

último estágio da vida, os dois princípios são harmonizados:

"... O indivíduo é capaz de persistir na consciência de sua individualidade e ainda fundir a si próprio

com outros sem perturbação do equilíbrio preservativo e interrupção de sobrevivência." (43)

Se a unidade da multiplicidade deve ser realizada, a maya inferior tem que ser transformada na

maya divina. Em sua explanação da matéria, Sri Aurobindo admite que em um certo sentido a

matéria é "irreal e não existente, isto é, nosso presente conhecimento, idéia e experiência sobre a

Matéria não é verdade" (44).

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"Quando a Ciência descobre que Matéria resolve a si própria em formas de energia, ela encontrou

uma verdade fundamental e universal; e quando a filosofia descobre que a Matéria existe apenas

como aparência substancial à consciência e que a realidade una é Espírito ou Ser consciente puro,

ela encontrou uma maior e mais completa, uma verdade ainda mais fundamental." (45)

Mas o problema do porquê a energia deveria tomar forma de matéria ou porquê o espírito deveria

admitir o fenômeno da matéria afinal, confronta-nos. Se nos lembrarmos que a existência "apresenta

as obras de sua força para sua consciência como formas de seu próprio ser" (46), o resultado é que

"matéria é a forma da substância do ser que a existência de Sachchidananda assume quando se

submete a essa ação fenomenal de sua própria consciência e força" (47).

"Mente, por sua separação de sua própria realidade mais alta na Supramente, dá à Vida a aparência

de divisão e, por sua posterior involução em sua própria Força-Vida, torna-se subconsciente na Vida

e então dá a aparência exterior de uma força inconsciente às suas obras materiais. Portanto, a

inconsciência, a inércia, a desagregação atômica da matéria deve ter sua fonte nessa ação tododivisora

e auto-envolvente da Mente pela qual nosso universo veio a ser." (48)

Separação e divisão é a condição da consciência limitada e é por isso que a matéria aparece em

nossa percepção como maciça, estável e sólida. Mesmo se a ciência vê a matéria como energia,

nossa mente sensorial diz-nos que ela é uma massa sólida, isto é, um objeto no espaço.

Sri Aurobindo diz que a verdadeira realidade subjacente à matéria é uma não atômica extensão de

substância que não é uma agregação. Sua coexistência não é pela distribuição no espaço e nossa

percepção sensorial da matéria, separação e agregação são meramente formas através das quais as

forças de maya representam o deleite da existência:

"Portanto, nós chegamos a essa verdade da Matéria de que existe uma auto-extensão formulada de

ser que desenvolve a si própria no universo como substância ou objeto de consciência e cuja Mente

e Vida cósmica, em sua ação criativa, representa através de divisão e agregação atômica como a

coisa que nós denominamos matéria. Mas essa Matéria, como Mente e Vida, é ainda Ser, ou

Brahman em sua ação auto-criativa. É uma forma da força de Ser-Consciente, uma forma dada pela

Mente e realizada pela Vida. Ela contém em si como sua própria realidade, consciência oculta de si

própria, envolvida e absorvida no resultado de sua própria auto-formação e portanto autoesquecimento."

(49)

O mundo, então, é o processo de uma unidade diferenciada, não uma batalha interminável entre

opostos irreconciliáveis. Embora pareça à nossa consciência ordinária que a maya superior e a maya

inferior estejam em pólos opostos, na realidade os dois são um movimento de Sachchidananda. O

que é necessário no esquema de Sri Aurobindo é compreender toda a hierarquia dos níveis de

consciência desde a mais inferior maya envolvida no mundo material passando pelos graus

ascendentes, até a maya divina.

REALIDADE ONIPRESENTE (A Filosofia de Sri Aurobindo) Cap.II

REALIDADE ONIPRESENTE
A base fundamental sobre a qual repousa a estrutura da metafísica de Sri Aurobindo é que tanto a



matéria como o espírito são reais. Nem o espírito nem a matéria devem ser rejeitados como uma

ilusão. A filosofia idealista que nega a matéria tem visão tão limitada quanto a filosofia materialista

que nega o espírito. Ambas, se levadas às suas conclusões extremas, conduzem a uma

desvalorização da existência cósmica e da vida humana individual. Permanecendo à parte como

filosofias separadas, nem o materialismo nem o idealismo podem apresentar qualquer motivo

satisfatório para o esforço de aperfeiçoar o mundo ou a nós mesmos no mundo.

Partindo de um ponto de vista idealista absoluto, o mundo fenomenal é uma ilusão, uma miragem,

ou, no máximo, uma aparência da realidade última que é Espírito ou Idéia Arquetípica, e apenas

existe como alguma forma de realidade para a mente ignorante ou não iluminada, isto é, quando nós

alcançamos o conhecimento e iluminação, o mundo fenomenal será percebido como ilusório. O

materialista, por outro lado, não aceita a realidade do Espírito ou Idéia Arquetípica e refere-se a

toda experiência mental ou espiritual como um mero fenômeno secundário, incapaz de produzir

resultados. O materialista argumenta que existe apenas uma substância ou energia mecânica não

inteligível chamada natureza que irá sobreviver ao nosso momento particular da história humana.

Ao propor um monismo mecânico de energia, o materialista fica limitado na busca da verdade

metafísica e deve necessariamente levar a busca à transcendência, imortalidade e liberdade.

Sri Aurobindo afirma que nessas contradições, a mente humana não pode chegar a uma conclusão

satisfatória, pois a mente procura reconciliar e:

"Para alcançar aquela reconciliação, deve-se ultrapassar os graus que nossa consciência interior

impõe sobre nós e, seja por método objetivo de análise aplicado à Vida e Mente e Matéria, seja por

síntese subjetiva e iluminação, chegar ao ponto onde repousa a unidade última sem negar a energia

da multiplicidade expressiva." (1)

Longe disso, contudo, a humanidade tem necessitado testar separadamente, a seus extremos limites,

cada uma dessas oposições. Por exemplo, o argumento materialista falha porque pode ser

demonstrado que mesmo o conhecimento sensorial transcende os sentidos; ele é uma reconstrução

das sensações pelos poderes mais altos da mente. Nós sabemos que para os sentidos o sol gira em

torno da terra. Por outro lado, o materialismo tem servido a um propósito filosófico favorável

orientando a mente das pessoas em direção ao mundo objetivo e admitindo um desconhecido por

detrás de toda manifestação. Sri Aurobindo considera que um saudável agnosticismo é a chave para

o conhecimento, pois o universo sempre se apresenta como um mero símbolo de uma realidade

desconhecida "que se traduz aqui em diferentes sistemas de valores" (2).

O idealista também tem prestado um serviço filosófico auxiliando a orientar a mente das pessoas

em direção à procura de uma união mais alta com Deus. A verdade das percepções e concepções

dos idealistas sobre a divindade transcendente é inegável e tem uma maior realidade que o físico

desde que é livre de todas aparências de relações.

O conceito maior de Sri Aurobindo é que cada escola de pensamento limita a si própria a suas

próprias experiências ao recusar a validade das outras. A diferença entre o materialista e o idealista

pode parecer meramente metafísica, mas tem uma importância extremamente prática; ela determina

nossa inteira visão sobre a existência e "levanta a questão do valor da vida humana" (3). Em outras

palavras, se nós somos meramente indivíduos transitórios, então metas éticas, esforços mentais,



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aspirações e mesmo a própria vida podem ser apenas uma breve ilusão. Idealismo absoluto e

materialismo absoluto, ambos chegam a um mundo que é e não é ao mesmo tempo, -"é, porque é

presente e compelidor, e não é, porque é fenomenal e transitório..." (4).

Era experiência de Sri Aurobindo que ambas escolas de pensamento são parte da verdade e uma não

precisa comprometer ou contradizer a outra. A verdadeira reconciliação surge quando nós

"admitimos tanto o clamor do Espírito Puro para manifestar em nós sua liberdade absoluta como o

clamor da matéria universal, para ser o molde e a condição de nossa manifestação" (5).

Se a noção idealista de Espírito Puro e o conceito materialista de Matéria são dois lados da verdade,

a questão do Uno (espírito) e o múltiplo (matéria) se levanta. Como pode o Uno tornar-se o múltiplo

e o múltiplo permanecer o múltiplo sem diminuir a unidade do Uno? A resposta de Sri Aurobindo

repousa na sua afirmação do Uno absoluto como a Realidade Onipresente: "Um sem um segundo...

Tudo isso (tanto espírito como matéria) é o Brahman" (6). Nesse sentido, Brahman (a Divindade) é

ao mesmo tempo imanente e transcendente. Sri Aurobindo fala de seus três aspectos como

transcendente, cósmico e individual:

"Brahman é o absoluto, o Transcendente e incomunicável, a Existência Supracósmica que sustenta

o cosmos, o Si Cósmico que mantém todos os seres, mas é também o si de cada indivíduo: a alma,

ou a entidade psíquica é uma porção eterna do Ishvara (7); é sua Natureza suprema ou Consciência-

Força que se tornou o ser vivente em um mundo de seres vivos. O Brahman sozinho é, e por causa

dele todos são, pois tudo é Brahman; esta Realidade é a realidade de tudo o que nós vemos no Si e

na Natureza... O Senhor dos Seres é aquele que é consciente no ser consciente, mas ele também é o

Consciente em coisas inconscientes, o uno que é mestre e controla o múltiplo que está passivo nas

mãos da Força-Natureza. Ele é o Atemporal e o Tempo; Ele é o Espaço e tudo o que está no

Espaço; Ele é Causalidade e a causa e o efeito: Ele é o pensador e seu pensamento, o guerreiro e sua

coragem, o jogador e seus dados lançados. Todas realidades e todos aspectos e todos semblantes são

Brahman." (8)

Esses três, o transcendente, o cósmico e o individual, têm realidade, mas a primazia permanece com

o transcendente. O mundo existe pelo transcendente, o transcendente não existe pelo mundo.

A realidade onipresente, como Sri Aurobindo a concebe, é o princípio Sachchidananda (9) (Sat:

Existência, Chit: Consciência-Força, Ananda: Deleite ou Bem-Aventurança). Esses três atributos

são um e inseparáveis; isto é, Sat é Chit e também Ananda. Existência é Consciência-Força que é

também Deleite. O Absoluto Transcendente Uno é a realidade básica. Desde que Brahman é não

apenas transcendente, mas também imanente, a atividade cósmica e a individual como manifestação

do "Aquilo" são igualmente reais. Aí repousa a verdadeira reconciliação de espírito e matéria.

O Brahman silencioso (transcendente) e o Brahman ativo (imanente) não são opostos

irreconciliáveis, eles são dois atributos de Brahman - positivo e negativo, cada um sendo necessário

ao outro. "É para fora desse Silêncio que a palavra que criou os mundos para sempre se origina..."

(10). Em outras palavras, do Silêncio emana energias ativas para dentro do universo. O silêncio

transcendente pode ser chamado não-ser que está além de toda existência cósmica. Mas isso não

nega o cósmico e o individual como expressão de Si próprio. "No princípio", diz Sri Aurobindo,

"tudo isso era o Não-Ser. Foi então que o Ser nasceu" (11). Existência é uma expressão do não-ser,

mas é chamado não-ser para indicar sua liberdade de qualquer necessidade ou atividade que seja"

(12).

O segundo aspecto da triplicidade, Chit (consciência) é também referida como "Chit-Shakti" ou

Consciência-Força. Sri Aurobindo chama essa força de Força-Mãe (princípio feminino). Ela é uma

força consciente inerente em Sat, e aí pode estar em movimento ou em repouso, mas, seja qual for o



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modo, a força existe; é a natureza de Chit ter "três diferentes estados de sua consciência em relação

a sua própria eternidade" (13). O primeiro estado é aquele de repouso, auto-absorvida ou autoconsciente,

sem desenvolvimento de consciência em movimento. Este é denominado por Sri

Aurobindo sua "Eternidade sem tempo". O segundo é a "Todo-Consciência" das relações de tudo

pertencente a uma potencial manifestação ou manifestação já em processo. Aqui, passado, presente

e futuro são unidos em um. O terceiro estado é aquele de um movimento em processo da

Consciência-Força: o movimento "Tempo". Há ao mesmo tempo esta simultânea multiplicidade da

Realidade una que, diz Sri Aurobindo, co-existe com um eterno atemporal e uma eternidade do

tempo. Desde que Chit é o princípio operativo do universo, "pode ver o Atemporal desenvolver o

movimento-do-Tempo sem cessar de ser o Atemporal" (14). Nessas três formas, Chit:

"permanece acima dos mundos e interliga a criação ao sempre não manifesto... [e] cria todos esses

seres e contém, penetra, suporta e conduz todos esses milhões de processos e forças... incorpora o

poder deles... os faz vivos e próximos a nós". (15)

Por essa asserção de Consciência com Força, Sri Aurobindo evita o idealismo absoluto.

Talvez um dos mais proeminentes aspectos da filosofia de Sri Aurobindo seja a importância que ele

atribui a Chit-Shakti, a Mãe divina da filosofia Tântrica (16) original. Ela é o ser e o vir-a-ser:

"Tudo é ela, pois tudo é parcela e porção da Consciência-Força divina. Nada pode ocorrer aqui ou

em qualquer outro lugar além do que ela decidir e o Supremo sancionar; nada pode tomar forma

exceto o que ela, movida pelo Supremo, percebe e forma após lançar este em semente em sua

Ananda criadora." (17)

A natureza da Ananda (Deleite, Bem-Aventurança) de Sachchidananda é manifestada como a

multiplicidade de seres finitos e dos processos-de-mundo. Aqui, Brahman torna-se forma em

substância material para desfrutar "auto-manifestação" na consciência relativa e fenomenal:

"Brahman está nesse mundo para representar a si próprio nos valores da Vida. A Vida existe em

Brahman para descobrir Brahman em si própria. Portanto a importância do homem no mundo é que

ele dá ao mundo aquele desenvolvimento de consciência no qual sua transfiguração por uma

perfeita auto-descoberta torna-se possível. Cumprir Deus na vida é a humanidade do homem. Ele

parte da vitalidade animal e suas atividades, mas uma existência divina é seu objetivo." (18)

A Consciência-Força está em tudo que existe e tudo existe em virtude dessa Consciência-Força;

também, em tudo que é, reside Ananda, o deleite da existência, e as coisas são o que elas são por

causa desse deleite. Mas para nossa mente existem duas contradições significativas, a consciência

emocional e sensitiva da dor e o problema ético do mal. Como é possível explicar a presença

universal da dor e sofrimento se supõe-se que o mundo é o deleite da existência?

Se Brahman fosse um Deus pessoal e extra-cósmico sobre e acima do universo, e não afetado pela

existência, dor e sofrimento não poderiam ser explicados. Mas se é verdade que "Sachchidananda...

é uma existência sem um segundo; tudo o que é, é Ele" (19), então dor e sofrimento e mal são mais

manifestações de Deleite que negações de Deleite. As noções ordinárias de bem e amor que nós

julgamos Deleite e Bem-Aventurança vem de nossa equivocada concepção dualística das coisas.

Dessa base de referência dualística nós construímos um padrão de ética a respeito de o que é bom e

o que é ruim, mas é o mundo em que vivemos um mundo ético?

"A tentativa do pensamento humano em forçar um significado ético na totalidade da Natureza é um

daqueles atos de deliberada e obstinada auto-confusão, uma daquelas patéticas tentativas do ser

humano de ler a si próprio, seu habitual limitado si humano, em todas as coisas e julgá-los do ponto



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de vista que ele desenvolveu pessoalmente, que mais efetivamente impede-o de chegar a um real

conhecimento e completa visão." (20)

Ética é apenas um estágio na evolução e nela repousa o impulso para a auto-expressão. O mundo

possui três estágios: infra-ético, ético e supra-ético. Comum a eles está a Consciência-Força

desenvolvendo-se em formas para encontrar seu deleite. Moralidade, portanto, não deve ser tratada

como um padrão último de realidade.

A maioria de nós tende a julgar prazer e dor pela consciência mental e emocional ordinária, que é

limitada e depende quase inteiramente de hábito. Mas :

"Quando o deleite de ser busca realizar a si próprio como deleite do vir-a-ser, entra no movimento

de forças e toma diferentes formas de movimento do qual prazer e dor são correntes positivas e

negativas." (21)

No estágio ético, o deleite é caracterizado por dualidades de certo e errado, bom e mal, prazer e dor.

Conforme nosso próprio estado de consciência se move em direção a uma consciência mais cósmica

e além de nossas visões limitadas, nós experienciaremos o verdadeiro deleite universal dentro de

nós.

A natureza da Realidade Onipresente é então o Absoluto transcendente manifestando a Si próprio

como uma Consciência-Força universal e criando multiplicidades individuais para fora do autodeleite.

E esta é a realidade que a humanidade é - a causa e a meta do crescimento e criatividade:

"Como o poeta, artista ou músico quando cria não faz realmente nada, mas apenas desenvolve

alguma potencialidade de seu Si não manifestado em uma forma de manifestação e como o

pensador, estadista, mecanicista apenas dão forma a coisas que jaziam escondidas neles próprios

quando sua criação é posta em forma, assim ocorre com o mundo e o eterno." (22)

Toda criação ou vir-a-ser é esta auto-manifestação. "Para fora da semente evolui aquilo que já está

na semente..." (23). E se há uma meta na manifestação da auto-existência, diz Sri Aurobindo, ela

apenas pode ser uma complementação ou perfeição do indivíduo. Mas se, como algumas escolas de

pensamento colocam, a consciência individual está concentrada dentro dos limites das formas

finitas, uma completude é impossível. A meta final é a "emergência da consciência infinita no

individual" (24). A única maneira de podermos recobrar a verdade de quem somos nós é por autoconhecimento,

que é a verdade do Infinito em consciência, ser e deleite. O finito é meramente um

instrumento para essa expressão infinita.

"Então, pela verdadeira natureza do jogo-de-mundo como tem sido realizado por Sachchidananda

na vastidão de Sua existência estendida como Espaço e Tempo, nós temos que conceber primeiro

uma involução e uma auto-absorção do ser consciente para dentro da densidade e divisibilidade

infinita da substância, pois de outra maneira não poderia haver variação infinita; depois, uma

emergência da força auto-aprisionada para ser formal, ser vivo, ser pensante; e finalmente uma

liberação do ser pensante formado em uma livre realização de si próprio como o Uno e o Infinito

em ação no mundo e pela liberação, sua recuperação da Existência-Consciência-Deleite sem limites

que mesmo agora é secretamente, realmente e eternamente. Esse triplo movimento é a chave

integral do enigma-do-mundo." (25)

VIDA E OBRA (A filosofia de Aurobindo) cap.I

Sri Aurobindo nasceu em Calcutá, Índia, a 15 de agosto de 1872, em uma família de quatro irmãos
e uma irmã. Seu pai, Dr. K. D. Ghose, recebeu sua formação em medicina na Inglaterra e insistiu
que Sri Aurobindo e dois de seus irmãos fossem educados lá. Mesmo antes dos sete anos, quando
foi mandado à Inglaterra, seu pai contratou uma governanta inglesa em Calcutá para que sua criança
pudesse crescer ignorando a língua, cultura e religião indianas. A convicção anti-religiosa de seu pai
foi relembrada por Sri Aurobindo anos mais tarde:
"Todo mundo considera os pais de um grande homem muito religiosos, piedosos, etc. Isto não é
verdade em meu caso, em nenhuma medida. Meu pai era um tremendo ateísta." (1)
Um jovem precoce, Sri Aurobindo aprendeu a ler e escrever latim, francês, e escreveu poesias em
inglês. Aos doze anos de idade, ingressou na St. Paul's High School, em Londres, e, mais tarde,
cursou o King's College, em Cambridge. Estudou os filósofos, poetas e dramaturgos em grego
original e então foi dominar os idiomas alemão e italiano. Recebeu prêmios por excelentes
composições sobre os clássicos, literatura e história. Embora os anos de "High School" fossem
muito frutíferos academicamente, os fundos enviados por seu pai cessaram quase inteiramente e Sri
Aurobindo viu-se forçado a dormir em um apartamento londrino sem aquecimento, ir à escola sem
casacos pesados e alimentar-se com apenas metade do que lhe seria necessário. Contudo, graduouse
com honra na St. Paul's e formação plena em Cambridge.
No colégio, seus interesses voltaram-se para a libertação da Índia do domínio Britânico, e ingressou
em uma sociedade secreta denominada "Lotus and Dagger" (lótus e punhal). Breve como foi a
sociedade, Sri Aurobindo ficou com uma forte impressão de que um período de distúrbios violentos
e transformações revolucionárias no mundo estava vindo e que ele estava destinado a ser parte
disso. Prosseguiu seus estudos dos clássicos, poesia e línguas, ganhando honras em todos. Em
Cambridge, conforme pedido de seu pai, estava sendo preparado para o Serviço Civil Indiano,
conhecido na época como o "serviço celeste". Ele atingiu recordes em pontos no exame de grego e
latim do Serviço Civil Indiano, mas não desejando trabalhar para o governo Britânico, não
compareceu ao teste departamental de equitação e foi desclassificado. Antes da colação de grau em
Cambridge, Sri Aurobindo trocou a Inglaterra por seu lar, que não viu por quatorze anos.
Desembarcou na Índia somente para saber da morte de seu pai e encontrar sua mãe mentalmente
muito doente para reconhecê-lo. Mas outro evento ocorreu a ele no momento em que tocou o solo
indiano; a escuridão que, disse ele, o envolveu durante todos os seus anos na Inglaterra se dissipou:
"Desde que toquei meus pés em solo indiano, no cais Apolo, em Bombaim, comecei a ter
experiências espirituais, mas estas não eram divorciadas deste mundo, tinham uma relação íntima e
infinita com ele, tal como um sentimento de o Infinito permeando o espaço material e o Imanente
residindo em objetos e corpos materiais." (2)
Seu primeiro trabalho na Índia foi como professor de francês e inglês no Colégio Estadual de
Baroda. Seu primeiro amor foi a própria Índia. Escreveu uma série de fortes artigos atacando a
política moderada do Congresso Nacional Indiano e a Rainha-Imperatriz da Índia, a quem se referiu
como "uma velha senhora assim chamada por cortesia". A respeito de seus próprios compatriotas,
ele escreveu, "Nosso verdadeiro inimigo não é nenhuma força exterior a nós mesmos, mas nossa
própria lamentada fraqueza, nossa covardia, nosso míope sentimentalismo" (3).
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Em seu ímpeto para levantar e libertar as massas de seu povo, ele decidiu praticar Yoga, não apenas
como um trabalho espiritual, mas para obter uma força interior para uso nos bastidores da cena
política. Ao mesmo tempo, estudou diversas línguas indianas. Evidentemente, os estudantes ficaram
impressionados com os discursos de Sri Aurobindo; em uma ocasião, após uma sessão no
Congresso, eles desatrelaram os cavalos de sua carruagem e puxaram-na até sua casa.
Em 1906 ele renunciou ao Colégio Estadual de Baroda para aceitar a presidência do novo Colégio
Nacional, que havia sido fundado de acordo com seus princípios. Então passou a manifestar
abertamente seus ideais políticos e logo foi reconhecido como um líder nacional para a libertação da
Índia. Em seus editoriais para um jornal diário, ele conclamou a nação a um programa de boicote,
educação nacional, resistência passiva e completa independência. Quando o governo Britânico
procedeu à investigação no jornal, Sri Aurobindo foi acusado, mas absolvido.
Neste momento de sua carreira, Rabindranath Tagore, o Prêmio Nobel, escreveu sua "Homenagem
a Sri Aurobindo":
SAUDAÇÃO
Rabindranath, O Aurobindo, bows to thee!
O friend, my country's friend, O voice incarnate free,
Of India's soul! No soft renown doth crown thy lot,
Nor pelf or careless comfort is for thee; thou'st sought
No petty bounty, petty dole; the beggar's bowl
Thou ne'er hast held aloft. In watchfulness thy soul
Hast thou e'er held for bondless full perfection's birth
For which, all night and day, the god in man on earth
Doth strive and strain austerely; which in solemn voice
The poet sings in thund'rous poems; for which rejoice
Stout hearts to march on perilous paths; before whose flame
Refulgent, ease bows down its head in humbled shame
...
The fiery messenger thet with the lamp of God
Hath come - where is the king who can with chain or rod
Chastise him? Chains that were to bind salute his feet,
And prisons greet him as their guest with welcome sweet,
...
When I behold thy face, 'mid bondage, pain and wrong
And black indignities, I hear the soul's great song
Of rapture unconfined, the chant the pilgrim sings
In which exultant hope's immortal splendour rings,
Solemn voice and calm, and heart-consoling, grand
Of imperturbable death, the spirit of Bharat-land,
O poet, hath placed upon thy face her eyes afire
With love, and struck vast chords upon her vibrant lyre,-
Wherein there is no note of sorrow, shame or fear...
Sri Aurobindo continuou a praticar Yoga almejando elevar a atmosfera política a um nível
espiritual. E o fez em meio a envolvimento revolucionário, escritos, administração do colégio e
estudos. Não havia dúvidas quanto a seu progresso no Yoga; então sentiu que tinha chegado a hora
de consultar uma autoridade no assunto e, em 30 de dezembro de 1907, foi ao Yogi Vishnu Bhaskar
Lele. "Quero fazer Yoga", disse Sri Aurobindo, "mas para o trabalho, para ação, não para sannyasa
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(renunciando ao mundo) e o Nirvana". "Para você", respondeu Lele, "será fácil, pois você é um
poeta" (4).
Durante três dias os dois permaneceram em uma sala isolada. Sri Aurobindo relata as instruções de
Lele e nos diz o que aconteceu:
"Sente-se em meditação, mas não pense, olhe apenas para sua mente; você verá pensamentos vindo
para dentro dela; antes que eles possam entrar, lance-os para longe de sua mente até que ela seja
capaz de silêncio completo...(5). Nos sentamos juntos e eu segui com absoluta fidelidade o que ele
instruiu-me a fazer; nem eu mesmo tinha a menor idéia de para onde ele estava me conduzindo ou
eu mesmo estava indo. O primeiro resultado foi uma série de experiências tremendamente fortes e
uma radical transformação de consciência que ele (Lele) nunca havia pretendido - pois elas eram
'Adváiticas' e 'Vedânticas' e ele era contrário ao Advaita Vedanta (6), - e que eram até contrárias às
minhas próprias idéias, pois elas fizeram-me enxergar, com uma intensidade estupenda, o mundo
como um jogo cinematográfico de formas vazias na universalidade impessoal do Brahman
absoluto." (7)
"Isto (o nirvana) lançou-me repentinamente em uma condição acima e sem pensamentos, não
sustentada por qualquer movimento vital ou mental; não havia ego, nenhum mundo real - somente
quando se olhava através dos sentidos imóveis, algo era percebido ou penetrava em seu puro
silêncio como um mundo de formas vazias, sombras materializadas sem verdadeira substância. Não
havia nenhum Uno ou mesmo múltiplos, somente apenas absolutamente Aquilo, sem aspectos, sem
relações, puro, indescritível, inconcebível, absoluto, ainda supremamente real e unicamente real.
Isto não era nenhuma realização mental nem algo vislumbrado em algum lugar acima, - nenhuma
abstração -, era positivo, a única realidade positiva - embora não fosse um mundo físico espacial,
ocupava ou mesmo preenchia e inundava com seu semblante o mundo físico, não deixando lugar ou
espaço a nenhuma outra realidade além de si própria, não permitindo nada mais parecer atual,
positivo ou substancial... O que isto trouxe foi uma paz inexprimível, um silêncio estupendo, uma
soltura e liberdade infinitos." (8)
Tal experiência do transcendente impessoal é freqüentemente considerada como o final culminante
da liberação, mas para Sri Aurobindo isto foi o início, o primeiro passo em direção à descida da
Supramente, não um fim afinal.
Logo após esta tremenda experiência espiritual, um estranho incidente ocorreu. Um dos
revolucionários lançou uma bomba caseira na carruagem do magistrado de Calcutá (ele tinha
chicoteado um jovem revolucionário de 15 anos de idade até este cair inconsciente), mas ocorreu
que, em lugar do magistrado, duas senhoras estavam na carruagem e ambas foram mortas. Como
resultado desse incidente, Sri Aurobindo foi detido na manhã de 4 de maio de 1908 pela polícia
Britânica. Mais tarde ele relembrou:
"Quando fui detido e levado à estação de Lal Bazar, fiquei abalado em minha fé por um momento,
pois não pude olhar para dentro de Sua intenção. Vacilei, portanto, por um momento e em meu
coração clamei por Ele - 'O que é isto que aconteceu a mim? Eu acreditava que tinha uma missão de
trabalhar pelo povo de meu país e até que o trabalho estivesse feito, eu deveria ter Tua proteção?' -
Um dia passou, e um segundo dia, e um terceiro, quando uma voz veio de dentro para mim - 'Espere
e veja' - . Então tornei-me calmo e esperei, fui levado de Lal Bazar para Alipore e posto por um mês
em uma cela solitária, longe dos homens. Lá esperei dia e noite pela voz de Deus dentro de mim,
para saber o que ele tinha a dizer para mim, para aprender o que eu tinha que fazer... Lembrei então
que um mês ou mais antes de minha prisão, um chamado tinha vindo a mim para deixar de lado
toda atividade, para entrar em retiro e olhar dentro de mim mesmo, de modo que pudesse entrar em
comunhão mais íntima com Ele. Eu fui fraco e não pude aceitar o chamado. Meu trabalho [a
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libertação da Índia] era muito caro para mim e no orgulho de meu coração pensei que a menos que
eu estivesse lá, este poderia sofrer ou mesmo falhar e cessar; portanto não deveria deixá-lo.
Pareceu-me que Ele falou novamente a mim e disse - 'As amarras que você não teve a força de
quebrar, Eu as quebrei para você, porque não é minha vontade nem nunca foi minha intenção que
aquilo deveria continuar. Eu tenho outra coisa para você fazer e é para aquilo que Eu o trouxe aqui,
para ensinar o que você não poderia aprender por si próprio e treiná-lo para Meu trabalho' -. " (9)
Durante seu ano na prisão, Sri Aurobindo renunciou à presidência do Colégio Nacional "para evitar
embaraços ao conselho e possibilitá-los a dar continuidade à instituição" (10).
Enquanto estava na prisão, Sri Aurobindo recebeu a segunda grande experiência espiritual em sua
vida:
"Eu olhava para a prisão que me apartava dos homens e não era mais por suas altas paredes que eu
era aprisionado; não, era Vasudeva quem me cercava. Eu caminhava sob os ramos das árvores
defronte minha cela, mas esta não era mais a árvore, eu sabia que ela era Vasudeva, era Krishna
quem eu via ali parado, sustentando sobre mim sua sombra. Eu olhava para as barras de minha cela,
mesmo a grade que servia de porta, e novamente eu via Vasudeva. Era Narayana quem estava como
guarda e permanecia de sentinela para mim. Quando deitei sobre a manta grosseira que me foi dada
como cama, senti os braços de Sri Krishna ao meu redor, os braços de meu Amigo e Amante. Este
foi o primeiro uso da visão profunda que Ele me deu. Olhei para os prisioneiros da prisão, os
ladrões, assassinos, estelionatários, e quando os via, via Vasudeva, era Narayana quem eu
encontrava naquelas almas enegrecidas e corpos mal-usados... não era o magistrado... nem o
conselho de investigação quem eu via; era Sri Krishna… 'Agora você teme?' disse ele, 'Eu estou em
todos os homens e governo suas ações e suas palavras'." (11)
O Divino, na experiência de Sri Aurobindo não era mais o Inexprimível, o infinito sem tempo e sem
espaço de sua primeira experiência. O Divino tinha agora se tornado o conhecimento e a ignorância,
a dura realidade das coisas no mundo:
"Nós temos que olhar a existência de frente se nossa meta é chegar à solução certa, o que quer que
essa solução possa ser. E olhar a existência de frente é olhar a face de Deus; pois os dois não podem
ser separados... Este mundo de nosso labor e batalha é um mundo feroz, perigoso, destrutivo e
devorador no qual a vida existe precariamente e a alma e o corpo do homem movem-se entre
enormes perigos, um mundo no qual para cada passo a frente, quer queiramos ou não, algo é
golpeado e quebrado, no qual toda respiração da vida é também uma respiração da morte. Jogar a
responsabilidade de tudo aquilo que parece a nós mal ou terrível sobre os ombros de um semionipotente
Demônio, ou deixá-la de lado, como um papel da natureza, criando uma oposição
irreconciliável entre a Natureza-Mundo e a Natureza-Deus, como se Natureza fosse independente
de Deus, ou jogar a responsabilidade no homem e seus pecados, como se ele tivesse uma voz
preponderante no fazer deste mundo, ou pudesse criar qualquer coisa contra a vontade de Deus, são
artifícios grosseiramente confortáveis." (12)
Um ano depois, ao término de um longo processo, ele foi novamente absolvido e juntou-se aos
líderes revolucionários para combater o domínio Britânico. Fez conferências e fundou dois jornais
semanais: o Dharma e o Karmayogin. Em uma noite de fevereiro de 1910, um membro do conselho
precipitou-se para dentro do escritório do Karmayogin com uma mensagem de que a polícia estava
vindo para proceder a uma busca no escritório e prender Sri Aurobindo. O conselho reuniu-se
rapidamente para discutir quais providências tomar quando, no meio da confusão, uma voz veio a
Sri Aurobindo, "Não, vá a Chandernagore". Poucos minutos mais tarde, ele estava a caminho de
Chandernagore.
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Depois de seis semanas em Chandernagore, a voz veio a Sri Aurobindo novamente: "Vá para
Pondicherry".
"Eu não deixei a política por sentir que não poderia fazer nada mais aí; tal idéia estava bem longe de
mim. Eu saí dela porque não queria que nada interferisse com meu Yoga e porque tive um Adesh
(comando) muito distinto neste caso. Eu cortei inteiramente conexão com política, mas antes de
fazê-lo, eu soube de dentro que o trabalho que eu havia iniciado lá, estava destinado a ser levado em
frente, nas linhas que eu tinha previsto, por outros, e que o triunfo final do movimento que eu havia
iniciado era certo sem minha presença ou ação pessoal. Não havia o menor motivo de desespero ou
senso de futilidade por detrás de minha retirada." (13)
No começo de sua permanência em Pondicherry, Sri Aurobindo experienciou uma terceira maior
descoberta em sua vida espiritual. Essa realização foi uma visão da Realidade suprema como o Uno
e o múltiplo, "simultaneamente estática e dinâmica, caracterizada por silêncio e expressão,
vacuidade e criatividade, infinita e ainda composta de múltiplas formas" (14). Quando a experiência
ocorreu, Sri Aurobindo tinha estado sondando o escuro subconsciente físico e encontrado alguma
forte resistência. Repentinamente ele irrompeu para dentro de um outro tempo e espaço. No centro
da matéria mais escura, onde ele tinha estado sondando "em meio a um horror de imundície e lodo"
encontrou a Luz suprema, a Supramente e com esta reversão de escuridão em luz "todos os valores
de mundo mudaram" (15). "O alto encontra o baixo, tudo em um único plano" (16).
Em 1914, Paul Richard, um escritor francês, veio com sua esposa Mira a Pondicherry, onde ele e
Sri Aurobindo fundaram uma revista filosófica bilíngüe, o Aria (a Revista da Grande Síntese); sua
meta era oferecer ao leitor:
"1- Um estudo sistemático dos mais elevados problemas da existência;
2- A formação de uma vasta síntese de conhecimento, harmonizando as diversas tradições religiosas
da humanidade, tanto ocidental como oriental. Seu método será aquele do realismo, ao mesmo
tempo racional e transcendental, um realismo consistindo na unificação de disciplinas intelectuais e
científicas com aquelas de experiência intuitiva." (17)
Mas pouco tempo depois do início de seu trabalho conjunto, a guerra estourou e Richard e sua
esposa retornaram à França. Sri Aurobindo prosseguiu com o jornal, publicando os resultados de
suas meditações, pensamentos e experiências. Nos seis anos seguintes, ele publicou perto de cinco
mil páginas. Incluídos estavam oito de seus maiores trabalhos escritos: A Vida Divina, A Síntese do
Yoga, O Ideal da Unidade Humana, O Ciclo Humano (originalmente chamado A Psicologia do
Desenvolvimento Social), A Poesia Futura, Ensaios Sobre o Gita, O Segredo do Veda, e
interpretações originais dos Upanishads. A respeito de seus trabalhos escritos, Sri Aurobindo disse,
"Eu não tenho feito nenhum esforço extenuante em escrever, tenho simplesmente deixado o Poder
maior trabalhar" (18).
Em 1920, Mira Richard, conhecida por seus discípulos no mundo todo como a Mãe, retornou da
França para unir-se a Sri Aurobindo no trabalho espiritual que ela havia pressentido como
necessário para a terra. Ele tinha progredido em si mesmo, mas não podia fazer muito em relação a
ajudar outros. Com o auxílio da Mãe, ele encontrou o "método necessário". A Mãe nasceu em Paris,
França, em 21 de fevereiro de 1878. Seu primeiro encontro com Sri Aurobindo em 1914
convenceu-a de que era ele "quem tinha vindo para fazer o trabalho na terra e era com ele que eu
tinha que trabalhar" (19). Ela também teve a visão supramental do futuro. "A consciência da Mãe",
disse Sri Aurobindo, "e a minha são a mesma" (20).
"No mundo como nós o enxergamos, para nossa consciência mental em suas mais elevadas
altitudes, nós achamos que para cada positivo existe um negativo. Mas o negativo não é um zero,-
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na verdade aquilo que nos parece um zero é preenchido com força, prenhe com a força da
existência... Nem a existência do negativo faz seu correspondente positivo não-existência ou uma
irrealidade; ela apenas faz o positivo uma incompleta afirmação da verdade das coisas e mesmo, nós
poderíamos dizer, da própria verdade do positivo. Pois o positivo e o negativo existem não apenas
lado a lado, mas em relação um com o outro e um para o outro; eles se completam e poderiam, para
a todo-visão, que uma mente limitada não pode alcançar, explicar um ao outro. Cada um por si
próprio não é realmente conhecido; nós apenas começamos a conhecer em sua verdade mais
profunda quando podemos ler dentro dele as sugestões de seu aparente oposto." (21)
Com a Mãe encarregada do Ashram que se desenvolveu em volta deles, Sri Aurobindo pode se
retirar a um aposento no Ashram durante os últimos vinte e quatro anos de sua vida. Retiro não
significou para ele uma fuga das atividades mundanas, significou uma atmosfera apropriada para a
total dedicação que ele necessitava para cumprir sua missão - preparar o plano físico da terra para a
nova idade supramental, o reino dos céus sobre a terra. Ele continuou a escrever milhares de cartas
a seus seguidores e completou o poema épico Savitri (23.806 linhas de inspirada poesia).
Um quarto marco espiritual foi experienciado por Sri Aurobindo em 24 de novembro de 1926.
Nessa data, conhecida como o "Dia do Siddhi" (Dia da Vitória), a consciência da Sobremente
desceu para dentro do físico:
"Importantes extensões de consciência têm lugar em todos os níveis acima da mente, mas a
ascensão à Sobremente requer a introdução de uma nova dimensão: o sentido de ego individual
centralizador deve ser substituído por um sentido cósmico totalizador. Experiências interiores,
primeiramente percebidas como originadas do ego são agora vistas como vindas do conhecimento
universal. O sentido de o ego separado operando no conhecimento está perdido; tornou-se um
'ponto de vista especializado' dentro da consciência cósmica. Na Sobremente pode-se conhecer
através de qualquer 'ponto de vista' tão prontamente quanto através de qualquer outro, e o
envolvimento é semelhante tanto para qualquer outro ser, quanto para si próprio. O sentido do si é
ele próprio expandido; a pessoa se 'identifica' com todos os outros seres." (22)
Nesse plano de consciência não há descontinuidade ou separação - tudo é percebido como uma
única substância. Há uma sensação de estar alerta, quieto, em harmonia com o universo, os poderes
intelectuais são intensificados. A descida da Sobremente para dentro do físico prepara o caminho
para a futura descida do próximo plano de consciência mais alto - a Supramente.
De acordo com Sri Aurobindo, a consciência da Sobremente conhece a unidade de todas as coisas
no universo, mas não possui o poder de transformação, que é a chave para o avanço de toda
evolução. A consciência supramental é o único poder que pode transformar efetivamente a natureza
inferior e mudá-la em Natureza Divina. Qualquer outra coisa seria insuficiente para a consciênciaterra
dar o passo definitivo que ela deve dar. Somente é possível para a mente ser inteiramente
transformada após a vida ter sido transformada, e a transformação do físico deve acontecer antes
que a transformação plena da força-vida seja possível. Cada elemento mais alto depende do mais
baixo para sua própria transformação e o mais baixo apenas pode ser transformado quando é
pressionado pelo mais alto.
Um discípulo céptico, certa vez, insistiu que essa transformação para trazer para baixo a
Supramente era uma invenção impossível. Sri Aurobindo respondeu humoradamente:
"Que argumento maravilhoso! Desde que isto nunca foi feito, não pode ser feito! Dessa maneira
toda a história da terra deveria ter parado muito antes do protoplasma. Quando era uma massa de
gases, nenhuma vida havia existido, então, vida não pode existir - quando a vida estava lá, a mente
não havia surgido, então mente não pode surgir. Desde que a mente está lá mas nada há além, como
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não há nenhuma Supramente manifestada em ninguém, portanto Supramente não poderá nunca
existir. Sobhanallah! Glória, Glória, Glória à razão humana! Afortunadamente o Espírito Cósmico
ou Divino ou o que quer que seja que está lá não se importa com a razão humana. Ele ou Ela ou Isto
realiza aquilo que Ele, Ela ou Isto deve realizar, mesmo se isto pode ou não ser feito." (23)
E novamente:
"Eu acredito que a descida dessa Verdade [Supramente] abrindo o caminho para o desenvolvimento
de uma consciência divina aqui, seja o sentido final da evolução da terra. Se homens maiores que eu
mesmo não tiveram esta visão e este ideal diante de si, isto não é razão para que eu não siga meu
senso-verdade e visão-verdade. Se a razão humana considera-me um tolo por tentar fazer o que
Krishna não tentou, isso não me preocupa... Deixe todos os homens zombarem de mim se eles
quiserem, ou que todo inferno caia sobre mim se isso for por presunção minha, - Eu irei em frente
até que conquiste ou pereça. Este é o espírito no qual procuro a Supramente, nenhuma busca de
grandeza para mim ou para outros." (24)
Sri Aurobindo aspirava pela transformação da mente, vida e mundo material em uma perfeita forma
de expressão do Espírito Divino. Um dos aspectos únicos de sua filosofia quando comparada a
outros sistemas é a importância que ele atribui à matéria, vida e mente. Sua genialidade repousa em
sua visão inédita e no método integral de que ele se utiliza para trazer a consciência supramental
para dentro da natureza-terra. Ele via a humanidade como seres transicionais, evoluindo para a
Supramente a partir da mente ordinária e percebeu que essa evolução deve ser consciente de modo a
transformar o mundo e tudo o que estiver nele. Após retirar-se em reclusão, Sri Aurobindo viu-se
frente a acusações de escapar do duro mundo de realidade e sofrimento para uma agradável, sem
dor e não abrasiva reclusão. Ele respondeu a estas:
"Mas que idéias estranhas novamente! - que eu nasci com um temperamento supramental e não
tenho conhecido nada sobre duras realidades! Bom Deus! Toda minha vida tem sido uma batalha
com as duras realidades, desde opressões, passar fome na Inglaterra, dificuldades constantes e
violências perigosas até dificuldades muito maiores continuamente irrompendo aqui em
Pondicherry, exteriormente e interiormente. Minha vida tem sido uma batalha desde seus primeiros
anos e é ainda uma batalha: o fato de eu enfrentá-la agora de uma sala escada acima e por meios
espirituais tanto quanto outros que são externos não faz nenhuma diferença ao seu caráter. Mas,
naturalmente, como nós não temos exaltado essas coisas é natural, eu suponho, que outros pensem
que estou vivendo em uma augusta, glamorosa terra de sonhos de comedores de lótus onde duros
fatos da vida ou Natureza não se apresentam. Mas que ilusão!" (25)
Durante a permanência de Sri Aurobindo em Pondicherry, Tagore visitou-o e posteriormente
escreveu:
"Desde o primeiro momento pude perceber que ele havia estado procurando pela alma e tinha
encontrado-a, e por intermédio desse longo processo de realização, havia acumulado dentro dele um
poder silencioso de inspiração. Sua face era radiante com uma luz interior, e sua presença serena
evidenciou para mim que sua alma não estava aleijada e estancada por alguma doutrina tirânica, que
tem prazer em impor penitências sobre a vida... Eu senti que a eloqüência dos antigos sábios (Rishi)
hindus falava, por intermédio dele, daquela equanimidade que dá à alma humana sua liberdade da
imersão no Todo. Eu disse a ele, - Você tem a palavra e nós estamos esperando para aceitá-la de
você. A Índia irá falar por meio de sua voz para o mundo, - Ouça o que digo -." (26)
No dia do septuagésimo sexto aniversário de Sri Aurobindo, a Índia alcançou a liberdade. Nessa
ocasião ele enviou uma mensagem ao mundo:
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"15 de agosto de 1947 é o dia do nascimento da Índia livre. Este dia assinala para ela o fim de uma
era antiga, o começo de um novo tempo... Na realidade, neste dia eu posso ver quase todos os
movimentos do mundo que esperava ver em minha vida, embora então eles parecessem sonhos
impraticáveis, chegando ao seu preenchimento ou a caminho para alcançá-lo...
O primeiro desses sonhos era um movimento revolucionário que pudesse criar uma Índia livre e
unida. A Índia hoje é livre, mas não alcançou a unidade...
Outro sonho era pela reabilitação e a libertação da população da Ásia e o seu retorno ao grande
papel no progresso da civilização...
O terceiro sonho era uma união mundial formando a base exterior de uma mais nobre, mais
brilhante e mais bela vida para toda humanidade... O momento está aí... Um novo espírito de
unidade irá dominar a raça humana.
Outro sonho, a dádiva espiritual da Índia para o mundo já começou... Em meio às catástrofes do
período, mais e mais olhos estão se voltando para ela com esperança e há mesmo uma crescente
afluência não apenas aos seus ensinamentos, mas às suas práticas psíquicas e espirituais.
O sonho final era um passo na evolução, que poderia elevar o homem a uma mais alta e mais ampla
consciência e começar a solução dos problemas que o tem deixado perplexo e inquieto desde que
ele primeiramente começou a pensar e sonhar com perfeição individual e sociedade perfeita. Esta é
ainda uma idéia e esperança pessoais, um ideal que começou a tomar forma na Índia e no Oeste, em
mentes direcionadas para o futuro. As dificuldades no caminho são mais formidáveis que em
qualquer outro campo de trabalho, mas dificuldades foram feitas para serem superadas..." (27)
Três anos mais tarde, em 5 de dezembro de 1950, Sri Aurobindo deixou o corpo físico. A hora
marcada para o enterro foi adiada. A Mãe anunciou:
"O funeral de Sri Aurobindo não ocorreu hoje. Seu corpo está carregado com tal concentração de
luz supramental que não há sinal de decomposição, e o corpo será mantido repousando em seu leito
enquanto se mantiver intacto." (28)
Registros médicos confirmam que por mais de quatro dias seu corpo não mostrou nenhum sinal de
decomposição. Em 9 de dezembro a luz supramental havia começado a partir e o enterro foi
realizado.
Seis anos mais tarde, em 24 de abril, a Mãe deu ao mundo a seguinte mensagem:
"A manifestação do Supramental sobre a terra não é mais uma promessa, mas um fato vivo, uma
realidade. Ela está trabalhando aqui, e virá o dia em que o mais cego, o mais inconsciente, mesmo o
mais descrente será obrigado a reconhecer isto." (29)