Por toda sua obra magna filosófica, A Vida Divina, Sri Aurobindo argüi pela necessidade da
involução dos princípios de unidade superiores para causar a evolução do mundo inferior de
multiplicidade. No primeiro capítulo ele diz:
"Nós falamos da evolução da Vida na Matéria, a evolução da Mente na Matéria; mas evolução é
uma palavra que meramente refere-se ao fenômeno sem explicá-lo. Pois parece não haver nenhuma
razão para a Vida evoluir de elementos materiais ou Mente de formas viventes, a menos que
aceitemos a solução vedântica de que a Vida já está involuída na Matéria e a Mente na Vida porque,
em essência, a Matéria é uma forma de Vida velada, e Vida uma forma de Consciência velada." (1)
Mais ainda, nós vimos que os princípios que constituem a existência são idênticos em seu ser,
embora diversos em seu vir a ser. Isto significa que no real ponto de partida da evolução terrestre, o
inconsciente, estão necessariamente involuídos todos os princípios da realidade última. Essa teoria
de Sri Aurobindo reconcilia a realidade sem tempo de Ser com o mundo temporal de vir a ser e
explica a evolução teleológica como um derradeiramente livre ato de criação. Sri Aurobindo
sustenta que todas as várias gradações e tipos de ser vieram à existência pela Consciência-Força
manifestada na matéria pelo poder da Supramente que constrói suas próprias formas na
multiplicidade para a unidade interior. Isso ele chama a involução do Espírito. Evolução, então, é
um auto-desenvolvimento do Espírito. Um exemplo que ele utiliza é o da vida involuída na matéria.
A questão é, se a vida não está involuída na matéria, a partir de que ela evolui? Neste argumento,
Sri Aurobindo mostra que vida é uma força universal que trabalha para criar, modificar, reconstruir,
manter, dissolver e energizar formas substanciais com uma atividade e intercâmbio de uma energia
consciente como sua base:
"No mundo material que nós habitamos, a Mente está involuída e subconsciente na Vida, como a
Supramente está involuída e subconsciente na Mente, e esse instinto de Vida com uma Mente
subconsciente involuída está novamente ela própria involuída na Matéria" (2).
A Matéria é então a fundação e o começo do Espírito em desenvolvimento. "O universo material
principia com o átomo formal sobrecarregado com energia, instinto com a substância não formada
de um subconsciente desejo, vontade e inteligência" (3). É para fora dessa matéria que a vida nasce.
Em seu argumento pela involução Sri Aurobindo diz que a natureza mostra muita ordem para ser
um processo de mero acaso, e muito "jogo livre" de variação para ser controlada por qualquer
espécie de necessidade mecânica. "Deve haver por detrás da Necessidade ou nela mesma uma lei de
unidade associada à coexistente, mas dependente, lei de multiplicidade..." (4). E, se existe uma
necessidade que compele a evolução, é necessário que exista potencialmente no inconsciente uma
consciência já involuída que, no tempo certo, pode irromper de sua assim chamada prisão. Para Sri
Aurobindo, esta consciência é o princípio supramental.
Concordantemente existe uma consciência involuída dentro de cada ação da evolução e mesmo a
mais limitada prisão do inconsciente é uma condição indispensável para o início da evolução. Sri
Aurobindo chama isso o "princípio de livre variação de possibilidades" (5) que significa que
necessidade mecânica ou acaso existem somente em aparência, não em realidade. Ele relembra-nos
que a Supramente é o poder que impele a potencialidade para atualidade, pois todos os estágios são
expressões do conhecimento da Supramente e sua própria auto-percepção é trazida em cada átomo.
UMA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO - Joan Price
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Exatamente como a Existência é inerente na Consciência-Força e Deleite, assim também cada
estágio na evolução é inerente na substância e energia.
A involução de Sachchidananda dá à dividida existência de mente, vida e matéria sua divina
origem. Nós precisamos relembrar que a unidade não é penalizada na aparente separação, porque o
divino Brahman conduz sua força de consciência para dentro até mesmo do mais limitado
inconsciente e a Alma Divina sempre vê a si própria em todas as formas:
"Em tudo está a mesma Alma, o mesmo Ser divino; a multiplicação de centros é apenas um ato
prático de consciência com intenção de instituir um jogo de diferença... baseado na unidade
essencial..." (6)
Sri Aurobindo havia mostrado que a involução existe, mas uma questão permanece. Como a criação
nesse mundo familiar de nossa experiência cotidiana veio a ser tal consciência limitada, e por que
nós usualmente vemos a matéria inconsciente como o início e o fim de tudo? Por que nossa alma
parece não mais que um temporário acidente no tempo, e se ela é imortal, por que parece tão
estranha a nós? A resposta a todas as questões é a mesma: ignorância.
Ignorância significa "ignorar" ou "não ver" e é associada por Sri Aurobindo à maya inferior. Mas a
ignorância não é considerada por ele como desempenhando um papel negativo em nosso mundo e
experiência. Ela parte da multiplicidade como a realidade básica "e de modo a retornar à real
unidade deve principiar com a falsa unidade do ego" (37). O estágio da ignorância é positivo porque
sem ela a evolução seria impossível. Para Sri Aurobindo a criação é uma involução do Espírito para
dentro da Ignorância, que é o elemento necessário da evolução para dar a nosso mundo a promessa
da perfeição. Através dos séculos, pensadores e pessoas criativas do mundo todo têm realizado a
ignorância da natureza e a verdade de Deus interligados por uma realidade:
"...a perfectibilidade do homem, a perfectibilidade da sociedade, a visão de Alwar da descida de
Vishnu e dos Deuses sobre a terra, o reino dos santos... a cidade de Deus, o milênio, o novo céu e
terra do apocalipse..." (8)
Mas essas intuições nunca realmente tiveram fundamentos em "conhecimento seguro" e as pessoas
continuam a oscilar entre a idéia de um brilhante futuro para a humanidade e uma cinzenta
depressão do absurdo da vida. De acordo com Sri Aurobindo, a vida divina evoluindo na natureza
terra não é apenas nossa imaginação esforçando-se por alcançar, em falsa esperança, um futuro
brilhante; existe uma base racional para tal ponto de vista:
"...o termo inferior de ser no qual nós atualmente vivemos contém em si próprio o princípio e
intenção daquilo que o excede e é por seu próprio auto-exceder e transformar que ele pode
encontrar e desenvolver-se em uma completa forma de sua real essência." (9)
Mesmo uma realização de nossa ignorância, então, não deve ser uma depressão, pois ignorância é
meramente o poder de Conhecimento reter a si próprio e limitar sua ação; ela não é uma Vontade
separada existindo independentemente da Consciência Divina. Ela tem, de fato, a capacidade para
evoluir em conhecimento porque o conhecimento é potencial nela.
Se ignorância é conhecimento limitado, e se conhecimento é potencial na ignorância, não pode
haver, para Sri Aurobindo, um absoluto bem e um absoluto mal. "...Conhecimento e Ignorância são
luz e sombra da mesma consciência..." (10). Após o conhecimento espiritual involuir para dentro da
ignorância e então para dentro do inconsciente, ele emerge primeiro a partir do inconsciente e então
para fora da ignorância para um mais alto estado de consciência:
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"De fato, o que está acontecendo é que a ignorância está buscando e preparando para transformar a
si própria por uma iluminação progressiva de sua escuridão no Conhecimento que está já encerrado
dentro dela; a verdade cósmica manifestada em sua real essência e figura poderia, por essa
transformação, revelar a si própria como essência e figura da suprema onipresente Realidade." (11)
Esse esforço em direção ao auto-conhecimento está profundamente inerente na consciência da
humanidade, e esse esforço verdadeiro é nossa esperança para um futuro brilhante:
"O mundo vive em nós, pensa em nós, forma a si próprio em nós; mas nós imaginamos que somos
nós quem vivemos, pensamos, tornamo-nos separados por nós mesmos e para nós mesmos. Como
somos ignorantes de nosso si sem tempo, superconsciente, subliminal e subconsciente, também
somos ignorantes de nosso si universal. Apenas isso nos poupa: que nossa ignorância é uma
ignorância que está plena de impulso e se esforça irresistivelmente, eternamente, pela verdadeira lei
de seu ser, em direção à realização de auto-posse e auto-conhecimento." (12)
Nós vimos que, de acordo com Sri Aurobindo, ignorância é conhecimento limitado e uma parte do
processo evolucionário, mas como pode a ignorância "entrar em ação ou manter a si própria em
ação em um Ser absoluto que deve ser consciência absoluta e portanto não pode ser sujeito a
ignorância?" (13). Onde se origina a ignorância?
Primeiramente, para evitar distorcer a verdadeira Unidade integral de Brahman dizendo que
ignorância é apenas individual ou apenas cósmica, Sri Aurobindo coloca que "Ignorância deve
necessariamente ser parte do movimento do Uno (Brahman), um desenvolvimento de sua
consciência sabidamente adotado, à qual não é forçosamente sujeita, mas que utiliza para seu
propósito cósmico" (14). Se essa idéia parece paradoxal, a solução pode ser encontrada na ação da
Força-Consciência (Chit) manifestando a si própria em Vontade e Conhecimento (Supramente) que
manifesta o fenômeno da ignorância. Assim, dentro da ignorância repousam encerrados vontade e
conhecimento conscientes. Apenas a vontade e conhecimento conscientes têm o poder dinâmico
para manifestarem-se de modo a experienciar todas as formas, mesmo a que parece ser a mais
limitada. Mesmo em nós próprios descobrimos que essa energia de Força-Consciência é a força
mais dinâmica que temos. O dinamismo atua sobre dois objetos; nós mesmos ou mundo interno e os
outros, "sejam criaturas ou coisas", no mundo externo em torno de nós. Mas em Sachchidananda, a
distinção de interno e externo não se aplica como para nós, porque nós fazemos a divisão em nossa
mente. Em nós, apenas uma parcela da força de nosso ser é "identificada com nossa ação
voluntária" (15), o restante é identificado com nossas ações mentais ou outras ações involuntárias ,
subconscientes ou superconscientes. Mas em Sachchidananda essa separação e seu efeito não se
aplicam, porque tudo é seu si indivisível, e efeitos são movimentos de sua Força-Consciente em
operação.
Brahman tem tanto consciência ativa como passiva. A consciência ativa expressa a si própria na
criação (involução), a consciência passiva é o reservatório do qual a energia ativa flui. O mesmo
processo ocorre em seres humanos. Quando nós agimos, a totalidade de nossa personalidade
permanece por detrás do ato, mas a totalidade da personalidade não expressa a si própria na ação.
De fato, apenas uma pequena porção dela assim o faz; o restante é conservado como uma fonte de
poder potencial que é capaz de projetar a si própria em um dado momento para a ação. A parte ativa
de nós é apenas um diminuto fragmento da consciência passiva, o reservatório profundo de nosso
ser. Em Brahman a consciência passiva e ativa são:
"a mesma consciência, a mesma energia, numa extremidade em um estado de auto-reserva, na outra
lançada em um movimento de auto-doação e auto-desenvolvimento, como o repouso de um
reservatório e o correr dos canais que fluem dele." (16)
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Brahman, contudo, não passa alternadamente da passividade para atividade e novamente de volta à
passividade. Se esse fosse o caso, desde que existe o universo apenas o Brahman ativo poderia estar
na existência. Mas se o universo fosse dissolvido, o Brahman ativo e tudo mais deveriam cessar.
Brahman possui atributos passivos e ativos simultaneamente e "não passa alternadamente de um
para o outro como do sono para o despertar" (17).
Por outro lado, o Brahman Absoluto transcende toda atividade e passividade; é consciente de
ambos, mas não perdido em nenhum, o que significa significativamente que ignorância não é um
elemento do Brahman Absoluto e consequentemente não pode haver "nenhuma Ignorância original
e primal" (18).
Na multiplicidade de almas, aí também não há divisão original, portanto nenhuma ignorância. Se
ignorância fosse inerente na alma ninguém poderia aspirar a elevar-se acima da ignorância para
dentro da presença do conhecimento. Em cada alma o Divino imanente é consciente de sua unidade
com o Uno e o múltiplo. Mesmo "nossa consciência superficial, identificada com o corpo e com a
vida dividida e mente dividida, é ignorante; mas estas também podem ser iluminadas e tornadas
conscientes. Multiplicidade, então, não é necessariamente causa da ignorância" (19).
"A origem da Ignorância deve então ser buscada em alguma auto-absorvida concentração... de
Força-Consciente em ação em um movimento separado da Força; para nós isso toma a aparência de
mente identificando a si própria com o movimento separado e identificando a si própria também no
movimento separadamente com cada uma das formas resultantes disso. Assim ela constrói uma
parede de separação que impede a consciência em cada forma de conscientizar-se de seu próprio ser
total, de outras consciências encarnadas e do ser universal." (20)
Agora, diz Sri Aurobindo, nós temos que nos perguntar qual é a natureza dessa auto-absorção, dessa
auto-esquecida concentração? Se fosse a ação do ser inteiro ou da inteira força de ser, então ela
deveria ter todo conhecimento. Deve então surgir como um fenômeno subordinado por alguma
limitação de consciência. "Ignorância é o esquecimento do Si e do Todo com propósitos pela
Natureza, deixando-os de lado... de modo a fazer somente aquilo que ela tem que fazer em algumas
operações exteriores da existência" (21).
A natureza interior não é ignorante. Nós temos a capacidade e potencialidade de conhecimento
total, mas como seres mentais nós vivemos de momento a momento e estamos, portanto, em uma
espécie de ação superficial de consciência. Nós somos ignorantes de nosso futuro e nosso passado
exceto por uma pequena parte que podemos relembrar pela memória. Sri Aurobindo sustenta que
nossa existência no momento não é de maneira nenhuma a verdade total de nosso ser, é apenas uma
verdade pragmática que nos serve de momento a momento desempenhando o ator, o soldado, o
poeta, ou tudo o mais da vida superficial.
Por causa do ego, freqüentemente esquecemos a nós próprios como o ator e nos tornamos a parte
que estamos desempenhando, por exemplo, "soldado esquece a si próprio no ato e se torna o ataque
e a fúria e a matança" (22).
"A inconsciência é superficial como a ignorância da mente humana desperta ou a inconsciência ou
subconsciência de sua mente adormecida, e dentro dela está o Todo-consciente; é inteiramente
fenomenal, mas é o fenômeno completo.... Nesciência na Natureza é a completa auto-ignorância; o
conhecimento parcial e a ignorância geral do homem é uma auto-ignorância parcial marcando em
sua ordem evolucionária um retorno em direção ao auto-conhecimento.... A ignorância é efetiva
dentro dos limites daquele movimento e é válida para seus propósitos, mas fenomenal, parcial,
superficial, não essencialmente real, não integral... Naquela verdadeira verdade de si própria é uma
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involuída Consciência e Conhecimento evoluindo de volta a si própria, mas é dinamicamente
efetiva como uma Inconsciência e uma Ignorância" (23).
Quando Sri Aurobindo fala de um movimento parcial de Força-Consciência absorvida em um
campo limitado de forças e ações, ele não está implicando em dualismo: é mais propriamente uma
força integral e não algo que contradiz conhecimento:
"Essa Ignorância é, como temos visto, realmente um poder do Conhecimento para limitar a si
próprio, para concentrar-se no trabalho em mãos, uma concentração exclusiva na prática que não
impede a plena existência e atuação do ser consciente total por detrás, mas uma atuação nas
condições escolhidas e auto impostas na natureza. Esse poder de auto-limitação para uma atuação
particular, em vez de ser incompatível com a absoluta força-consciente daquele Ser, é precisamente
um dos poderes que nós poderíamos esperar existir entre as múltiplas energias do Infinito" (24).
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