Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




RENASCIMENTO E KARMA (A FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO) Cap.VII

O nascimento e a morte são hoje talvez os maiores mistérios em nossas vidas. A solução de Sri

Aurobindo para esses mistérios baseia-se em sua experiência de que "o universo é um processo

auto-criativo de uma Realidade suprema cuja presença faz do espírito a substância das coisas" (1).

Dessa premissa ele extrai conclusões sobre nascimento, vida e morte, o antes e o depois.

Primeiramente recapitulemos brevemente suas descobertas. A realidade "atrás" da aparência do

universo é Sachchidananda - uma infinita Existência, uma infinita Vontade e Força-Consciente, um

infinito Deleite. Sua Supramente tem arranjado a ordem cósmica indiretamente por intermédio dos

três termos limitantes, mente vida e matéria. O universo material é o mais baixo ou o mais concreto

estágio da manifestação, isto é, uma involução dessa realidade triuna para dentro do inconsciente. A

evolução daquele ser manifestado para uma recuperação da consciência-do-si é inevitável, isto é, é

sua natureza encontrar seu si que foi perdido no inconsciente. É através do indivíduo consciente que

este recuperar o si é possível:

"A imensa importância do ser individual, que cresce na medida em que ele ascende na escala, é o

mais marcante e significativo ato de um universo que começou sem consciência e sem

individualidade em uma indiferenciada Nesciência." (2)

O crescimento do indivíduo é necessário para a descoberta de si próprio, do Si universal e do

transcendente. Se esta solução de Sri Aurobindo é aceita, então o renascimento não é mais apenas

uma possibilidade, ele se torna uma necessidade, "uma conseqüência inevitável da natureza raiz de

nossa existência" (3).

O nascimento individual, então, é uma necessidade da manifestação da Alma Divina no plano físico

e não é meramente uma experiência isolada sem ter sido preparada no passado para seu futuro.

"Em um mundo de involução e evolução, não de formas físicas apenas, mas de seres conscientes

através de vida e mente até o espírito, tal suposição isolada de vida no corpo humano não poderia

ser a regra da existência da alma individual; este seria um arranjo inconseqüente e sem sentido, um

capricho para o qual a natureza e sistema de coisas aqui não tem lugar, uma violência contrária que

poderia quebrar o ritmo da auto-manifestação do Espírito." (4)

A intrusão repentina de uma alma individual para dentro de uma progressão evolucionária poderia

fazer disso uma causa sem um efeito ou um efeito sem uma causa; poderia apenas ser parte do

presente sem um passado ou futuro. A vida individual deve ter o mesmo ritmo da vida cósmica,

porque a vida humana é um termo em uma série através da qual Brahman no universo gradualmente

desenvolve e elabora seu propósito por intermédio do indivíduo. A ascensão da consciência-dealma

no corpo, que é renascida na ordem ascendente das coisas, é o sistema dessa evolução. Um

errante indivíduo experienciando-a uma vez e ascendendo a algum outro lugar é, no sistema de Sri

Aurobindo, ilógico desde que a evolução progressiva do Espírito no cosmos tem sua contraparte na

progressiva evolução da alma através de nascimentos individuais.

Neste mundo, os seres humanos têm dois elementos, o livre ser espiritual e a persistente alma em

desenvolvimento:

"Como a pessoa espiritual impessoal ele é uno em sua natureza e ser com a liberdade de

Sachchidananda, que aqui consentiu ou desejou sua evolução na Nesciência para uma certa fase de

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experiência-de-alma... Como a alma de personalidade, Ele próprio é parte daquele longo

desenvolvimento da experiência-de-alma nas formas da Natureza." (5)

O Espírito é uno com o Transcendente e a alma é una com Sachchidananda expressa no mundo. O

Espírito por intermédio da Supramente reveste-se das formas de mente, vida e corpo unicamente

pela manifestação de sua alma na evolução. Desde que o Espírito tem um passado pré-humano e um

futuro super-humano, é lógico supor que nem ele nem a alma irão tomar exatamente as mesmas

formas repetidamente.

A razão para mais de um nascimento humano é que a alma tem ainda que terminar aquilo que ela

veio fazer pelo desenvolvimento da humanidade; ela tem ainda que evoluir a humanidade em algo

mais alto que esta presentemente é:

"Obviamente, a alma que habita em um antigo habitante das Antilhas (Caribe) ou em um primitivo

não instruído ou em um Apache de Paris ou em um gangster americano, ainda não esgotou a

necessidade de nascimento humano, não desenvolveu todas suas possibilidades ou o completo

significado de humanidade, ainda não desenvolveu o senso de Sachchidananda no Homem

universal; nem a alma que reside em um Europeu vitalístico ocupado com produção dinâmica e

prazer vital; ou em um camponês asiático envolvido no círculo ignorante da vida doméstica e

econômica. Nós podemos razoavelmente duvidar se mesmo um Platão ou um Shankara atingiram o

coroamento e, portanto, o final do florescer do espírito no homem." (6)

Evolução-de-Alma, então, é um contínuo crescimento em direção a mais altos níveis de

consciência, transformando, mas não abandonando, os planos inferiores na medida que se torna

mais consciente. De fato, o progresso da alma inclui dualidades; sofrimento e felicidade, infortúnio

e prosperidade, são experiências de nosso treinamento-de-alma interior. As dualidades são esteios,

meios, disciplinas, testes e provações freqüentemente mal compreendidas. Prosperidade pode ser

um caminho mais difícil para uma alma individual que a pobreza, e ainda um teste necessário para

disciplina e crescimento. De outro lado, adversidade pode ser considerada como uma recompensa

para a virtude, não uma punição; pode ser o fator purificador da alma lutando para conhecer a si

própria. Julgar estas experiências estritamente do ponto de vista mental dá a elas um valor

superficial.

Na explanação do renascimento não é suficiente dizer que a alma é reencarnada em um novo corpo;

tal afirmação carece de clarificação sobre o que exatamente "deixa" um corpo e "entra" em outro. A

pessoa ordinária acredita ser a alma e a personalidade uma única e mesma coisa, mas a Alma Divina

não é a personalidade. Um dos engodos da teoria da reencarnação é identificar a nós próprios nesta

vida como uma reencarnação de nossa mesma personalidade em vidas passadas, apenas com outro

nome e em outro ambiente. Isto, diz Sri Aurobindo, é meramente identificação do ego (composto

mental, vital e físico) e, quando nos identificamos com o ego, a personalidade parece ser a

verdadeira alma. Mas a personalidade está em constante estado de mudança, portanto não pode

logicamente ser a unidade imutável da Alma Divina.

A Alma Divina é o mestre dessa sempre-mutante personalidade e sanciona a mutação sem ser

afetada por esta. A personalidade é o instrumento da Alma Divina e freqüentemente chamada por

Sri Aurobindo de alma-de-desejo na maya inferior. Como um instrumento, a personalidade é capaz

de ter a concepção de contínua identidade no tempo, mas não pode, como ela é, formar uma

identidade com a atemporal Alma Divina.

A todo-conhecedora Alma Divina percebe o que muda, ambientes e experiências da alma-de-desejo

em desenvolvimento que necessita gradualmente realizar sua própria realidade. Impressões

essenciais de vidas passadas não são descartadas, elas ajudam a formar a personalidade da vida

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presente e futura. Nós não podemos dizer, então, que há uma única personalidade psicológica

entrando em um novo corpo de carne; é mais o nascimento de uma nova personalidade psicológica

concomitante ao nascimento de um novo corpo quando a Alma Divina molda este complexo

material em um novo ser humano. O corpo é um instrumento necessário para a alma em evolução

nessa terra, a personalidade é uma constante formação de ação e experiência; a Alma Divina,

algumas vezes referida como o Si transcendente, é aquilo que deseja tudo isso, e não pode ser

chamada de corpo ou de personalidade.

Uma intransformável e imutável Alma Divina pode ser a resposta para a identidade individual, mas

o problema filosófico que permanece é o problema da humanidade - por que ela está aqui, o que é

ela, o que está em torno dela e o que tem ela a ver com ela própria? A idéia de renascimento

evolucionário nos dá uma pista suficiente para uma resposta a todos esses aspectos relacionados à

mesma perpétua questão. Ainda, a mera idéia de nascimentos repetidos como o processo da alma

não nos leva muito além em relação a outra idéias científicas ou filosóficas a menos que haja um

significado progressivo na pré-existência da alma e sua perseverante continuidade.

Em frente a todo mundo está a morte - a jornada na terra chega a um fim. O peso da morte não é

tanto a perda do corpo, mas o final psicológico que sugere à parte de nós mesmos que pensa, quer e

sente. A morte espreita como o amargo final de nossa vontade e pensamento e aspiração e lutas. Ela

rompe a conexão com nossos entes queridos e com a existência na vida. Assim, em revolta contra a

morte, nós tentamos não pensar sobre isso. Nós aspiramos imortalidade com nossa mente, vida e

psique, e ainda o corpo nega isso consentindo inertemente à morte. Isto é uma parte da dualidade,

uma aparente contradição na humanidade.

O renascimento soluciona a dificuldade da contradição no sentido de continuação da alma que toma

novos corpos para revestir a si própria. Isso reforça a experiência de Sri Aurobindo de que a

evolução é espiritual, não apenas material. O renascimento espiritual torna a vida uma significante

ascensão e não uma recorrência mecânica; ela permite à alma crescer, expandir, procurar o mais

alto com a promessa de maiores descobertas agora ou futuramente, pois isso significa

teleologicamente que há uma intenção divina no universo e na existência humana.

Sob essa luz, a existência terrestre tem um propósito positivo; ela representa um preenchimento

daquilo que nós somos pela afirmação de um progressivo auto-encontrar-se. O mundo não é um

lugar de pecados e escuridão abomináveis de onde se deve escapar, ele é um lugar nobre onde

acrescentamos mais significado a nossa existência individual. "Conhecer isso e possuí-lo, encontrar

e preencher conscientemente os significados ocultos do ser universal é a tarefa dada ao espírito

humano" (7).

Renascimento é uma escada de ascensão e oportunidades espirituais da alma. Realidade espiritual é

a energia consciente dos processos universais, e como um resultado, a alma em crescimento ascende

da matéria inerte através da vida da planta e animais para o grau humano de poder de vida, onde ela

luta com a ignorância e limites para possuir sua verdadeira natureza, a Alma Divina. A vida então

torna-se uma série ascendente progressiva para o desenvolvimento do "Si" espiritual, sua vontade e

sabedoria.

O corpo físico é uma forma que corresponde em sua evolução aos graus ascendentes da alma.

Através de renascimento constante a humanidade tem desenvolvido aquilo que ela é, e está ainda

desenvolvendo o que ela será. O que está ao redor de todo mundo é o constante processo do

desenvolver em seu aspecto universal: o passado está contido em tudo e o presente é algo de uma

gestação ativa prenhe daquilo que está para vir no futuro. O amanhã irá conter maiores

potencialidades, etapas ainda a ser conquistadas, mais altas e mais poderosas manifestações. O que

as pessoas devem fazer, diz Sri Aurobindo, é crescer e abrir a si próprias a uma maior presença de

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consciência, poder e deleite divinos. O ambiente está aqui para ser utilizado para o progresso;

quanto mais a humanidade progride, mais o ambiente progride, pois todo nascimento é este

progressivo auto-encontrar-se.

Mas, se é verdade que a alma está buscando realização de si própria, por que os contínuos tropeços,

por que cometemos tantos enganos, e por que nações guerreiam contra outras? Porque, diz Sri

Aurobindo, a alma também está em ignorância e a maioria de nós é ainda criança no universo em

crescimento e nós precisamos continuar a tropeçar até crescermos para além da ignorância no

conhecimento. Antes que possamos atingir a próxima etapa, a etapa presente deve ser corrigida e a

lição dela deve ser aprendida. Esta é a lei (karma).

Fundamentalmente, karma significa que toda existência é o trabalho de uma energia universal, um

processo e ação - que tudo é uma cadeia contínua em que cada elo está ligado à infinidade de elos

passados, e o todo governado por relações fixadas, por uma fixada associação de causa e efeito, a

ação presente o resultado de ação passada, como a ação futura será o resultado de ação presente.

O significado moral de karma é que qualquer modo de energia que nós colocamos como causa

determina o modo de energia que retorna para nós como efeito. Karma é a lei universal de causa e

efeito, de balanço e equilíbrio. O que quer que seja que alguém semeie, isto ele irá colher.

Enganos surgiram na tentativa de explicar o karma. Primeiramente, é impossível explicar coisas

suprafísicas por fórmulas físicas, e segundo, a noção de acaso não pode estar misturada na lei

universal. Embora a lei possa ser única, isto não implica em que haja unicamente um tipo de

fenômeno com uma vontade predeterminada para deduzir dela todas as espécies de fenômenos que

são diferentes em sua natureza. Sri Aurobindo argumenta que existem diferentes planos de

existência cósmica, portanto diferentes planos de existência individual. Em cada plano os mesmos

poderes, energias ou leis devem agir em um diferente modo em vista de sua eficácia. Por exemplo, a

energia mental que uma pessoa emite determina o efeito mental, mas este está sujeito às

circunstâncias das energias mentais passadas, presentes e futuras, porque ninguém é um poder

isolado no mundo. A conseqüência moral está da mesma maneira sujeita às circunstâncias

contextuais passadas, presentes e futuras. O mesmo é verdadeiro para a energia física. Existem,

então, diferentes tipos e movimentos variadamente formulados da lei universal una, e não será

válido dizer que nossa qualidade mental é o resultado de uma causa física. Um fígado doente

dificilmente é a causa de um motivo ser ou não moral. Isto não quer dizer que um não afeta o outro,

mas que cada plano tem sua própria lei.

Se nós aceitarmos a idéia universal fundamental de karma, o acaso não pode existir, ele torna-se

meramente uma palavra que usamos para ocultar e desculpar nossa ignorância. A ciência exclui o

acaso da explicação de leis físicas sob as quais tudo é determinado por causa e efeito. Mas quando

questionada sobre porque essas relações existem e não outras ou porque um particular efeito é o

resultado de uma causa particular, o acaso é freqüentemente pressuposto. Mas a idéia de que o

acaso poderia criar uma lei universal física é superficial.

A teoria do acaso ou probabilidade não pode contribuir para nossa compreensão do ser mental e

moral, nem a lei física pode. A previsão de terremotos, tempo ou eclipses não pode explicar a

mentalidade ou moralidade, embora este tipo de método de estímulo e resposta possa ser utilizado

para predizer comportamentos psico-físicos. Esta espécie de observação, contudo, apenas pode

significar como as pessoas "comportam-se" em ação exterior, não podem predizer ação interior. A

questão dos trabalhos interiores existe sob um diferente conjunto de leis.

Acaso, caos, probabilidade não denotam nenhum significado na teoria do karma. Existem leis da

matéria, leis da vida, leis da mente, cada uma tendo uma energia ordenada em operação que

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assegura o processo do equilíbrio. Nesse sentido, karma e renascimento podem ser chamadas de

doutrinas gêmeas, isto é, uma é necessária à completude da outra. Renascimento não tem sentido

sem karma e karma não tem nenhuma justificação racional se não for uma instrumentalidade para a

seqüência da contínua experiência da alma.

Se aceitarmos que a alma é repetidamente renascida no corpo, segue-se que existe alguma ligação

entre as vidas que precederam e as vidas que se seguirão e que o passado da alma tem algum efeito

sobre seu futuro. Karma é ação e a força diretriz de sua ação é a vontade e a idéia; este é um

complexo momentum e uma única vida é incapaz de efetuar ou exaurir todas suas potencialidades.

Através da lei do karma o indivíduo, a família, a nação e a humanidade como um todo são afetados.

Efetuar o resultado da ação de nossa vida afeta outras vidas e as ações de outros afeta o indivíduo.

Aquilo que semeamos agora é colhido pela posteridade por diversas gerações na família. Aquilo

que pessoas como uma comunidade decidem e executam retorna "como uma benção ou uma

espada" sobre o futuro de sua raça e quando eles próprios tiverem passado, isso se torna o karma de

uma nação. E o que a humanidade como um todo tem feito no passado irá formar seu destino futuro.

Este relacionamento do indivíduo para com o todo significa que o universo encontra a si próprio no

indivíduo assim como o indivíduo está no universo; ambos são faces da realidade eterna una. O ser

individual é tão necessário quanto o ser universal. Uma das maravilhas da existência é a unicidade

do ser individual. Esta unicidade, diz Sri Aurobindo, está em toda parte surgindo nas regiões mais

baixas da existência e tornando-se mais e mais pronunciada na medida em que nos elevamos na

escala e expandimos nossas mentes em direção à Supramente.

Basicamente as leis do ser são as mesmas para todos, porque a existência é uma existência, uma

unidade, uma energia de processo múltiplo em operação. Nessa unidade, contudo, existe variedade

persistente que evolui como "energia-grupal, vida-grupal, mente-grupal e karma-grupal". Nós

entramos no nascimento, então, não como um ser separado, mas na vida do todo. Portanto nós

herdamos a vida do todo. Cada um de nós nasce fisicamente por uma geração que está conduzindo

sua contínua história. O corpo, vida, mentalidade do passado pertencem a cada um e esta é a lei da

hereditariedade. Mas tão logo a criança comece a se desenvolver, um novo e independente fator

surge, o qual não é seus pais nem seus ancestrais, nem a humanidade passada, mas seu próprio si. E

este é o fator central mais importante. O que mais importa na vida não é nossa hereditariedade; esta

apenas dá oportunidades ou obstáculos, conforme o caso. O que importa é o que fazemos dessa

hereditariedade e não o que ela faz de nós. A história passada está ainda aí dentro, mas é o

indivíduo que se torna o artista de sua vida. O ambiente também penetra em nós, oferece seus

materiais e molda-nos por suas influências. Embora o ambiente invada, re-crie, transforme cada um

de nós, aqui novamente, é o indivíduo, não o ambiente, que tem o poder decisivo. O importante para

Sri Aurobindo é mais aquilo que cada pessoa faz do presente ambiente que o que o ambiente faz da

pessoa. E na interação do karma individual e geral o uno vive para o múltiplo ("quer consideremos

assim ou não") e o múltiplo vive para o uno.

A alma, como Sri Aurobindo tem colocado, é o contínuo ser persistente que procura sua evolução

dentro do ser persistente do mundo. Ela evolui seu nascimento humano e auxilia constantemente na

evolução. A alma tem criado por seu karma passado suas próprias condições, relações com a vida

de outros e o karma geral. Isto forma sua hereditariedade, ambiente, afinidades, conexões,

oportunidades e obstáculos - tudo predeterminado por seu próprio estágio de desenvolvimento e

ação passada. Nessas bases a alma constrói novo karma e muito fortalece seu poder e experiência. O

processo todo, como uma tapeçaria, é tecido com a evolução universal.

Se seguirmos a visão de Sri Aurobindo sobre karma e renascimento veremos a humanidade como

muito mais que uma criação de uma força onde todos os atos são determinados e sobre a qual os

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indivíduos não têm nenhum controle. Nós não somos bonecos predestinados ou escravos porque

temos dentro de nós a Supramente que cria todas as relações. De fato, tudo é a expressão da

Supramente, o princípio diretivo de Vontade e Conhecimento, e cada um de nós pode, pelo uso da

Vontade, desenvolver a forma daquilo que somos e chegar a um conhecimento de uma Idéia ainda

maior que aquela que está sendo expressa no presente momento.

A liberdade é necessariamente limitada ao nosso grau de conscientização. Nós não somos livres de

nossas ações passadas até que essas ações tenham sido esgotadas e compreendidas. Ignorância é a

única prisão e mesmo a ignorância tem um impulso interior em direção ao conhecimento e

liberdade. A matéria, contudo, parece não saber nada sobre liberdade; tudo existe como se escrito

em leis sibilantes sobre tábuas de pedra, governado por necessidade mecânica. Mas a vida parece

mostrar uma ansiosa, mais flexível, e mesmo uma pressionadora necessidade subconsciente para

expressão. Esta ação é seguramente mais instintiva que livre, mas aí parece existir um movimento

em direção à liberdade. Conforme a mente evolui, aí aparece uma necessidade de escolha. É uma lei

da mente fazer escolhas. A mente está consciente das potencialidades e idéias que são outras além

das leis do físico e da vida. Ela está consciente dos inumeráveis "pode-ser" ou "deveria-ter-sido".

Ela pode conceber infinitas possibilidades e alcançar a idéia de uma livre vontade que determina

seu próprio vir-a-ser no espaço e tempo. Isto significa, diz Sri Aurobindo, que existe a liberdade de

um Espírito e Poder supramental que não é determinada pelo karma, mas que determina o karma. O

que afeta a humanidade como necessidade é uma Vontade que trabalha em seqüência e não uma

força mecânica cega.

A mente racional não está livre da lei do karma, mas tem a habilidade de pensar (não saber) sobre

liberdade. Nem vida e matéria estão livres do karma. Não sujeita ao karma é a Alma Divina; karma

é seu instrumento como mente, vida e matéria são instrumentos da Supramente que desenvolve este

material de vida em vida para a formação de um indivíduo que poderá ser um dia uma cósmica e

divina personalidade.

O ser mental é um aprendiz na escola da liberdade, mas não perfeitamente livre ainda. A liberdade

real chega quando vamos além da mente para dentro da Supramente, da personalidade para a Alma

Divina (do si inferior para o Si espiritual superior). Quando nos tornarmos um com a Realidade

suprema e o universal na essência da consciência e verdade espiritual e na expressão daquela

essência em nossas vidas, "o próprio karma torna-se um ritmo de liberdade e o nascimento uma

corrente de imortalidade" (38).

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