Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




RENASCIMENTO E KARMA (A FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO) Cap.VII

O nascimento e a morte são hoje talvez os maiores mistérios em nossas vidas. A solução de Sri

Aurobindo para esses mistérios baseia-se em sua experiência de que "o universo é um processo

auto-criativo de uma Realidade suprema cuja presença faz do espírito a substância das coisas" (1).

Dessa premissa ele extrai conclusões sobre nascimento, vida e morte, o antes e o depois.

Primeiramente recapitulemos brevemente suas descobertas. A realidade "atrás" da aparência do

universo é Sachchidananda - uma infinita Existência, uma infinita Vontade e Força-Consciente, um

infinito Deleite. Sua Supramente tem arranjado a ordem cósmica indiretamente por intermédio dos

três termos limitantes, mente vida e matéria. O universo material é o mais baixo ou o mais concreto

estágio da manifestação, isto é, uma involução dessa realidade triuna para dentro do inconsciente. A

evolução daquele ser manifestado para uma recuperação da consciência-do-si é inevitável, isto é, é

sua natureza encontrar seu si que foi perdido no inconsciente. É através do indivíduo consciente que

este recuperar o si é possível:

"A imensa importância do ser individual, que cresce na medida em que ele ascende na escala, é o

mais marcante e significativo ato de um universo que começou sem consciência e sem

individualidade em uma indiferenciada Nesciência." (2)

O crescimento do indivíduo é necessário para a descoberta de si próprio, do Si universal e do

transcendente. Se esta solução de Sri Aurobindo é aceita, então o renascimento não é mais apenas

uma possibilidade, ele se torna uma necessidade, "uma conseqüência inevitável da natureza raiz de

nossa existência" (3).

O nascimento individual, então, é uma necessidade da manifestação da Alma Divina no plano físico

e não é meramente uma experiência isolada sem ter sido preparada no passado para seu futuro.

"Em um mundo de involução e evolução, não de formas físicas apenas, mas de seres conscientes

através de vida e mente até o espírito, tal suposição isolada de vida no corpo humano não poderia

ser a regra da existência da alma individual; este seria um arranjo inconseqüente e sem sentido, um

capricho para o qual a natureza e sistema de coisas aqui não tem lugar, uma violência contrária que

poderia quebrar o ritmo da auto-manifestação do Espírito." (4)

A intrusão repentina de uma alma individual para dentro de uma progressão evolucionária poderia

fazer disso uma causa sem um efeito ou um efeito sem uma causa; poderia apenas ser parte do

presente sem um passado ou futuro. A vida individual deve ter o mesmo ritmo da vida cósmica,

porque a vida humana é um termo em uma série através da qual Brahman no universo gradualmente

desenvolve e elabora seu propósito por intermédio do indivíduo. A ascensão da consciência-dealma

no corpo, que é renascida na ordem ascendente das coisas, é o sistema dessa evolução. Um

errante indivíduo experienciando-a uma vez e ascendendo a algum outro lugar é, no sistema de Sri

Aurobindo, ilógico desde que a evolução progressiva do Espírito no cosmos tem sua contraparte na

progressiva evolução da alma através de nascimentos individuais.

Neste mundo, os seres humanos têm dois elementos, o livre ser espiritual e a persistente alma em

desenvolvimento:

"Como a pessoa espiritual impessoal ele é uno em sua natureza e ser com a liberdade de

Sachchidananda, que aqui consentiu ou desejou sua evolução na Nesciência para uma certa fase de

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experiência-de-alma... Como a alma de personalidade, Ele próprio é parte daquele longo

desenvolvimento da experiência-de-alma nas formas da Natureza." (5)

O Espírito é uno com o Transcendente e a alma é una com Sachchidananda expressa no mundo. O

Espírito por intermédio da Supramente reveste-se das formas de mente, vida e corpo unicamente

pela manifestação de sua alma na evolução. Desde que o Espírito tem um passado pré-humano e um

futuro super-humano, é lógico supor que nem ele nem a alma irão tomar exatamente as mesmas

formas repetidamente.

A razão para mais de um nascimento humano é que a alma tem ainda que terminar aquilo que ela

veio fazer pelo desenvolvimento da humanidade; ela tem ainda que evoluir a humanidade em algo

mais alto que esta presentemente é:

"Obviamente, a alma que habita em um antigo habitante das Antilhas (Caribe) ou em um primitivo

não instruído ou em um Apache de Paris ou em um gangster americano, ainda não esgotou a

necessidade de nascimento humano, não desenvolveu todas suas possibilidades ou o completo

significado de humanidade, ainda não desenvolveu o senso de Sachchidananda no Homem

universal; nem a alma que reside em um Europeu vitalístico ocupado com produção dinâmica e

prazer vital; ou em um camponês asiático envolvido no círculo ignorante da vida doméstica e

econômica. Nós podemos razoavelmente duvidar se mesmo um Platão ou um Shankara atingiram o

coroamento e, portanto, o final do florescer do espírito no homem." (6)

Evolução-de-Alma, então, é um contínuo crescimento em direção a mais altos níveis de

consciência, transformando, mas não abandonando, os planos inferiores na medida que se torna

mais consciente. De fato, o progresso da alma inclui dualidades; sofrimento e felicidade, infortúnio

e prosperidade, são experiências de nosso treinamento-de-alma interior. As dualidades são esteios,

meios, disciplinas, testes e provações freqüentemente mal compreendidas. Prosperidade pode ser

um caminho mais difícil para uma alma individual que a pobreza, e ainda um teste necessário para

disciplina e crescimento. De outro lado, adversidade pode ser considerada como uma recompensa

para a virtude, não uma punição; pode ser o fator purificador da alma lutando para conhecer a si

própria. Julgar estas experiências estritamente do ponto de vista mental dá a elas um valor

superficial.

Na explanação do renascimento não é suficiente dizer que a alma é reencarnada em um novo corpo;

tal afirmação carece de clarificação sobre o que exatamente "deixa" um corpo e "entra" em outro. A

pessoa ordinária acredita ser a alma e a personalidade uma única e mesma coisa, mas a Alma Divina

não é a personalidade. Um dos engodos da teoria da reencarnação é identificar a nós próprios nesta

vida como uma reencarnação de nossa mesma personalidade em vidas passadas, apenas com outro

nome e em outro ambiente. Isto, diz Sri Aurobindo, é meramente identificação do ego (composto

mental, vital e físico) e, quando nos identificamos com o ego, a personalidade parece ser a

verdadeira alma. Mas a personalidade está em constante estado de mudança, portanto não pode

logicamente ser a unidade imutável da Alma Divina.

A Alma Divina é o mestre dessa sempre-mutante personalidade e sanciona a mutação sem ser

afetada por esta. A personalidade é o instrumento da Alma Divina e freqüentemente chamada por

Sri Aurobindo de alma-de-desejo na maya inferior. Como um instrumento, a personalidade é capaz

de ter a concepção de contínua identidade no tempo, mas não pode, como ela é, formar uma

identidade com a atemporal Alma Divina.

A todo-conhecedora Alma Divina percebe o que muda, ambientes e experiências da alma-de-desejo

em desenvolvimento que necessita gradualmente realizar sua própria realidade. Impressões

essenciais de vidas passadas não são descartadas, elas ajudam a formar a personalidade da vida

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presente e futura. Nós não podemos dizer, então, que há uma única personalidade psicológica

entrando em um novo corpo de carne; é mais o nascimento de uma nova personalidade psicológica

concomitante ao nascimento de um novo corpo quando a Alma Divina molda este complexo

material em um novo ser humano. O corpo é um instrumento necessário para a alma em evolução

nessa terra, a personalidade é uma constante formação de ação e experiência; a Alma Divina,

algumas vezes referida como o Si transcendente, é aquilo que deseja tudo isso, e não pode ser

chamada de corpo ou de personalidade.

Uma intransformável e imutável Alma Divina pode ser a resposta para a identidade individual, mas

o problema filosófico que permanece é o problema da humanidade - por que ela está aqui, o que é

ela, o que está em torno dela e o que tem ela a ver com ela própria? A idéia de renascimento

evolucionário nos dá uma pista suficiente para uma resposta a todos esses aspectos relacionados à

mesma perpétua questão. Ainda, a mera idéia de nascimentos repetidos como o processo da alma

não nos leva muito além em relação a outra idéias científicas ou filosóficas a menos que haja um

significado progressivo na pré-existência da alma e sua perseverante continuidade.

Em frente a todo mundo está a morte - a jornada na terra chega a um fim. O peso da morte não é

tanto a perda do corpo, mas o final psicológico que sugere à parte de nós mesmos que pensa, quer e

sente. A morte espreita como o amargo final de nossa vontade e pensamento e aspiração e lutas. Ela

rompe a conexão com nossos entes queridos e com a existência na vida. Assim, em revolta contra a

morte, nós tentamos não pensar sobre isso. Nós aspiramos imortalidade com nossa mente, vida e

psique, e ainda o corpo nega isso consentindo inertemente à morte. Isto é uma parte da dualidade,

uma aparente contradição na humanidade.

O renascimento soluciona a dificuldade da contradição no sentido de continuação da alma que toma

novos corpos para revestir a si própria. Isso reforça a experiência de Sri Aurobindo de que a

evolução é espiritual, não apenas material. O renascimento espiritual torna a vida uma significante

ascensão e não uma recorrência mecânica; ela permite à alma crescer, expandir, procurar o mais

alto com a promessa de maiores descobertas agora ou futuramente, pois isso significa

teleologicamente que há uma intenção divina no universo e na existência humana.

Sob essa luz, a existência terrestre tem um propósito positivo; ela representa um preenchimento

daquilo que nós somos pela afirmação de um progressivo auto-encontrar-se. O mundo não é um

lugar de pecados e escuridão abomináveis de onde se deve escapar, ele é um lugar nobre onde

acrescentamos mais significado a nossa existência individual. "Conhecer isso e possuí-lo, encontrar

e preencher conscientemente os significados ocultos do ser universal é a tarefa dada ao espírito

humano" (7).

Renascimento é uma escada de ascensão e oportunidades espirituais da alma. Realidade espiritual é

a energia consciente dos processos universais, e como um resultado, a alma em crescimento ascende

da matéria inerte através da vida da planta e animais para o grau humano de poder de vida, onde ela

luta com a ignorância e limites para possuir sua verdadeira natureza, a Alma Divina. A vida então

torna-se uma série ascendente progressiva para o desenvolvimento do "Si" espiritual, sua vontade e

sabedoria.

O corpo físico é uma forma que corresponde em sua evolução aos graus ascendentes da alma.

Através de renascimento constante a humanidade tem desenvolvido aquilo que ela é, e está ainda

desenvolvendo o que ela será. O que está ao redor de todo mundo é o constante processo do

desenvolver em seu aspecto universal: o passado está contido em tudo e o presente é algo de uma

gestação ativa prenhe daquilo que está para vir no futuro. O amanhã irá conter maiores

potencialidades, etapas ainda a ser conquistadas, mais altas e mais poderosas manifestações. O que

as pessoas devem fazer, diz Sri Aurobindo, é crescer e abrir a si próprias a uma maior presença de

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consciência, poder e deleite divinos. O ambiente está aqui para ser utilizado para o progresso;

quanto mais a humanidade progride, mais o ambiente progride, pois todo nascimento é este

progressivo auto-encontrar-se.

Mas, se é verdade que a alma está buscando realização de si própria, por que os contínuos tropeços,

por que cometemos tantos enganos, e por que nações guerreiam contra outras? Porque, diz Sri

Aurobindo, a alma também está em ignorância e a maioria de nós é ainda criança no universo em

crescimento e nós precisamos continuar a tropeçar até crescermos para além da ignorância no

conhecimento. Antes que possamos atingir a próxima etapa, a etapa presente deve ser corrigida e a

lição dela deve ser aprendida. Esta é a lei (karma).

Fundamentalmente, karma significa que toda existência é o trabalho de uma energia universal, um

processo e ação - que tudo é uma cadeia contínua em que cada elo está ligado à infinidade de elos

passados, e o todo governado por relações fixadas, por uma fixada associação de causa e efeito, a

ação presente o resultado de ação passada, como a ação futura será o resultado de ação presente.

O significado moral de karma é que qualquer modo de energia que nós colocamos como causa

determina o modo de energia que retorna para nós como efeito. Karma é a lei universal de causa e

efeito, de balanço e equilíbrio. O que quer que seja que alguém semeie, isto ele irá colher.

Enganos surgiram na tentativa de explicar o karma. Primeiramente, é impossível explicar coisas

suprafísicas por fórmulas físicas, e segundo, a noção de acaso não pode estar misturada na lei

universal. Embora a lei possa ser única, isto não implica em que haja unicamente um tipo de

fenômeno com uma vontade predeterminada para deduzir dela todas as espécies de fenômenos que

são diferentes em sua natureza. Sri Aurobindo argumenta que existem diferentes planos de

existência cósmica, portanto diferentes planos de existência individual. Em cada plano os mesmos

poderes, energias ou leis devem agir em um diferente modo em vista de sua eficácia. Por exemplo, a

energia mental que uma pessoa emite determina o efeito mental, mas este está sujeito às

circunstâncias das energias mentais passadas, presentes e futuras, porque ninguém é um poder

isolado no mundo. A conseqüência moral está da mesma maneira sujeita às circunstâncias

contextuais passadas, presentes e futuras. O mesmo é verdadeiro para a energia física. Existem,

então, diferentes tipos e movimentos variadamente formulados da lei universal una, e não será

válido dizer que nossa qualidade mental é o resultado de uma causa física. Um fígado doente

dificilmente é a causa de um motivo ser ou não moral. Isto não quer dizer que um não afeta o outro,

mas que cada plano tem sua própria lei.

Se nós aceitarmos a idéia universal fundamental de karma, o acaso não pode existir, ele torna-se

meramente uma palavra que usamos para ocultar e desculpar nossa ignorância. A ciência exclui o

acaso da explicação de leis físicas sob as quais tudo é determinado por causa e efeito. Mas quando

questionada sobre porque essas relações existem e não outras ou porque um particular efeito é o

resultado de uma causa particular, o acaso é freqüentemente pressuposto. Mas a idéia de que o

acaso poderia criar uma lei universal física é superficial.

A teoria do acaso ou probabilidade não pode contribuir para nossa compreensão do ser mental e

moral, nem a lei física pode. A previsão de terremotos, tempo ou eclipses não pode explicar a

mentalidade ou moralidade, embora este tipo de método de estímulo e resposta possa ser utilizado

para predizer comportamentos psico-físicos. Esta espécie de observação, contudo, apenas pode

significar como as pessoas "comportam-se" em ação exterior, não podem predizer ação interior. A

questão dos trabalhos interiores existe sob um diferente conjunto de leis.

Acaso, caos, probabilidade não denotam nenhum significado na teoria do karma. Existem leis da

matéria, leis da vida, leis da mente, cada uma tendo uma energia ordenada em operação que

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assegura o processo do equilíbrio. Nesse sentido, karma e renascimento podem ser chamadas de

doutrinas gêmeas, isto é, uma é necessária à completude da outra. Renascimento não tem sentido

sem karma e karma não tem nenhuma justificação racional se não for uma instrumentalidade para a

seqüência da contínua experiência da alma.

Se aceitarmos que a alma é repetidamente renascida no corpo, segue-se que existe alguma ligação

entre as vidas que precederam e as vidas que se seguirão e que o passado da alma tem algum efeito

sobre seu futuro. Karma é ação e a força diretriz de sua ação é a vontade e a idéia; este é um

complexo momentum e uma única vida é incapaz de efetuar ou exaurir todas suas potencialidades.

Através da lei do karma o indivíduo, a família, a nação e a humanidade como um todo são afetados.

Efetuar o resultado da ação de nossa vida afeta outras vidas e as ações de outros afeta o indivíduo.

Aquilo que semeamos agora é colhido pela posteridade por diversas gerações na família. Aquilo

que pessoas como uma comunidade decidem e executam retorna "como uma benção ou uma

espada" sobre o futuro de sua raça e quando eles próprios tiverem passado, isso se torna o karma de

uma nação. E o que a humanidade como um todo tem feito no passado irá formar seu destino futuro.

Este relacionamento do indivíduo para com o todo significa que o universo encontra a si próprio no

indivíduo assim como o indivíduo está no universo; ambos são faces da realidade eterna una. O ser

individual é tão necessário quanto o ser universal. Uma das maravilhas da existência é a unicidade

do ser individual. Esta unicidade, diz Sri Aurobindo, está em toda parte surgindo nas regiões mais

baixas da existência e tornando-se mais e mais pronunciada na medida em que nos elevamos na

escala e expandimos nossas mentes em direção à Supramente.

Basicamente as leis do ser são as mesmas para todos, porque a existência é uma existência, uma

unidade, uma energia de processo múltiplo em operação. Nessa unidade, contudo, existe variedade

persistente que evolui como "energia-grupal, vida-grupal, mente-grupal e karma-grupal". Nós

entramos no nascimento, então, não como um ser separado, mas na vida do todo. Portanto nós

herdamos a vida do todo. Cada um de nós nasce fisicamente por uma geração que está conduzindo

sua contínua história. O corpo, vida, mentalidade do passado pertencem a cada um e esta é a lei da

hereditariedade. Mas tão logo a criança comece a se desenvolver, um novo e independente fator

surge, o qual não é seus pais nem seus ancestrais, nem a humanidade passada, mas seu próprio si. E

este é o fator central mais importante. O que mais importa na vida não é nossa hereditariedade; esta

apenas dá oportunidades ou obstáculos, conforme o caso. O que importa é o que fazemos dessa

hereditariedade e não o que ela faz de nós. A história passada está ainda aí dentro, mas é o

indivíduo que se torna o artista de sua vida. O ambiente também penetra em nós, oferece seus

materiais e molda-nos por suas influências. Embora o ambiente invada, re-crie, transforme cada um

de nós, aqui novamente, é o indivíduo, não o ambiente, que tem o poder decisivo. O importante para

Sri Aurobindo é mais aquilo que cada pessoa faz do presente ambiente que o que o ambiente faz da

pessoa. E na interação do karma individual e geral o uno vive para o múltiplo ("quer consideremos

assim ou não") e o múltiplo vive para o uno.

A alma, como Sri Aurobindo tem colocado, é o contínuo ser persistente que procura sua evolução

dentro do ser persistente do mundo. Ela evolui seu nascimento humano e auxilia constantemente na

evolução. A alma tem criado por seu karma passado suas próprias condições, relações com a vida

de outros e o karma geral. Isto forma sua hereditariedade, ambiente, afinidades, conexões,

oportunidades e obstáculos - tudo predeterminado por seu próprio estágio de desenvolvimento e

ação passada. Nessas bases a alma constrói novo karma e muito fortalece seu poder e experiência. O

processo todo, como uma tapeçaria, é tecido com a evolução universal.

Se seguirmos a visão de Sri Aurobindo sobre karma e renascimento veremos a humanidade como

muito mais que uma criação de uma força onde todos os atos são determinados e sobre a qual os

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indivíduos não têm nenhum controle. Nós não somos bonecos predestinados ou escravos porque

temos dentro de nós a Supramente que cria todas as relações. De fato, tudo é a expressão da

Supramente, o princípio diretivo de Vontade e Conhecimento, e cada um de nós pode, pelo uso da

Vontade, desenvolver a forma daquilo que somos e chegar a um conhecimento de uma Idéia ainda

maior que aquela que está sendo expressa no presente momento.

A liberdade é necessariamente limitada ao nosso grau de conscientização. Nós não somos livres de

nossas ações passadas até que essas ações tenham sido esgotadas e compreendidas. Ignorância é a

única prisão e mesmo a ignorância tem um impulso interior em direção ao conhecimento e

liberdade. A matéria, contudo, parece não saber nada sobre liberdade; tudo existe como se escrito

em leis sibilantes sobre tábuas de pedra, governado por necessidade mecânica. Mas a vida parece

mostrar uma ansiosa, mais flexível, e mesmo uma pressionadora necessidade subconsciente para

expressão. Esta ação é seguramente mais instintiva que livre, mas aí parece existir um movimento

em direção à liberdade. Conforme a mente evolui, aí aparece uma necessidade de escolha. É uma lei

da mente fazer escolhas. A mente está consciente das potencialidades e idéias que são outras além

das leis do físico e da vida. Ela está consciente dos inumeráveis "pode-ser" ou "deveria-ter-sido".

Ela pode conceber infinitas possibilidades e alcançar a idéia de uma livre vontade que determina

seu próprio vir-a-ser no espaço e tempo. Isto significa, diz Sri Aurobindo, que existe a liberdade de

um Espírito e Poder supramental que não é determinada pelo karma, mas que determina o karma. O

que afeta a humanidade como necessidade é uma Vontade que trabalha em seqüência e não uma

força mecânica cega.

A mente racional não está livre da lei do karma, mas tem a habilidade de pensar (não saber) sobre

liberdade. Nem vida e matéria estão livres do karma. Não sujeita ao karma é a Alma Divina; karma

é seu instrumento como mente, vida e matéria são instrumentos da Supramente que desenvolve este

material de vida em vida para a formação de um indivíduo que poderá ser um dia uma cósmica e

divina personalidade.

O ser mental é um aprendiz na escola da liberdade, mas não perfeitamente livre ainda. A liberdade

real chega quando vamos além da mente para dentro da Supramente, da personalidade para a Alma

Divina (do si inferior para o Si espiritual superior). Quando nos tornarmos um com a Realidade

suprema e o universal na essência da consciência e verdade espiritual e na expressão daquela

essência em nossas vidas, "o próprio karma torna-se um ritmo de liberdade e o nascimento uma

corrente de imortalidade" (38).

EVOLUÇÃO ( A FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO) Cap.VI



No capítulo anterior nós vimos que todo o processo de evolução é tornado possível pelos princípios


mais altos involuindo a si próprios via Supramente para dentro da mais limitada matéria

inconsciente e, assim fazendo, fornecem o poder consciente necessário para impelir um movimento

para mais altos estados de consciência. Como a semente que tem potencialmente em si própria a

árvore, assim a matéria tem involuída potencialmente em si a vida; latente na vida está a mente, na

mente repousa a Supramente e Sachchidananda. Por causa do conhecimento diretivo da

Supramente, cada um dos estágios mais baixos tem involuído em si todos os estágios mais altos,

que irão, em seu tempo, emergir para fazer um mundo perfeito.

Nós temos visto que embora a ignorância seja uma limitação e uma separação do conhecimento,

pelo processo de evolução haverá um gradual desaparecimento da alienação por intermédio do

retorno à unidade. Existe então divindade na ignorância e na maya inferior.

"O Ser Divino não é incapaz de tomar inúmeras formas porque Ele está além de todas as formas em

Sua essência, nem por assumi-las Ele perde Sua divindade, mas infunde mesmo nelas o deleite de

Seu ser e as glórias de Sua divindade; este ouro não cessa de ser ouro porque se molda em toda

espécie de ornamentos e cunha a si próprio em muitas moedas e valores, nem o Poder-Terra,

princípio de toda essa configurada existência material, perde sua divindade imutável porque forma a

si própria em mundos habitáveis, lança a si própria em colinas e vales e permite ser moldada em

tijolos de lareira e utensílios domésticos ou como um duro metal em artefatos e engenhos. Matéria, -

substância propriamente, sutil ou densa, mental ou material, - é forma e corpo do Espírito e nunca

poderia ter sido criada se não pudesse ser tornada uma base para a auto-expressão do Espírito. A

aparente Inconsciência do universo material contém em si veladamente tudo que é eternamente

auto-revelado no luminoso Superconsciente; revelar isso no Tempo é o lento e deliberado deleite da

Natureza e a meta de seus ciclos." (1)

Para Sri Aurobindo a evolução é tanto espiritual como material ou biológica. Ele concorda que a

ciência ocidental tem feito muito para explicar os fatos da evolução material, mas tem

negligenciado a evolução de consciência às vezes referindo-se a ela como meramente um

epifenômeno ou um acidente e não o significado fundamental do progresso. Sri Aurobindo mantém

que a consciência é o eixo de todo o processo evolucionário expressando a si própria primeiramente

em formas materiais, então pelo método de assunção elevando tudo ao próximo mais alto estágio da

ignorância e no fim liberando a si própria em sua verdadeira consciência pelo evoluir em

conhecimento.

O primeiro princípio na evolução, então, é matéria. Contido latentemente na matéria estão os

princípios de mente e vida que eventualmente modificam a substância da matéria, primeiro em

"substância viva" e então em "substância consciente". Mas esses princípios não mudam ou

transformam a matéria inteiramente, porque eles não têm o poder para torná-la completamente viva

e perfeitamente consciente. "Este é um sinal de que nem Mente nem Vida são o Poder criativo

original..." (2). Enquanto involuídas na condição de matéria, elas não podem atingir sua atualidade

total, elas devem ter ajuda de uma força superior e "apenas a Supramente pode assim descer sem

perder seu pleno poder de ação..." (3). Se o princípio diretivo da Supramente limita a si própria na

matéria, vida ou mente, é por escolha e não por acaso ou acidente.

Quando a organização da matéria chega ao ponto de suficiente complexidade, a vida emerge e

começa a dominar a matéria. Vida, Mente e Supramente estão sempre presentes e em ação no


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átomo, mas latentes em uma ação inconsciente de energia. O átomo, nessa visão, está adormecido,


"dirigido por uma desconhecida e não sentida Existência interior, - aquele que está desperto no

adormecido" (4). A vida, por outro lado, embora adormecida, está nas margens do despertar, mas

nunca realmente desperta:

"A vida tem surgido; em outras palavras, a força de ser consciente oculto tem sido tão intensificada,

tem elevado a si própria a tal alturas de poder para desenvolver ou tornar-se capaz de um novo

princípio de ação, aquilo que nós vemos como vitalidade, força-vital. Ela tem se tornado vitalidade

responsiva à existência, embora não mentalmente consciente, e lançou um novo grau de atividades

de um mais alto e sutil valor que qualquer ação puramente física." (5)

A Consciência involuída na matéria primeiramente emerge como vibrações vitais subconscientes e

movimenta-se em direção a auto-descoberta através de sucessivas formas daquela substância

material. A Consciência na vida atua para manifestar deleite por intermédio de sensações, mas

inicialmente pode apenas formular algum pequeno aspecto, por exemplo, prazer e dor, atração e

repulsa. No animal, a vida consciente é novamente intensificada. Aqui a força torna-se mais

consciente e desperta; ela é não mais apenas um objeto, mais um ser individual que participa em e

interage conscientemente com o ambiente. A nova consciência animal, nova ao menos no reino da

matéria, é mentalidade. O animal sente seu corpo, vida e também mente, pois ele tem não apenas

instintos cegos, mas sensações conscientes, memórias, emoções, volição e associações mentais.

Estes são o começo do sentimento, pensamento e vontade. Desde que ele é capaz de fazer

associações e tem memória, nós podemos observar uma inteligência prática; alguns animais são

capazes de fazer planos, usar estratégias e astúcia. Tudo isso, diz Sri Aurobindo, é uma preparação

para a evolução de uma ainda mais consciente inteligência humana. Quando emerge o ser humano

ocorre o primeiro sinal de uma vontade e escolha conscientes, mas, no total, a consciência humana é

ainda limitada e superficial.

"[no ser humano] ...há uma transição da mente vital para a mente reflexiva e pensante, há

desenvolvido um mais alto poder de observação e invenção, coletando e conectando dados;

consciente do processo e resultado, uma força de imaginação e criação estética, uma sensibilidade

mais plástica superior, a razão coordenadora e interpretadora, os valores de uma inteligência não

mais de reflexos ou reações mas de domínio, compreensão e auto-desapego." (6)

Devido a essa complexa mente humana ter uma consciência superior, ela torna-se dominante na

terra. Aqui é importante reiterar que nada na evolução é destruído ou deixado para trás. O ser

humano carrega consigo a vida física e mental dos animais e transforma-as em valores mais altos.

Se os estados de animal inferior lutam contra serem elevados, a mais complexa mente racional lida

com eles desenvolvendo ética, disciplina, ascese e eventualmente integração.

Diferentemente do animal, o ser humano tem se tornado consciente de uma individual aspiração e

busca por perfeição: "Está em sua natureza humana, em toda natureza humana, exceder a si próprio

pela evolução consciente, escalar além daquilo que ele é" (7). Mesmo com o fardo da animalidade

puxando para baixo em direção à inércia e a ignorante mentalidade humana lutando pelo

conhecimento, o próximo produto da evolução será conhecimento. No presente, contudo, a maioria

das pessoas usa o mais baixo plano da inteligência humana que Sri Aurobindo chama a mentefísica:

"porque depende para sua evidência de fatos e senso de realidade, do cérebro físico, mente sensorial

física, órgãos sensoriais físicos; ali nós somos o homem físico que atribui muita importância a

coisas objetivas e a sua vida exterior, que tem pouca intensidade de existência subjetiva ou interior

e subordina o que quer que tenha delas às exigências maiores da realidade exterior." (8)


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Essa pessoa inclinada ao físico também possui uma parte vital de sensações, desejos, esperanças,


sentimentos, etc., mas estas também são dependentes de coisas e eventos externos. A mente-mental

está lá, mas baseia sua ação e pensamento no costume, tradição, utilidade, conforto e entretenimento

da existência física e sensitiva. Qualquer coisa mais elevada que a sensação e o mundo material é

usualmente considerada como supérflua.

"Acima da mente física e mais profundo interiormente que a sensação física, está o que nós

podemos chamar uma inteligência de mente-de-vida, dinâmica, vital, nervosa, mais aberta, embora

ainda obscuramente, ao psíquico, capaz de uma primeira formação-de-alma, embora apenas de uma

mais obscura alma-vida, - não o ser psíquico..." (9)

Esse próximo plano, mente-vital existe como um campo para o preenchimento dos impulsos de vida

como nossas ambições, poder, caráter forte, amor, paixão, aventura e toda espécie de experiências

de vida. Nesse nível nossa vida interior torna-se real para nós e independente do corpo e dos

símbolos do mundo físico. Uma pessoa com uma alta intensidade desse ímpeto de vida busca novos

horizontes, é interessada no futuro. Existe uma vida mental também, freqüentemente uma escrava

dos desejos vitais. Essas pessoas podem tornar-se os aventureiros mentais, lutadores por novas

idéias, o tipo sensitivo de artista, o poeta dinâmico, o profeta ou campeão de uma causa. Essa

mente-vital é uma força vigorosa no movimento da evolução.

Acima desse estágio de mente vital está a mente-mental de pensamento e inteligência puros para a

qual as coisas do mundo mental são mais importantes:

"...aqueles que estão sob sua influência, o filósofo, pensador, cientista, criador intelectual, o homem

de idéia, o homem do mundo da fala ou escrita, o idealista e o sonhador, são o ser mental presente

no seu mais alto cume atingido." (10)

Aqui, as mentes vital e física estão usualmente controladas pela inteligência e vontade pensantes. Se

nós permanecermos no plano mental, nunca poderemos transformar nossa natureza, mas podemos

controlá-la e harmonizá-la. A mente de inteligência pura tem atrás de si uma mente subliminal que

"sente diretamente todas as coisas do plano mental". Ela é aberta a poderes mentais e poderes

ideativos que influenciam o mundo físico e experiências de vida, mas presentemente nós não

experienciamos diretamente a mente subliminal, assim podemos apenas inferir essas influências.

Esses três graus de mentalidade são passos extremamente significativos na evolução de seres

mentais em direção ao psíquico (alma), os planos da intuição, a Sobremente e finalmente a

Supramente. Conforme nós nos desenvolvemos e nos tornamos mais conscientes de nossa

individualidade, a intuição a priori da alma manifesta sua consciência oculta. Nós vemos que a

evolução tem um processo duplo: 1) uma evolução externa física visível aos sentidos, e 2) um

processo interno de evolução de alma que não é visível. Essa realização é um passo crucial no

esquema de evolução de Sri Aurobindo porque significa que não somos mais apenas uma operação

automática da natureza, nós obtivemos mais conhecimento e temos a vontade para aprofundar

nossas próprias capacidades interiores:

"O homem tem visto que pode haver um status mais alto de consciência que seu próprio; o

oestrus


(impulso) evolucionário está em suas partes de mente e vida, a aspiração para exceder a si próprio

está liberada e articulada dentro dele: ele se tornou cônscio de uma alma, descobriu o si e espírito.

Nele, então, a substituição de uma evolução subconsciente por uma evolução consciente se tornou

concebível e praticável, e pode muito bem ser concluído que a aspiração, o impulso, o empenho

persistente nele é um sinal seguro da vontade da Natureza por um caminho mais alto para a

plenitude, a emergência de um mais alto status." (11)


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A cada passo na evolução pode-se receber um indício de o que será o próximo passo. Os sinais de


sensação no aparente inconsciente são visíveis;"... na vida que se move e respira, a emergência da

mente sensitiva é aparente e a preparação da mente pensante não é inteiramente oculta..." (12). Na

mente-pensante surge a busca de uma consciência espiritual. Como a planta que contém dentro de

sua vida a possibilidade do animal, assim o animal contém dentro de si os primeiros movimentos do

pensador, e no pensador está contido o ser espiritual que será plenamente consciente de seu

verdadeiro si e natureza.

Este próximo passo é indicado pelas profundas aspirações que estão despertando na raça humana.

Por exemplo, a importância da espiritualidade nas pessoas pode muito bem ser tomada como um

sinal de que nós temos a capacidade e que é a intenção da natureza para a transição a ser feita. A

evolução não é sempre um processo invariavelmente lento, ela inclui saltos emergentes quando o

tempo é correto:

"...a ação da Natureza evolucionária em um tipo de ser e consciência é primeiro desenvolver o tipo

até suas extremas capacidades por uma sutilização e crescente complexidade até que este esteja

pronto para a ruptura da concha, a madura emergência decisiva, revogativa, voltando a consciência

sobre si própria, que constitui um novo estágio na evolução." (13)

Se é verdade que o aparecimento do animal tipo-macaco sendo dotado com elementos de

humanidade foi a emergência do humano, então o aparecimento agora no ser humano de um tipo

espiritual "semelhante à humanidade mental-animal, mas já com o cunho da aspiração espiritual em

si, poderia ser o método óbvio da Natureza para a produção evolucionária do ser espiritual e

supramental" (14). Isso significa que não toda humanidade será elevada em bloco à natureza

supramental; primeiramente haverá apenas uns poucos seres humanos altamente desenvolvidos que

irão formar o novo tipo e mover-se primeiramente para a nova vida.

A maior necessidade no próximo passo e transformação evolucionárias é a mudança de consciência.

Nos estágios prévios de evolução houve primeiro uma mudança na organização física de modo que

uma mudança na consciência pudesse se seguir. Mas na humanidade uma reversão é possível, pois é

por intermédio tanto de nossa consciência quanto de nosso corpo físico que essa mudança deve

ocorrer. Um exemplo é que a mente humana tem já mostrado uma capacidade para ajudar a

natureza na evolução de novos tipos de plantas e animais e nós temos a mesma insistência em

modificar a nós mesmos.

Embora essas conclusões sejam algo óbvias no mundo fenomenal, existe o fator da alma que

certamente não é óbvio por observação de fenômenos. Por "alma" ou "entidade psíquica" Sri

Aurobindo significa um "princípio psíquico que não é a vida ou a mente, muito menos o corpo, mas

que sustenta em si próprio a abertura e florescimento da essência de todos esses" (15). Como já

exposto anteriormente, nós temos uma dupla entidade psíquica em nós:

"a alma-de-desejo superficial que atua em nossas ânsias vitais, nossas emoções, faculdades estéticas

e busca mental por poder, conhecimento e felicidade; e uma entidade psíquica subliminal, um poder

puro de luz, amor, alegria e refinada essência de ser que é nossa verdadeira alma por detrás da

forma exterior da existência psíquica." (16)

A enfermidade do mundo é nossa falha em encontrar e viver pela nossa real alma (Alma Divina).

Ela é subliminal em nós, ela:

"queima no templo do mais profundo coração por detrás de... uma mente, vida e corpo ignorantes...

essa entidade psíquica velada é a chama da Divindade dentro de nós... Ela é... o Guia oculto, o

Daemon de Sócrates, a luz interior ou voz interior do místico." (17)


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É isso, diz Sri Aurobindo, que é imortal em nós de nascimento a nascimento. A morte não pode


tocá-la, nem a queda ou corrupção; a verdadeira alma é "uma indestrutível centelha do Divino" (18).

A alma, contudo não é o Si que, presidindo a existência do individual é sempre cônscio de sua

universalidade e transcendência; o que a alma faz é suportar nossa mente, vida e corpo e produzir

uma "personalidade psíquica" que cresce e muda e se desenvolve de um nascimento ao próximo.

Inicialmente o ser psíquico tem apenas uma ação limitada através da mente, vida e corpo, porque

essas partes devem ser desenvolvidas para se tornarem os instrumentos da alma para sua expressão,

"e é confinado longamente pela evolução delas" (19). É função da alma levar-nos da ignorância em

direção à Consciência Divina, e na sua jornada recebe a essência de toda experiência. A verdadeira

alma sempre aponta em direção à "Verdade e Correção e Beleza, em direção ao Amor e Harmonia e

tudo o que é uma possibilidade divina em nós, e persiste até que essas coisas se tornem a

necessidade maior de nossa natureza" (20). A alma divina conhece a unidade de todas as coisas,

mas onde a personalidade psíquica é menos desenvolvida, o deleite de algumas das partes mais

refinadas é freqüentemente perdido, mesmo se tivermos um vital muito poderoso e uma mente

brilhante. Aí é onde a alma-de-desejo reina (21).

Da mesma maneira que a Supramente "usa para efetuação seu próprio termo subordinado, a Mente"

(22) e a Força-Consciente divina expressa a si própria na vida e Existência usa a matéria para sua

expressão, assim também o princípio original de Deleite manifesta-se em nós por intermédio da

alma (princípio psíquico). Em nossa ignorância a resposta da alma-de-desejo é aquela de egoísmo.

Quando quebrarmos as cadeias do egoísmo nós seremos capazes de modificar os valores de

ignorância naqueles de conhecimento e movimentar-nos mais livremente em direção à vida

supramental.

"No cumprimento de nosso ser psíquico como na consumação de nossas partes de mente e vida, é o

relacionar de si à sua fonte divina, à sua verdade correspondente na Realidade Suprema que é o

movimento indispensável; e, tanto aqui como lá, é pelo poder da Supramente que isso pode ser feito

com uma totalidade integral, uma intimidade que se torna uma autêntica identidade; pois é a

Supramente que interliga os hemisférios superior e inferior da Existência Una. Na Supramente está

a Luz integradora, a Força consumadora, a ampla entrada para dentro da Ananda suprema: o ser

psíquico elevado por aquela Luz e Força pode unir-se com o Deleite original da existência do qual

ele veio; superando as dualidades de dor e prazer, libertando de todo medo e recolhimento da

mente, vida e corpo, ele pode refazer os contatos da existência no mundo em termos da Divina

Ananda." (23)

A Alma Divina individual, no desenvolver suas relações cósmicas com a Realidade suprema deve

assumir um corpo para seu ponto de partida; é por intermédio do corpo que ela é capaz de expressar

a si própria neste mundo. Apenas por intermédio do nascimento é possível ter um desenvolvimento

progressivo em direção à Supramente habitando dentro de cada um de nós. Nossa descoberta da

Alma Divina é uma condição essencial para o conhecimento e verdade. Mas, nesse ponto particular

da evolução, a razão pura é a faculdade mais alta mais perfeitamente desenvolvida e tem alcançado

seu cume apenas em uma minoria de indivíduos.

A razão funciona na maya inferior porque, sendo tanto um instrumento de conhecimento como uma

faculdade de conhecimento, ela constrói sistemas com dados limitados e freqüentemente os dados

são contraditórios e devem ser modificados por outros dados. Por causa de seu princípio de divisão,

a razão é capaz de servir-nos de um modo benéfico e ao mesmo tempo tem fornecido artefatos para

destruição:

"ela (a razão) tem tornado possível uma gigantesca eficiência de organização que tem sido usada, de

um lado, para o melhoramento econômico e social das nações e, de outro, para lançar cada uma em


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agressão, ruína e matança. Ela tem feito surgir, de um lado, um humanitarismo racionalista e


altruísta e, de outro, tem justificado um ateu egoísmo, vitalismo e vulgar desejo de poder e sucesso.

Ela tem reunido a humanidade e dado nova esperança e ao mesmo tempo esmagado com a carga de

um monstruoso comercialismo." (24)

Nossa razão pode justificar qualquer número de combinações e refutar um número igual delas, mas

desde que ela opera com o finito, ela não pode alcançar a verdade total - a verdade infinita. Não está

dentro da habilidade da razão encontrar uma vida perfeita para a humanidade; em uma vida

totalmente racional o poder dinâmico poderia ser perdido e a vida poderia terminar em uma

esterilização. As causas íntimas da vida humana são não-racionais e supra-racionais. A razão, com

sua praticabilidade lógica, possui apenas um modo de atingir o melhor dos complexos e ambíguos

movimentos da natureza e este é pela regulação e mecanização do mental, vital e físico. Se isso for

efetuado, diz Sri Aurobindo, a humanidade terá que:

"recuperar sua liberdade e crescimento por uma revolta e uma destruição da máquina em cujas

garras foi lançada ou escapar por um recolhimento em si própria e uma rejeição da vida. O

verdadeiro caminho do homem é descobrir sua alma e sua instrumentação e força-de-si e repor isso

no lugar da mecanização da mente e da ignorância e desordem da natureza-vida." (25)

Pelo descobrimento da alma, uma total direção espiritual será dada à vida e natureza; isso pode

elevar a humanidade muito além de seu presente status. O que nós devemos desenvolver está em

nossa própria natureza e não em algum lugar alienado a ela; é um despertar para o conhecimento de

nossa Alma Divina. Sri Aurobindo diz que este é o "passo pelo qual o todo da evolução tem sido

uma preparação" (26). É imperativo que algumas pessoas se voltem em direção à visão dessa

mudança.

"Essa tendência não está ausente e deve aumentar com a tensão da crise no destino-de-mundo

humano; a necessidade de um escape ou uma solução, o sentimento de que não há outra solução

além do espiritual pode apenas crescer e tornar-se mais imperativo sob a urgência de circunstâncias

críticas. A esse clamor no ser deve sempre haver alguma resposta na Realidade Divina e na

Natureza." (27)

INVOLUÇÃO E IGNORÂNCIA (A filosofia de Sri Aurobindo ) Cap.V



Por toda sua obra magna filosófica, A Vida Divina, Sri Aurobindo argüi pela necessidade da


involução dos princípios de unidade superiores para causar a evolução do mundo inferior de

multiplicidade. No primeiro capítulo ele diz:

"Nós falamos da evolução da Vida na Matéria, a evolução da Mente na Matéria; mas evolução é

uma palavra que meramente refere-se ao fenômeno sem explicá-lo. Pois parece não haver nenhuma

razão para a Vida evoluir de elementos materiais ou Mente de formas viventes, a menos que

aceitemos a solução vedântica de que a Vida já está involuída na Matéria e a Mente na Vida porque,

em essência, a Matéria é uma forma de Vida velada, e Vida uma forma de Consciência velada." (1)

Mais ainda, nós vimos que os princípios que constituem a existência são idênticos em seu ser,

embora diversos em seu vir a ser. Isto significa que no real ponto de partida da evolução terrestre, o

inconsciente, estão necessariamente involuídos todos os princípios da realidade última. Essa teoria

de Sri Aurobindo reconcilia a realidade sem tempo de Ser com o mundo temporal de vir a ser e

explica a evolução teleológica como um derradeiramente livre ato de criação. Sri Aurobindo

sustenta que todas as várias gradações e tipos de ser vieram à existência pela Consciência-Força

manifestada na matéria pelo poder da Supramente que constrói suas próprias formas na

multiplicidade para a unidade interior. Isso ele chama a involução do Espírito. Evolução, então, é

um auto-desenvolvimento do Espírito. Um exemplo que ele utiliza é o da vida involuída na matéria.

A questão é, se a vida não está involuída na matéria, a partir de que ela evolui? Neste argumento,

Sri Aurobindo mostra que vida é uma força universal que trabalha para criar, modificar, reconstruir,

manter, dissolver e energizar formas substanciais com uma atividade e intercâmbio de uma energia

consciente como sua base:

"No mundo material que nós habitamos, a Mente está involuída e subconsciente na Vida, como a

Supramente está involuída e subconsciente na Mente, e esse instinto de Vida com uma Mente

subconsciente involuída está novamente ela própria involuída na Matéria" (2).

A Matéria é então a fundação e o começo do Espírito em desenvolvimento. "O universo material

principia com o átomo formal sobrecarregado com energia, instinto com a substância não formada

de um subconsciente desejo, vontade e inteligência" (3). É para fora dessa matéria que a vida nasce.

Em seu argumento pela involução Sri Aurobindo diz que a natureza mostra muita ordem para ser

um processo de mero acaso, e muito "jogo livre" de variação para ser controlada por qualquer

espécie de necessidade mecânica. "Deve haver por detrás da Necessidade ou nela mesma uma lei de

unidade associada à coexistente, mas dependente, lei de multiplicidade..." (4). E, se existe uma

necessidade que compele a evolução, é necessário que exista potencialmente no inconsciente uma

consciência já involuída que, no tempo certo, pode irromper de sua assim chamada prisão. Para Sri

Aurobindo, esta consciência é o princípio supramental.

Concordantemente existe uma consciência involuída dentro de cada ação da evolução e mesmo a

mais limitada prisão do inconsciente é uma condição indispensável para o início da evolução. Sri

Aurobindo chama isso o "princípio de livre variação de possibilidades" (5) que significa que

necessidade mecânica ou acaso existem somente em aparência, não em realidade. Ele relembra-nos

que a Supramente é o poder que impele a potencialidade para atualidade, pois todos os estágios são

expressões do conhecimento da Supramente e sua própria auto-percepção é trazida em cada átomo.


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Exatamente como a Existência é inerente na Consciência-Força e Deleite, assim também cada


estágio na evolução é inerente na substância e energia.

A involução de Sachchidananda dá à dividida existência de mente, vida e matéria sua divina

origem. Nós precisamos relembrar que a unidade não é penalizada na aparente separação, porque o

divino Brahman conduz sua força de consciência para dentro até mesmo do mais limitado

inconsciente e a Alma Divina sempre vê a si própria em todas as formas:

"Em tudo está a mesma Alma, o mesmo Ser divino; a multiplicação de centros é apenas um ato

prático de consciência com intenção de instituir um jogo de diferença... baseado na unidade

essencial..." (6)

Sri Aurobindo havia mostrado que a involução existe, mas uma questão permanece. Como a criação

nesse mundo familiar de nossa experiência cotidiana veio a ser tal consciência limitada, e por que

nós usualmente vemos a matéria inconsciente como o início e o fim de tudo? Por que nossa alma

parece não mais que um temporário acidente no tempo, e se ela é imortal, por que parece tão

estranha a nós? A resposta a todas as questões é a mesma: ignorância.

Ignorância significa "ignorar" ou "não ver" e é associada por Sri Aurobindo à maya inferior. Mas a

ignorância não é considerada por ele como desempenhando um papel negativo em nosso mundo e

experiência. Ela parte da multiplicidade como a realidade básica "e de modo a retornar à real

unidade deve principiar com a falsa unidade do ego" (37). O estágio da ignorância é positivo porque

sem ela a evolução seria impossível. Para Sri Aurobindo a criação é uma involução do Espírito para

dentro da Ignorância, que é o elemento necessário da evolução para dar a nosso mundo a promessa

da perfeição. Através dos séculos, pensadores e pessoas criativas do mundo todo têm realizado a

ignorância da natureza e a verdade de Deus interligados por uma realidade:

"...a perfectibilidade do homem, a perfectibilidade da sociedade, a visão de Alwar da descida de

Vishnu e dos Deuses sobre a terra, o reino dos santos... a cidade de Deus, o milênio, o novo céu e

terra do apocalipse..." (8)

Mas essas intuições nunca realmente tiveram fundamentos em "conhecimento seguro" e as pessoas

continuam a oscilar entre a idéia de um brilhante futuro para a humanidade e uma cinzenta

depressão do absurdo da vida. De acordo com Sri Aurobindo, a vida divina evoluindo na natureza

terra não é apenas nossa imaginação esforçando-se por alcançar, em falsa esperança, um futuro

brilhante; existe uma base racional para tal ponto de vista:

"...o termo inferior de ser no qual nós atualmente vivemos contém em si próprio o princípio e

intenção daquilo que o excede e é por seu próprio auto-exceder e transformar que ele pode

encontrar e desenvolver-se em uma completa forma de sua real essência." (9)

Mesmo uma realização de nossa ignorância, então, não deve ser uma depressão, pois ignorância é

meramente o poder de Conhecimento reter a si próprio e limitar sua ação; ela não é uma Vontade

separada existindo independentemente da Consciência Divina. Ela tem, de fato, a capacidade para

evoluir em conhecimento porque o conhecimento é potencial nela.

Se ignorância é conhecimento limitado, e se conhecimento é potencial na ignorância, não pode

haver, para Sri Aurobindo, um absoluto bem e um absoluto mal. "...Conhecimento e Ignorância são

luz e sombra da mesma consciência..." (10). Após o conhecimento espiritual involuir para dentro da

ignorância e então para dentro do inconsciente, ele emerge primeiro a partir do inconsciente e então

para fora da ignorância para um mais alto estado de consciência:


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"De fato, o que está acontecendo é que a ignorância está buscando e preparando para transformar a


si própria por uma iluminação progressiva de sua escuridão no Conhecimento que está já encerrado

dentro dela; a verdade cósmica manifestada em sua real essência e figura poderia, por essa

transformação, revelar a si própria como essência e figura da suprema onipresente Realidade." (11)

Esse esforço em direção ao auto-conhecimento está profundamente inerente na consciência da

humanidade, e esse esforço verdadeiro é nossa esperança para um futuro brilhante:

"O mundo vive em nós, pensa em nós, forma a si próprio em nós; mas nós imaginamos que somos

nós quem vivemos, pensamos, tornamo-nos separados por nós mesmos e para nós mesmos. Como

somos ignorantes de nosso si sem tempo, superconsciente, subliminal e subconsciente, também

somos ignorantes de nosso si universal. Apenas isso nos poupa: que nossa ignorância é uma

ignorância que está plena de impulso e se esforça irresistivelmente, eternamente, pela verdadeira lei

de seu ser, em direção à realização de auto-posse e auto-conhecimento." (12)

Nós vimos que, de acordo com Sri Aurobindo, ignorância é conhecimento limitado e uma parte do

processo evolucionário, mas como pode a ignorância "entrar em ação ou manter a si própria em

ação em um Ser absoluto que deve ser consciência absoluta e portanto não pode ser sujeito a

ignorância?" (13). Onde se origina a ignorância?

Primeiramente, para evitar distorcer a verdadeira Unidade integral de Brahman dizendo que

ignorância é apenas individual ou apenas cósmica, Sri Aurobindo coloca que "Ignorância deve

necessariamente ser parte do movimento do Uno (Brahman), um desenvolvimento de sua

consciência sabidamente adotado, à qual não é forçosamente sujeita, mas que utiliza para seu

propósito cósmico" (14). Se essa idéia parece paradoxal, a solução pode ser encontrada na ação da

Força-Consciência (Chit) manifestando a si própria em Vontade e Conhecimento (Supramente) que

manifesta o fenômeno da ignorância. Assim, dentro da ignorância repousam encerrados vontade e

conhecimento conscientes. Apenas a vontade e conhecimento conscientes têm o poder dinâmico

para manifestarem-se de modo a experienciar todas as formas, mesmo a que parece ser a mais

limitada. Mesmo em nós próprios descobrimos que essa energia de Força-Consciência é a força

mais dinâmica que temos. O dinamismo atua sobre dois objetos; nós mesmos ou mundo interno e os

outros, "sejam criaturas ou coisas", no mundo externo em torno de nós. Mas em Sachchidananda, a

distinção de interno e externo não se aplica como para nós, porque nós fazemos a divisão em nossa

mente. Em nós, apenas uma parcela da força de nosso ser é "identificada com nossa ação

voluntária" (15), o restante é identificado com nossas ações mentais ou outras ações involuntárias ,

subconscientes ou superconscientes. Mas em Sachchidananda essa separação e seu efeito não se

aplicam, porque tudo é seu si indivisível, e efeitos são movimentos de sua Força-Consciente em

operação.

Brahman tem tanto consciência ativa como passiva. A consciência ativa expressa a si própria na

criação (involução), a consciência passiva é o reservatório do qual a energia ativa flui. O mesmo

processo ocorre em seres humanos. Quando nós agimos, a totalidade de nossa personalidade

permanece por detrás do ato, mas a totalidade da personalidade não expressa a si própria na ação.

De fato, apenas uma pequena porção dela assim o faz; o restante é conservado como uma fonte de

poder potencial que é capaz de projetar a si própria em um dado momento para a ação. A parte ativa

de nós é apenas um diminuto fragmento da consciência passiva, o reservatório profundo de nosso

ser. Em Brahman a consciência passiva e ativa são:

"a mesma consciência, a mesma energia, numa extremidade em um estado de auto-reserva, na outra

lançada em um movimento de auto-doação e auto-desenvolvimento, como o repouso de um

reservatório e o correr dos canais que fluem dele." (16)


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Brahman, contudo, não passa alternadamente da passividade para atividade e novamente de volta à


passividade. Se esse fosse o caso, desde que existe o universo apenas o Brahman ativo poderia estar

na existência. Mas se o universo fosse dissolvido, o Brahman ativo e tudo mais deveriam cessar.

Brahman possui atributos passivos e ativos simultaneamente e "não passa alternadamente de um

para o outro como do sono para o despertar" (17).

Por outro lado, o Brahman Absoluto transcende toda atividade e passividade; é consciente de

ambos, mas não perdido em nenhum, o que significa significativamente que ignorância não é um

elemento do Brahman Absoluto e consequentemente não pode haver "nenhuma Ignorância original

e primal" (18).

Na multiplicidade de almas, aí também não há divisão original, portanto nenhuma ignorância. Se

ignorância fosse inerente na alma ninguém poderia aspirar a elevar-se acima da ignorância para

dentro da presença do conhecimento. Em cada alma o Divino imanente é consciente de sua unidade

com o Uno e o múltiplo. Mesmo "nossa consciência superficial, identificada com o corpo e com a

vida dividida e mente dividida, é ignorante; mas estas também podem ser iluminadas e tornadas

conscientes. Multiplicidade, então, não é necessariamente causa da ignorância" (19).

"A origem da Ignorância deve então ser buscada em alguma auto-absorvida concentração... de

Força-Consciente em ação em um movimento separado da Força; para nós isso toma a aparência de

mente identificando a si própria com o movimento separado e identificando a si própria também no

movimento separadamente com cada uma das formas resultantes disso. Assim ela constrói uma

parede de separação que impede a consciência em cada forma de conscientizar-se de seu próprio ser

total, de outras consciências encarnadas e do ser universal." (20)

Agora, diz Sri Aurobindo, nós temos que nos perguntar qual é a natureza dessa auto-absorção, dessa

auto-esquecida concentração? Se fosse a ação do ser inteiro ou da inteira força de ser, então ela

deveria ter todo conhecimento. Deve então surgir como um fenômeno subordinado por alguma

limitação de consciência. "Ignorância é o esquecimento do Si e do Todo com propósitos pela

Natureza, deixando-os de lado... de modo a fazer somente aquilo que ela tem que fazer em algumas

operações exteriores da existência" (21).

A natureza interior não é ignorante. Nós temos a capacidade e potencialidade de conhecimento

total, mas como seres mentais nós vivemos de momento a momento e estamos, portanto, em uma

espécie de ação superficial de consciência. Nós somos ignorantes de nosso futuro e nosso passado

exceto por uma pequena parte que podemos relembrar pela memória. Sri Aurobindo sustenta que

nossa existência no momento não é de maneira nenhuma a verdade total de nosso ser, é apenas uma

verdade pragmática que nos serve de momento a momento desempenhando o ator, o soldado, o

poeta, ou tudo o mais da vida superficial.

Por causa do ego, freqüentemente esquecemos a nós próprios como o ator e nos tornamos a parte

que estamos desempenhando, por exemplo, "soldado esquece a si próprio no ato e se torna o ataque

e a fúria e a matança" (22).

"A inconsciência é superficial como a ignorância da mente humana desperta ou a inconsciência ou

subconsciência de sua mente adormecida, e dentro dela está o Todo-consciente; é inteiramente

fenomenal, mas é o fenômeno completo.... Nesciência na Natureza é a completa auto-ignorância; o

conhecimento parcial e a ignorância geral do homem é uma auto-ignorância parcial marcando em

sua ordem evolucionária um retorno em direção ao auto-conhecimento.... A ignorância é efetiva

dentro dos limites daquele movimento e é válida para seus propósitos, mas fenomenal, parcial,

superficial, não essencialmente real, não integral... Naquela verdadeira verdade de si própria é uma


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involuída Consciência e Conhecimento evoluindo de volta a si própria, mas é dinamicamente


efetiva como uma Inconsciência e uma Ignorância" (23).

Quando Sri Aurobindo fala de um movimento parcial de Força-Consciência absorvida em um

campo limitado de forças e ações, ele não está implicando em dualismo: é mais propriamente uma

força integral e não algo que contradiz conhecimento:

"Essa Ignorância é, como temos visto, realmente um poder do Conhecimento para limitar a si

próprio, para concentrar-se no trabalho em mãos, uma concentração exclusiva na prática que não

impede a plena existência e atuação do ser consciente total por detrás, mas uma atuação nas

condições escolhidas e auto impostas na natureza. Esse poder de auto-limitação para uma atuação

particular, em vez de ser incompatível com a absoluta força-consciente daquele Ser, é precisamente

um dos poderes que nós poderíamos esperar existir entre as múltiplas energias do Infinito" (24).

A REALIDADE ONIPRESENTE (A Vida Divina de Sri Aurobindo) Cap IV

“Se O conhecemos como Brahman, o Não-Ser, ele se torna não-existente. Se conhecemos que Brahman É, então Ele é conhecido como o real na existência.”

Taittiriya Upanishad [1]


Então, posto que admitimos tanto o clamor do Espírito puro manifestando em nós sua absoluta liberdade, como o clamor da Matéria universal por ser o molde e a condição de nossa manifestação, devemos encontrar uma verdade que possa reconciliar inteiramente estes antagonistas e proceda a ambos sua porção merecida na Vida e sua merecida justificação no Pensamento, sem privar-lhes de nenhum de seus direitos, sem negar a soberana verdade da qual mesmo seus erros, mesmo a exclusividade de seus exageros extraem uma força tão constante. Pois, onde quer que haja uma afirmação extrema que faça tão poderoso apelo à mente humana, podemos estar certos de que estamos em presença não de um mero erro, superstição ou alucinação, mas de um fato soberano, disfarçado, que exige nossa fidelidade e se vingará se for negado ou excluído. Aqui reside a dificuldade de uma solução satisfatória e a fonte dessa carência de finalidade que persegue todos os compromissos entre Espírito e Matéria. Um compromisso é um negócio, uma transação de interesses entre dois poderes em conflito; não é uma verdadeira reconciliação. A verdadeira reconciliação procede sempre pela compreensão mútua que conduz a uma espécie de íntima unidade. Por isso, é através da máxima unificação possível entre Espírito e Matéria que melhor chegaremos a sua reconciliável verdade, e assim, a uma base mais forte para uma prática reconciliatória entre a vida interior do indivíduo e sua existência externa.
Já descobrimos que, na consciência cósmica, há uma ponte de encontro onde a Matéria se torna real para o Espírito, e o Espírito se torna real para a Matéria. Pois, na consciência cósmica, Vida e Mente são intermediários e não mais, como na egoística mentalidade ordinária, agentes de separação, fomentadores de uma querela artificial entre os princípios positivo e negativo da mesma Realidade incognoscível. Alcançando a Mente da con­sciência cósmica, iluminada por um conhecimento que percebe de imediato a verdade da Unidade e a verdade da Multiplicidade e apreende as fórmulas de sua interação, ela encontra suas próprias discordâncias imediatamente explicadas e reconciliadas pela divina Harmonia; satisfeita, consente em converter-se no agente dessa suprema união entre Deus e a Vida, para a qual tendemos. A Matéria se revela para o pensamento realizador e para os sentidos sutilizados como figura e corpo do Espírito - o Espírito em sua extensão autoformadora. O Espírito se revela através dos mesmos agentes de consentimento que a alma, a verdade, a essência da Matéria. Ambos se admitem e se confessam mutuamente divinos, reais e essencialmente unos. A Mente e a Vida são reveladas nessa iluminação como, imediatamente, figuras e instrumentos do supremo Ser Consciente, através do qual Ele Se estende e Se aloja na forma material, e nessa forma Se revela a para os Seus múltiplos centros de consciência. A Mente atinge sua autorrealização quando se converte em puro espelho da Verdade do Ser, que se expressa a Si mesmo nos símbolos do universo; e a Vida, quando esta conscientemente empresta suas energias à perfeita autofiguração do Divino em formas e atividades sempre novas da existência universal.

Na luz desta concepção, podemos perceber a possibilidade de uma vida divina para o homem no mundo, que irá de imediato justificar a Ciência, revelando um sentido e uma meta inteligível para a evolução cósmica e terrestre, e irá realizar, pela transfiguração da alma humana em divina, o grande sonho ideal de todas as religiões elevadas.

E o que dizer desse silencioso Eu, inativo, puro, autoexistente, autossatisfeito, que se apresente a nós como a permanente justificação do asceta? Aqui também a harmonia, e não a oposição irreconciliável, deve ser a verdade iluminadora. O silencioso e ativo Brahman não são entidades diferentes, opostas e irreconciliáveis, uma negando, a outra afirmando a ilusão cósmica; eles são dois aspectos do mesmo Brahman, o positivo e o negativo, e cada um é necessário ao outro. É fora do Silêncio que a Palavra que cria os mundos sempre atua; pois a Palavra expressa aquilo que está semiescondido no Silêncio. É a eterna passividade que torna possível a perfeita liberdade e a onipotência de uma eterna atividade divina em inúmeros sistemas cósmicos. Pois as derivações dessa atividade obtêm suas energias e seu ilimitável poder de variação e harmonia, do imparcial sustentáculo do Ser imutável, de seu consentimento a esta infinita fecundidade de sua própria dinâmica Natureza.

Também o homem só se torna perfeito quando encontrou dentro de si aquela absoluta calma e passividade do Brahman, e mantém através dela com a mesma divina tolerância e a mesma divina beatitude, uma atividade livre e inextinguível. Assim, aqueles que possuem a Calma dentro de si podem sempre perceber, emanando de seu silêncio o perene suprimento de energias que trabalham no universo. Por isso, não é, por assim dizer, a verdade do Silêncio que é, por natureza, a rejeição da atividade cósmica. A aparente incompatibilidade dos dois estados é um erro da Mente limitada, que, acostumada a vigorosas oposições de afirmação e negação e passando repentinamente de um pólo ao outro, é incapaz de conceber uma consciência compreensiva, vasta e forte o suficiente para incluir ambos num simultâneo abraço. O Silêncio não rejeita o mundo, o Sustenta. Ou melhor, ele suporta com igual imparcialidade à atividade e a retirada da atividade, e aprova também a reconciliação da qual a alma permanece livre e calma, mesmo quando se entrega a toda ação.

Mais há ainda a retirada absoluta, há o Não-Ser. Do Não-Ser, diz a antiga Escritura, surgiu o Ser [2]. Daí este último irá, com certeza mergulhar novamente no Não-Ser. Se a infinita e indiscriminada Existência permite todas as possibilidades de discriminação e de múltipla realização, não é verdade que o Não-Ser, ao menos como estado primário e única realidade constante, nega e rejeita toda possibilidade de um universo real? O Nihil de certas escolas budistas seria, então, a verdadeira solução ascética; o Eu, como o Ego, seria apenas uma formação ideativa concebida por uma ilusória consciência fenomênica.

Mas novamente verificamos que estamos sendo iludidos por palavras, enganados pelas vigorosas oposições de nossa mentalidade limitada, com sua tendência a confiar em distinções verbais, como se elas representassem perfeitamente verdades básicas, e na interpretação de nossas experiências supramentais nos termos dessas intolerantes distinções. Não-Ser é apenas uma palavra. Quando examinamos o fato que ela representa, já não estamos mais seguros de que a não-existência absoluta tenha qualquer chance, assim como o infinito Eu, significar, com esse Nada, algo além do último termo ao qual podemos reduzir nossa mais pura concepção e nossa mais abstrata ou sutil experiência de ser real como o conhecemos enquanto neste universo. Esse Nada, então, é alguma coisa além da concepção positiva. Erigimos uma ficção do nada com o intuito de ultrapassar, pelo método da exclusão total, tudo o que podemos conhecer e que conscientemente somos. Na realidade, quando examinamos de perto ao Nihil de certas filosofias, começamos a perceber que ele é um zero que é Tudo ou um indefinível Infinito que aparece, à mente, como um vazio, pois a mente só capta construções finitas, mas ele, de fato, a única Existência verdadeira [3] .

E quando dizemos que do Não-Ser surgiu o Ser, percebemos que estamos falando em termos de Tempo, sobre algo que está além do Tempo. Pois o que era aquela portentosa data na história do eterno Nada em que o Ser nasceu dele, ou quando virá essa data igualmente formidável em que um irreal tudo irá recair no eterno vazio? Sat e Asat, se ambos têm de ser afirmados, devem conceber-se como obtidos simultaneamente. Eles permitem um ao outro, mesmo se recusam misturar-se. Ambos, já que devemos falar em termos de Tempo, são eternos. E quem irá persuadir o Ser eterno de que ele não existe e que só o eterno Não-Ser eterno?

O puro Ser é a afirmação, pelo Incognoscível, de Si mesmo como base livre de toda existência cósmica. Damos o nome de Não-Ser a uma afirmação contrária de Sua liberdade em relação a toda existência cósmica - liberdade, quer dizer, em relação a todos os termos positivos da existência real nos quais a consciência pode formular-se no universo, inclusive o mais abstrato e o mais transcendente. Não os nega como real expressão de Si mesmo, mas nega Sua limitação mediante todo ou qualquer tipo de expressão. O Não-Ser permite o Ser, bem como o Silêncio permite a Atividade. Através dessa negação e afirmação simultâneas, que não são mutuamente destrutivas, mas sim complementares como todos os contrários, uma à outra como todos os contrários, a simultânea compreensão do auto-Ser como uma realidade e do Incognoscível, que está além, como a mesma Realidade, torna-se possível para alma humana desperta. Assim é que foi possível para Buda atingir o estado do Nirvana e atuar poderosamente no mundo, impessoal em sua consciência interna, em sua ação a mais poderosa personalidade que sabemos ter vivido e produzido resultados sobre a Terra.

Quando ponderamos sobre essas coisas, começamos a perceber quão débeis, em sua violência auto-afirmativa, e quão confusa, em sua enganosa diferenciação, são as palavras que usamos. Começamos também a perceber, que as limitações que impomos ao Brahman surgem de uma estreiteza de experiência da mente individual, que se concentra em um só aspecto do Incognoscível e age diretamente no sentido de negar ou denegrir todo o resto. Também tendemos a traduzir demasiado rigidamente o que concebemos ou sabemos do Absoluto, nos termos de nossa própria e particular relatividade. Afirmamos o Único e Idêntico discriminando apaixonadamente e fazendo valer o egoísmo de nossas próprias opiniões e experiências parciais contra as opiniões e experiências parciais de outros. É mais prudente esperar, aprender, crescer, e, já que somos obrigados, em atenção à nossa auto-perfeição, a falar destas coisas que a fala humana não pode expressar, buscar a mais ampla, a mais universal afirmação possível, e estabelecer com ela a máxima e mais compreensiva harmonia.

Reconhecemos, então, que é possível para a consciência do indivíduo entrar num estado em que a existência relativa parece dissolver-se e mesmo o Eu parece ser uma concepção inadequada. É possível tombar num Silêncio além do Silêncio. Mas isto não é a totalidade de nossa experiência definitiva, nem a simples e totalmente excludente verdade. Pois descobrimos que este Nirvana, essa auto-extinção, ao mesmo tempo que concede paz absoluta e liberdade à alma, no seu interior, consiste, na prática, em uma ação isenta mais efetiva. Essa possibilidade de uma impessoalidade inteiramente imóvel e de uma Calma vazia o interior, realizando exteriormente o trabalho das verdades eternas - Amor, Verdade e Retidão - foi talvez a real essência da doutrina de Buda - essa superioridade com respeito ao ego e à cadeia de trabalhos pessoais e à identificação com a forma mutável e a idéia, e não o insignificante ideal do escape à aflição e ao sofrimento do nascimento físico. Em todo caso, como o homem perfeito combinaria em si o silêncio e a atividade, assim também a alma completamente consciente voltaria a alcançar a absoluta liberdade do Não-Ser sem por isso perder seu poder sobre a Existência e o universo. Assim ela reproduziria em si mesma, perpetuamente, o eterno milagre da divina Existência no universo, porém indo além dele e até mesmo - como se estivesse - além de si mesma. A experiência oposta só poderia ser uma concentração da mentalidade do indivíduo sobre a Não-existência, e o resultado seria um esquecimento a retirada pessoal da atividade cósmica, ainda e sempre agindo na consciência do Ser Eterno.

Assim, após reconciliar Espírito e Matéria na consciência cósmica, percebemos a reconciliação, na consciência transcendental, da afirmação final de tudo e de sua negação. Descobrimos que todas as afirmações são declarações de status ou de atividade no Incognoscível; todas as negações correspondentes são declarações de Sua liberdade, a partir desse ou nesse status ou atividade. O Incognoscível é Algo para nós supremo, maravilhoso e inefável que Se formula continuamente à nossa consciência e continuamente escapa da formulação que fez. Não faz isso como algum espírito malicioso ou um caprichoso mago, conduzindo-nos de uma falsidade a uma falsidade maior, e então, uma negação de todas as cosas, mas sim como o Sábio que está além de nossa sabedoria, guiando-nos da realidade para uma sempre mais profunda e mais vasta realidade, até que encontremos a mais profunda e vasta de que somos capazes. O Brahman é uma realidade onipresente, não a causa onipresente de ilusões per­sistentes.

Se dessa forma aceitamos uma base positiva para nossa harmonia - e em que outra harmonia poderia ser fundada?— As diversas formulações conceituais do Incognoscível, cada uma representando uma verdade além do conceito, devem ser compreendidas, na medida do possível, em sua relação mútua e em seu efeito sobre a vida, não em separado, não exclusivamente, não formuladas para destruir ou minimizar indevidamente todas as outras afirmações. O Monismo real, o verdadeiro Adwaita, é aquele que admite todas as coisas como o uno Brahman e não procura dividir Sua existência em duas entidades incompatíveis, uma eterna Verdade e uma eterna Falsidade, Brahman e Não-Brahman, Eu e Não-Eu, um Eu real e um irreal porém perpétua Maya. Se, é verdade que o Eu isolado existe, também deve ser verdade que tudo é o Eu. E se esse Eu, Deus ou Brahman não é um estado de desamparo, um poder amarrado, uma personalidade limitada, sendo o Todo autoconsciente, deve haver alguma boa e inerente razão para a manifestação, e para descobri-la devemos prosseguir na hipótese de alguma potência, alguma sabedoria, alguma verdade do ser em tudo que se manifesta. A discórdia e o aparente mal do mundo devem ser admitidos em sua esfera, mas não aceitos como nossos conquistadores. O mais profundo instinto da humanidade busca sempre, e sabiamente, a sabedoria como a última palavra da manifestação universal, não uma eterna zombaria e uma ilusão - um secreto e finalmente triunfante bem, não um mal todo-criador e invencível - uma vitória definitiva e a realização, não o recuo desapontado da alma frente a sua grande aventura.

Pois não podemos supor que a Entidade isolada é compelida por algo fora dela ou outro que não Ela, porque tal coisa inexiste. Tampouco podemos supor que Ela se submete contra a vontade a algo parcial, dentro de si, que é hostil a seu Ser inteiro, negado por Ela e demasiado forte para Ela; pois isto só serviria para criar, em outra linguagem, a mesma contradição de um Todo e algo diferente do Todo. Mesmo se afirmamos que o universo só existe porque o Eu em sua absoluta imparcialidade, tolera todas as coisas sem distinção, encarando com indiferença todas as realidades e todas as possibilidades, há, no entanto, alguma coisa que quer a manifestação e a mantém, e por isso só pode ser o Todo. Brahman é indivisível em todas as coisas, e, o que quer que tenha sido desejado no mundo, foi desejado definitivamente por Brahman. É apenas nossa consciência relativa, que, alarmada ou frustrada pelos fenômenos do mal, da ignorância e da dor no cosmos, procura livrar o Brahman da responsabilidade por Si e por suas obras criando algum princípio oposto, Maya ou Mara, o mal consciente ou auto-existente princípio do mal. Só existe um Senhor e Eu; os muitos são apenas Suas representações e derivações.

Se, então, o mundo é um sonho, uma ilusão ou um erro, é um sonho originado e desejado pelo Eu em sua totalidade, e não apenas originado e desejado, mas sustentado e perpetuamente acolhido. Além disso, é um sonho existindo na Realidade, e o material de que é feito é essa Realidade; pois Brahman deve ser o material do mundo bem como sua base continente. Se o ouro de que o vaso é feito é real, como podemos pensar que o vaso é uma miragem? Vemos que essas palavras, vaso, sonho, ilusão, são truques de linguagem, hábitos de nossa consciência relativa; eles representam certa verdade, até mesmo uma grande verdade, mas eles também a deturpam. Exatamente como o Não-Ser se transforma na mera nulidade, assim o Sonho cósmico se transforma em outra coisa que não um mero fantasma ou alucinação da mente. O Fenômeno não é um fantasma; o Fenômeno é a forma substancial de uma Verdade.

Começamos, então, com a concepção de uma Realidade onipresente da qual nem o Não-Ser de um lado, nem o universo do outro, são negações que anulam; eles são ao invés disso, diferentes estados da Realidade, afirmações de verso e reverso. A mais elevada experiência desta Realidade no universo mostra que ela não é apenas uma Existência consciente, mas também uma Inteligência e Forças supremas, e uma Bem-Aventurança auto-existente. Por isso, estamos certos em supor que, mesmo as dualidades do universo, quando interpretadas, não como agora, por nossos conceitos sensórias e parciais, mas por nossa inteligência e experiência liberadas, serão também resolvidas nesses termos elevados. Enquanto ainda trabalharmos sob a tensão da dualidade, essa percepção deverá, sem dúvida, basear-se num ato de fé, mas uma fé que a mais elevada Razão e a mais ampla e mais paciente reflexão não negam, antes afirmam. Na realidade essa crença é dada à humanidade para apoiá-la em sua jornada, até que ela chegue à um estágio de desenvolvimento em que a fé se transformará em conhecimento e a perfeita experiência e a Sabedoria verão suas obras justificadas.

[1] II, 6.

[2] No começo tudo era o Não-Ser. Foi então que o Ser nasceu. Taittiriya Upanishad, II, 7.

[3] Outro Upanishad rejeita o nascimento do Ser a partir do Não-Ser como uma impossibilidade; o Ser, diz ele, só pode nascer do Ser. Mas se tomamos o Não-Ser no sentido, não de um inexistente Nihil mas de um x que supera a nossa idéia de experiência da existência, - sentido este aplicável ao Brahman absoluto do Adwaita bem como ao vazio ou zero dos Budistas—a impossibilidade desaparece, pois Aquilo pode muito bem ser a fonte do ser, seja por uma conceitual ou formativa Maya, seja como uma manifestação ou criação a partir de si mesmo.