O nascimento e a morte são hoje talvez os maiores mistérios em nossas vidas. A solução de Sri
Aurobindo para esses mistérios baseia-se em sua experiência de que "o universo é um processo
auto-criativo de uma Realidade suprema cuja presença faz do espírito a substância das coisas" (1).
Dessa premissa ele extrai conclusões sobre nascimento, vida e morte, o antes e o depois.
Primeiramente recapitulemos brevemente suas descobertas. A realidade "atrás" da aparência do
universo é Sachchidananda - uma infinita Existência, uma infinita Vontade e Força-Consciente, um
infinito Deleite. Sua Supramente tem arranjado a ordem cósmica indiretamente por intermédio dos
três termos limitantes, mente vida e matéria. O universo material é o mais baixo ou o mais concreto
estágio da manifestação, isto é, uma involução dessa realidade triuna para dentro do inconsciente. A
evolução daquele ser manifestado para uma recuperação da consciência-do-si é inevitável, isto é, é
sua natureza encontrar seu si que foi perdido no inconsciente. É através do indivíduo consciente que
este recuperar o si é possível:
"A imensa importância do ser individual, que cresce na medida em que ele ascende na escala, é o
mais marcante e significativo ato de um universo que começou sem consciência e sem
individualidade em uma indiferenciada Nesciência." (2)
O crescimento do indivíduo é necessário para a descoberta de si próprio, do Si universal e do
transcendente. Se esta solução de Sri Aurobindo é aceita, então o renascimento não é mais apenas
uma possibilidade, ele se torna uma necessidade, "uma conseqüência inevitável da natureza raiz de
nossa existência" (3).
O nascimento individual, então, é uma necessidade da manifestação da Alma Divina no plano físico
e não é meramente uma experiência isolada sem ter sido preparada no passado para seu futuro.
"Em um mundo de involução e evolução, não de formas físicas apenas, mas de seres conscientes
através de vida e mente até o espírito, tal suposição isolada de vida no corpo humano não poderia
ser a regra da existência da alma individual; este seria um arranjo inconseqüente e sem sentido, um
capricho para o qual a natureza e sistema de coisas aqui não tem lugar, uma violência contrária que
poderia quebrar o ritmo da auto-manifestação do Espírito." (4)
A intrusão repentina de uma alma individual para dentro de uma progressão evolucionária poderia
fazer disso uma causa sem um efeito ou um efeito sem uma causa; poderia apenas ser parte do
presente sem um passado ou futuro. A vida individual deve ter o mesmo ritmo da vida cósmica,
porque a vida humana é um termo em uma série através da qual Brahman no universo gradualmente
desenvolve e elabora seu propósito por intermédio do indivíduo. A ascensão da consciência-dealma
no corpo, que é renascida na ordem ascendente das coisas, é o sistema dessa evolução. Um
errante indivíduo experienciando-a uma vez e ascendendo a algum outro lugar é, no sistema de Sri
Aurobindo, ilógico desde que a evolução progressiva do Espírito no cosmos tem sua contraparte na
progressiva evolução da alma através de nascimentos individuais.
Neste mundo, os seres humanos têm dois elementos, o livre ser espiritual e a persistente alma em
desenvolvimento:
"Como a pessoa espiritual impessoal ele é uno em sua natureza e ser com a liberdade de
Sachchidananda, que aqui consentiu ou desejou sua evolução na Nesciência para uma certa fase de
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experiência-de-alma... Como a alma de personalidade, Ele próprio é parte daquele longo
desenvolvimento da experiência-de-alma nas formas da Natureza." (5)
O Espírito é uno com o Transcendente e a alma é una com Sachchidananda expressa no mundo. O
Espírito por intermédio da Supramente reveste-se das formas de mente, vida e corpo unicamente
pela manifestação de sua alma na evolução. Desde que o Espírito tem um passado pré-humano e um
futuro super-humano, é lógico supor que nem ele nem a alma irão tomar exatamente as mesmas
formas repetidamente.
A razão para mais de um nascimento humano é que a alma tem ainda que terminar aquilo que ela
veio fazer pelo desenvolvimento da humanidade; ela tem ainda que evoluir a humanidade em algo
mais alto que esta presentemente é:
"Obviamente, a alma que habita em um antigo habitante das Antilhas (Caribe) ou em um primitivo
não instruído ou em um Apache de Paris ou em um gangster americano, ainda não esgotou a
necessidade de nascimento humano, não desenvolveu todas suas possibilidades ou o completo
significado de humanidade, ainda não desenvolveu o senso de Sachchidananda no Homem
universal; nem a alma que reside em um Europeu vitalístico ocupado com produção dinâmica e
prazer vital; ou em um camponês asiático envolvido no círculo ignorante da vida doméstica e
econômica. Nós podemos razoavelmente duvidar se mesmo um Platão ou um Shankara atingiram o
coroamento e, portanto, o final do florescer do espírito no homem." (6)
Evolução-de-Alma, então, é um contínuo crescimento em direção a mais altos níveis de
consciência, transformando, mas não abandonando, os planos inferiores na medida que se torna
mais consciente. De fato, o progresso da alma inclui dualidades; sofrimento e felicidade, infortúnio
e prosperidade, são experiências de nosso treinamento-de-alma interior. As dualidades são esteios,
meios, disciplinas, testes e provações freqüentemente mal compreendidas. Prosperidade pode ser
um caminho mais difícil para uma alma individual que a pobreza, e ainda um teste necessário para
disciplina e crescimento. De outro lado, adversidade pode ser considerada como uma recompensa
para a virtude, não uma punição; pode ser o fator purificador da alma lutando para conhecer a si
própria. Julgar estas experiências estritamente do ponto de vista mental dá a elas um valor
superficial.
Na explanação do renascimento não é suficiente dizer que a alma é reencarnada em um novo corpo;
tal afirmação carece de clarificação sobre o que exatamente "deixa" um corpo e "entra" em outro. A
pessoa ordinária acredita ser a alma e a personalidade uma única e mesma coisa, mas a Alma Divina
não é a personalidade. Um dos engodos da teoria da reencarnação é identificar a nós próprios nesta
vida como uma reencarnação de nossa mesma personalidade em vidas passadas, apenas com outro
nome e em outro ambiente. Isto, diz Sri Aurobindo, é meramente identificação do ego (composto
mental, vital e físico) e, quando nos identificamos com o ego, a personalidade parece ser a
verdadeira alma. Mas a personalidade está em constante estado de mudança, portanto não pode
logicamente ser a unidade imutável da Alma Divina.
A Alma Divina é o mestre dessa sempre-mutante personalidade e sanciona a mutação sem ser
afetada por esta. A personalidade é o instrumento da Alma Divina e freqüentemente chamada por
Sri Aurobindo de alma-de-desejo na maya inferior. Como um instrumento, a personalidade é capaz
de ter a concepção de contínua identidade no tempo, mas não pode, como ela é, formar uma
identidade com a atemporal Alma Divina.
A todo-conhecedora Alma Divina percebe o que muda, ambientes e experiências da alma-de-desejo
em desenvolvimento que necessita gradualmente realizar sua própria realidade. Impressões
essenciais de vidas passadas não são descartadas, elas ajudam a formar a personalidade da vida
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presente e futura. Nós não podemos dizer, então, que há uma única personalidade psicológica
entrando em um novo corpo de carne; é mais o nascimento de uma nova personalidade psicológica
concomitante ao nascimento de um novo corpo quando a Alma Divina molda este complexo
material em um novo ser humano. O corpo é um instrumento necessário para a alma em evolução
nessa terra, a personalidade é uma constante formação de ação e experiência; a Alma Divina,
algumas vezes referida como o Si transcendente, é aquilo que deseja tudo isso, e não pode ser
chamada de corpo ou de personalidade.
Uma intransformável e imutável Alma Divina pode ser a resposta para a identidade individual, mas
o problema filosófico que permanece é o problema da humanidade - por que ela está aqui, o que é
ela, o que está em torno dela e o que tem ela a ver com ela própria? A idéia de renascimento
evolucionário nos dá uma pista suficiente para uma resposta a todos esses aspectos relacionados à
mesma perpétua questão. Ainda, a mera idéia de nascimentos repetidos como o processo da alma
não nos leva muito além em relação a outra idéias científicas ou filosóficas a menos que haja um
significado progressivo na pré-existência da alma e sua perseverante continuidade.
Em frente a todo mundo está a morte - a jornada na terra chega a um fim. O peso da morte não é
tanto a perda do corpo, mas o final psicológico que sugere à parte de nós mesmos que pensa, quer e
sente. A morte espreita como o amargo final de nossa vontade e pensamento e aspiração e lutas. Ela
rompe a conexão com nossos entes queridos e com a existência na vida. Assim, em revolta contra a
morte, nós tentamos não pensar sobre isso. Nós aspiramos imortalidade com nossa mente, vida e
psique, e ainda o corpo nega isso consentindo inertemente à morte. Isto é uma parte da dualidade,
uma aparente contradição na humanidade.
O renascimento soluciona a dificuldade da contradição no sentido de continuação da alma que toma
novos corpos para revestir a si própria. Isso reforça a experiência de Sri Aurobindo de que a
evolução é espiritual, não apenas material. O renascimento espiritual torna a vida uma significante
ascensão e não uma recorrência mecânica; ela permite à alma crescer, expandir, procurar o mais
alto com a promessa de maiores descobertas agora ou futuramente, pois isso significa
teleologicamente que há uma intenção divina no universo e na existência humana.
Sob essa luz, a existência terrestre tem um propósito positivo; ela representa um preenchimento
daquilo que nós somos pela afirmação de um progressivo auto-encontrar-se. O mundo não é um
lugar de pecados e escuridão abomináveis de onde se deve escapar, ele é um lugar nobre onde
acrescentamos mais significado a nossa existência individual. "Conhecer isso e possuí-lo, encontrar
e preencher conscientemente os significados ocultos do ser universal é a tarefa dada ao espírito
humano" (7).
Renascimento é uma escada de ascensão e oportunidades espirituais da alma. Realidade espiritual é
a energia consciente dos processos universais, e como um resultado, a alma em crescimento ascende
da matéria inerte através da vida da planta e animais para o grau humano de poder de vida, onde ela
luta com a ignorância e limites para possuir sua verdadeira natureza, a Alma Divina. A vida então
torna-se uma série ascendente progressiva para o desenvolvimento do "Si" espiritual, sua vontade e
sabedoria.
O corpo físico é uma forma que corresponde em sua evolução aos graus ascendentes da alma.
Através de renascimento constante a humanidade tem desenvolvido aquilo que ela é, e está ainda
desenvolvendo o que ela será. O que está ao redor de todo mundo é o constante processo do
desenvolver em seu aspecto universal: o passado está contido em tudo e o presente é algo de uma
gestação ativa prenhe daquilo que está para vir no futuro. O amanhã irá conter maiores
potencialidades, etapas ainda a ser conquistadas, mais altas e mais poderosas manifestações. O que
as pessoas devem fazer, diz Sri Aurobindo, é crescer e abrir a si próprias a uma maior presença de
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consciência, poder e deleite divinos. O ambiente está aqui para ser utilizado para o progresso;
quanto mais a humanidade progride, mais o ambiente progride, pois todo nascimento é este
progressivo auto-encontrar-se.
Mas, se é verdade que a alma está buscando realização de si própria, por que os contínuos tropeços,
por que cometemos tantos enganos, e por que nações guerreiam contra outras? Porque, diz Sri
Aurobindo, a alma também está em ignorância e a maioria de nós é ainda criança no universo em
crescimento e nós precisamos continuar a tropeçar até crescermos para além da ignorância no
conhecimento. Antes que possamos atingir a próxima etapa, a etapa presente deve ser corrigida e a
lição dela deve ser aprendida. Esta é a lei (karma).
Fundamentalmente, karma significa que toda existência é o trabalho de uma energia universal, um
processo e ação - que tudo é uma cadeia contínua em que cada elo está ligado à infinidade de elos
passados, e o todo governado por relações fixadas, por uma fixada associação de causa e efeito, a
ação presente o resultado de ação passada, como a ação futura será o resultado de ação presente.
O significado moral de karma é que qualquer modo de energia que nós colocamos como causa
determina o modo de energia que retorna para nós como efeito. Karma é a lei universal de causa e
efeito, de balanço e equilíbrio. O que quer que seja que alguém semeie, isto ele irá colher.
Enganos surgiram na tentativa de explicar o karma. Primeiramente, é impossível explicar coisas
suprafísicas por fórmulas físicas, e segundo, a noção de acaso não pode estar misturada na lei
universal. Embora a lei possa ser única, isto não implica em que haja unicamente um tipo de
fenômeno com uma vontade predeterminada para deduzir dela todas as espécies de fenômenos que
são diferentes em sua natureza. Sri Aurobindo argumenta que existem diferentes planos de
existência cósmica, portanto diferentes planos de existência individual. Em cada plano os mesmos
poderes, energias ou leis devem agir em um diferente modo em vista de sua eficácia. Por exemplo, a
energia mental que uma pessoa emite determina o efeito mental, mas este está sujeito às
circunstâncias das energias mentais passadas, presentes e futuras, porque ninguém é um poder
isolado no mundo. A conseqüência moral está da mesma maneira sujeita às circunstâncias
contextuais passadas, presentes e futuras. O mesmo é verdadeiro para a energia física. Existem,
então, diferentes tipos e movimentos variadamente formulados da lei universal una, e não será
válido dizer que nossa qualidade mental é o resultado de uma causa física. Um fígado doente
dificilmente é a causa de um motivo ser ou não moral. Isto não quer dizer que um não afeta o outro,
mas que cada plano tem sua própria lei.
Se nós aceitarmos a idéia universal fundamental de karma, o acaso não pode existir, ele torna-se
meramente uma palavra que usamos para ocultar e desculpar nossa ignorância. A ciência exclui o
acaso da explicação de leis físicas sob as quais tudo é determinado por causa e efeito. Mas quando
questionada sobre porque essas relações existem e não outras ou porque um particular efeito é o
resultado de uma causa particular, o acaso é freqüentemente pressuposto. Mas a idéia de que o
acaso poderia criar uma lei universal física é superficial.
A teoria do acaso ou probabilidade não pode contribuir para nossa compreensão do ser mental e
moral, nem a lei física pode. A previsão de terremotos, tempo ou eclipses não pode explicar a
mentalidade ou moralidade, embora este tipo de método de estímulo e resposta possa ser utilizado
para predizer comportamentos psico-físicos. Esta espécie de observação, contudo, apenas pode
significar como as pessoas "comportam-se" em ação exterior, não podem predizer ação interior. A
questão dos trabalhos interiores existe sob um diferente conjunto de leis.
Acaso, caos, probabilidade não denotam nenhum significado na teoria do karma. Existem leis da
matéria, leis da vida, leis da mente, cada uma tendo uma energia ordenada em operação que
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assegura o processo do equilíbrio. Nesse sentido, karma e renascimento podem ser chamadas de
doutrinas gêmeas, isto é, uma é necessária à completude da outra. Renascimento não tem sentido
sem karma e karma não tem nenhuma justificação racional se não for uma instrumentalidade para a
seqüência da contínua experiência da alma.
Se aceitarmos que a alma é repetidamente renascida no corpo, segue-se que existe alguma ligação
entre as vidas que precederam e as vidas que se seguirão e que o passado da alma tem algum efeito
sobre seu futuro. Karma é ação e a força diretriz de sua ação é a vontade e a idéia; este é um
complexo momentum e uma única vida é incapaz de efetuar ou exaurir todas suas potencialidades.
Através da lei do karma o indivíduo, a família, a nação e a humanidade como um todo são afetados.
Efetuar o resultado da ação de nossa vida afeta outras vidas e as ações de outros afeta o indivíduo.
Aquilo que semeamos agora é colhido pela posteridade por diversas gerações na família. Aquilo
que pessoas como uma comunidade decidem e executam retorna "como uma benção ou uma
espada" sobre o futuro de sua raça e quando eles próprios tiverem passado, isso se torna o karma de
uma nação. E o que a humanidade como um todo tem feito no passado irá formar seu destino futuro.
Este relacionamento do indivíduo para com o todo significa que o universo encontra a si próprio no
indivíduo assim como o indivíduo está no universo; ambos são faces da realidade eterna una. O ser
individual é tão necessário quanto o ser universal. Uma das maravilhas da existência é a unicidade
do ser individual. Esta unicidade, diz Sri Aurobindo, está em toda parte surgindo nas regiões mais
baixas da existência e tornando-se mais e mais pronunciada na medida em que nos elevamos na
escala e expandimos nossas mentes em direção à Supramente.
Basicamente as leis do ser são as mesmas para todos, porque a existência é uma existência, uma
unidade, uma energia de processo múltiplo em operação. Nessa unidade, contudo, existe variedade
persistente que evolui como "energia-grupal, vida-grupal, mente-grupal e karma-grupal". Nós
entramos no nascimento, então, não como um ser separado, mas na vida do todo. Portanto nós
herdamos a vida do todo. Cada um de nós nasce fisicamente por uma geração que está conduzindo
sua contínua história. O corpo, vida, mentalidade do passado pertencem a cada um e esta é a lei da
hereditariedade. Mas tão logo a criança comece a se desenvolver, um novo e independente fator
surge, o qual não é seus pais nem seus ancestrais, nem a humanidade passada, mas seu próprio si. E
este é o fator central mais importante. O que mais importa na vida não é nossa hereditariedade; esta
apenas dá oportunidades ou obstáculos, conforme o caso. O que importa é o que fazemos dessa
hereditariedade e não o que ela faz de nós. A história passada está ainda aí dentro, mas é o
indivíduo que se torna o artista de sua vida. O ambiente também penetra em nós, oferece seus
materiais e molda-nos por suas influências. Embora o ambiente invada, re-crie, transforme cada um
de nós, aqui novamente, é o indivíduo, não o ambiente, que tem o poder decisivo. O importante para
Sri Aurobindo é mais aquilo que cada pessoa faz do presente ambiente que o que o ambiente faz da
pessoa. E na interação do karma individual e geral o uno vive para o múltiplo ("quer consideremos
assim ou não") e o múltiplo vive para o uno.
A alma, como Sri Aurobindo tem colocado, é o contínuo ser persistente que procura sua evolução
dentro do ser persistente do mundo. Ela evolui seu nascimento humano e auxilia constantemente na
evolução. A alma tem criado por seu karma passado suas próprias condições, relações com a vida
de outros e o karma geral. Isto forma sua hereditariedade, ambiente, afinidades, conexões,
oportunidades e obstáculos - tudo predeterminado por seu próprio estágio de desenvolvimento e
ação passada. Nessas bases a alma constrói novo karma e muito fortalece seu poder e experiência. O
processo todo, como uma tapeçaria, é tecido com a evolução universal.
Se seguirmos a visão de Sri Aurobindo sobre karma e renascimento veremos a humanidade como
muito mais que uma criação de uma força onde todos os atos são determinados e sobre a qual os
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indivíduos não têm nenhum controle. Nós não somos bonecos predestinados ou escravos porque
temos dentro de nós a Supramente que cria todas as relações. De fato, tudo é a expressão da
Supramente, o princípio diretivo de Vontade e Conhecimento, e cada um de nós pode, pelo uso da
Vontade, desenvolver a forma daquilo que somos e chegar a um conhecimento de uma Idéia ainda
maior que aquela que está sendo expressa no presente momento.
A liberdade é necessariamente limitada ao nosso grau de conscientização. Nós não somos livres de
nossas ações passadas até que essas ações tenham sido esgotadas e compreendidas. Ignorância é a
única prisão e mesmo a ignorância tem um impulso interior em direção ao conhecimento e
liberdade. A matéria, contudo, parece não saber nada sobre liberdade; tudo existe como se escrito
em leis sibilantes sobre tábuas de pedra, governado por necessidade mecânica. Mas a vida parece
mostrar uma ansiosa, mais flexível, e mesmo uma pressionadora necessidade subconsciente para
expressão. Esta ação é seguramente mais instintiva que livre, mas aí parece existir um movimento
em direção à liberdade. Conforme a mente evolui, aí aparece uma necessidade de escolha. É uma lei
da mente fazer escolhas. A mente está consciente das potencialidades e idéias que são outras além
das leis do físico e da vida. Ela está consciente dos inumeráveis "pode-ser" ou "deveria-ter-sido".
Ela pode conceber infinitas possibilidades e alcançar a idéia de uma livre vontade que determina
seu próprio vir-a-ser no espaço e tempo. Isto significa, diz Sri Aurobindo, que existe a liberdade de
um Espírito e Poder supramental que não é determinada pelo karma, mas que determina o karma. O
que afeta a humanidade como necessidade é uma Vontade que trabalha em seqüência e não uma
força mecânica cega.
A mente racional não está livre da lei do karma, mas tem a habilidade de pensar (não saber) sobre
liberdade. Nem vida e matéria estão livres do karma. Não sujeita ao karma é a Alma Divina; karma
é seu instrumento como mente, vida e matéria são instrumentos da Supramente que desenvolve este
material de vida em vida para a formação de um indivíduo que poderá ser um dia uma cósmica e
divina personalidade.
O ser mental é um aprendiz na escola da liberdade, mas não perfeitamente livre ainda. A liberdade
real chega quando vamos além da mente para dentro da Supramente, da personalidade para a Alma
Divina (do si inferior para o Si espiritual superior). Quando nos tornarmos um com a Realidade
suprema e o universal na essência da consciência e verdade espiritual e na expressão daquela
essência em nossas vidas, "o próprio karma torna-se um ritmo de liberdade e o nascimento uma
corrente de imortalidade" (38).