Sachchidananda é uma eterna e imutável unidade sem distinções separativas. Mente, vida e matéria
são a consciência analítica ou divisora que a mente apenas pode conhecer por separação e divisão.
Sem um princípio mediador entre eles, nós deveríamos, para alcançar a unidade transcendente de
Sachchidananda, ter que abandonar o mundo de mente, vida e matéria. Ou, se limitássemos nossa
consciência apenas ao mundo fenomenal, perderíamos parte da verdade. Se a realidade da unidade
ou da multiplicidade é negada, a esperança de uma vida divina sobre a terra é impossível.
A única saída de tal solução é encontrar um elo intermediário que estabelece uma relação entre os
dois. Sri Aurobindo descobriu essa ponte entre os dois mundos no princípio da Supramente:
"Esse termo intermediário é... o princípio e o fim de toda ordem e criação, o Alfa e o Ômega, o
ponto de partida de toda diferenciação, o instrumento de toda unificação, originativa, executiva e
consumativa de todas as harmonias realizadas ou realizáveis. Ele tem o conhecimento do Uno, mas
é capaz de extrair do Uno suas multitudes escondidas; Ele manifesta o Múltiplo, mas não perde a si
próprio em suas diferenciações." (1)
Supramente é o princípio de "Vontade e Conhecimento ativos" superiores à mente. A Supramente
não pode ser a mente racional porque, de acordo com Sri Aurobindo, a consciência na mente
racional não é suficiente para explicar a existência no universo. A mente é a faculdade que analisa
idéias e objetos, portanto ignorando a unidade dentro da multiplicidade. Ela interpreta a verdade da
existência em termos de relatividade para uso prático, mas não é uma faculdade de conhecimento ou
vontade ativa que pode criar ou mesmo dirigir a existência. A Supramente é essa faculdade de
conhecimento, pois ela retém a verdadeira natureza de Sachchidananda sem distorcê-la. Contudo, a
mente é uma expressão saída da Supramente e idêntica a ela em essência, o que significa que a
potencialidade da Supramente repousa encerrada e não manifestada na mente.
Sri Aurobindo chama a Supramente de "Real-Idéia", isto é, "um poder de Força Consciente
expressiva do ser real, nascida do ser real e participante de sua natureza e nem um filho do vácuo
nem uma trama de ficções" (2). Ela refere-se sempre à unidade acima de si e à multiplicidade
abaixo de si, portanto atuando como uma ponte pela qual a maya inferior se desenvolve a partir da
maya superior e pela qual a maya inferior retorna novamente em direção à sua fonte.
Do ponto de vista da Supramente (Consciência-Verdade), toda existência é um Ser tendo
consciência como natureza essencial; é uma consciência cuja natureza ativa é vontade; é uma
consciência-força que é deleite, quer esteja ativamente criativa, quer esteja em repouso. Isto, diz Sri
Aurobindo, é Brahman - nós mesmos em nossa essência, nosso ser não fenomenal. O Ser
Consciente concentrado em si próprio torna-se o jogo do universo e é a causa única da existência
cósmica. Este é o nosso ser real, escondido de nós pela máscara do ego e é apenas transformando
nossa presente consciência em uma consciência mais alta que podemos alcançar uma vida divina e
experienciar unidade com a Consciência Divina "que algo super-consciente em nós sempre desfruta,
- de outra maneira não poderíamos existir -, mas que nossa mentalidade consciente tem perdido"
(3).
Sri Aurobindo argumenta que a Supramente é uma necessidade lógica; Sachchidananda em si
própria é "um absoluto sem espaço e sem tempo de existência consciente que é deleite" (4), mas o
mundo não é sem tempo e sem espaço, é uma extensão no Tempo e Espaço e um movimento, um
realizar-se, um desenvolvimento de relações por causalidade no Tempo e no Espaço. Ele chama
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essa causalidade "lei Divina, e a essência dessa lei é o efetuar-se da verdade a partir de
possibilidades infinitas para o deleite da auto-manifestação". Toda manifestação do universo
desenvolve-se dessa força-consciente de conhecimento e vontade que dirige a inter-relação de
formas e é a natureza essencial da existência.
O princípio da Supramente tem três movimentos: 1) é a unidade compreensiva de todas as coisas; 2)
suporta a manifestação do Uno no múltiplo e do múltiplo no Uno; 3) suporta a evolução da
individualidade.
Primeiramente, a Supramente é uma extensão de Sachchidananda que compreende a diferenciação
tanto como sujeito e objeto de si própria. Nessa fase nenhuma individualização ocorre:
"Tudo é desenvolvido em unidade e como um; tudo é mantido por essa Consciência Divina como
formas de sua existência, e em nenhum grau como existências separadas. Algo como os
pensamentos e imagens que ocorrem em nossas mentes que não são existências separadas de nós,
mas formas tomadas por nossa consciência, assim são todos os nomes e formas para essa
Supramente primária. Ela é a intenção e formação divina pura no Infinito, - apenas uma intenção e
formação que é organizada não como um jogo real de pensamento mental, mas como uma atividade
real de ser consciente." (5)
Em segundo lugar, Supramente é a consciência apreensiva universal, isto é, ela vê a si própria como
um objeto de cognição e como o centro no qual o Ser concentra a si próprio. Aqui o sujeito
simultaneamente vê o objeto como algo distinto de si próprio e realiza a unidade entre sujeito e
objeto. Neste ponto não existe diferença essencial, mas sim uma diferença prática, isto é, a
Supramente conhece todas as formas-alma como si própria e ainda estabelece uma relação
individual com cada uma:
"Se nossa mente purificada refletisse essa forma secundária da Supramente, nossa alma poderia
suportar e ocupar sua existência individual e ali mesmo realizar a si própria como o Uno que se
tornou o todo, contém tudo, deleitando-se mesmo em sua modificação particular, sua unidade com
Deus e com suas companheiras. Em nenhuma outra circunstância da existência supramental poderia
haver qualquer mudança característica; a única mudança seria este jogo do Uno que tem
manifestado sua multiplicidade, e do Múltiplo que é ainda o Uno, com tudo aquilo que é necessário
para manter e conduzir o jogo." (6)
Em terceiro lugar, a Supramente projeta a si própria no movimento individual e torna-se envolvida
nele. Ainda assim, a unidade fundamental predomina na variedade de dualismos. Sri Aurobindo
descreve essa ação como "o campo prático de sua experiência consciente" (7) (da Supramente),
sendo as variações individuais em evolução vistas pela Supramente "em seu separado ponto de vista
vivendo como o Divino individual, cada uma com o Supremo e Uno habitando nela" (8).
"Este equilíbrio terciário poderia ser, portanto, aquele de uma espécie de dualismo deleitante
fundamental em unidade - não mais unidade qualificada por um dualismo subordinado - entre o
Divino individual e sua fonte universal, com todas as conseqüências que poderiam resultar da
manutenção e operação de tal dualismo." (9)
Esses três movimentos da Supramente são análogos aos três aspectos de Brahman: transcendente,
universal, individual. A Supramente funciona como o mediador consciente, reconhecendo o Uno
em si própria e em todas as coisas e objetos como emanações de sua própria vontade e
conhecimento.
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A Supramente é a ligação entre o Uno absoluto e o múltiplo relativo, mas considerando a distância
entre a mente como nós a conhecemos e a consciência-Verdade supramental, uma questão surge:
existe uma transição da mente para a Supramente? Se a mente é meramente uma faculdade
buscando por verdade, visto que a Supramente está em posse da verdade, existirá um poder
intermediário pelo qual a transição involucionária da Supramente para a mente racional possa
ocorrer? Sri Aurobindo nos assegura que existem gradações entre estes dois níveis de consciência -
uma transição da Supramente para nossa mente racional. Involuindo (descendo) da Supramente
estão a Sobremente, mente Intuitiva, mente Iluminada, mente Superior e então mente ordinária.
A Supramente sempre vê a verdade integral como si própria. A mente vê o mundo de seu próprio
ponto de vista relativo de separatividade individual. A Sobremente, por outro lado, embora
consciente da verdade integral da Supramente,
"procede por intermédio de uma ilimitável capacidade de separação e combinação de poderes e
aspectos da todo-compreensora indivisível e integral Unidade. Ela toma cada aspecto do Poder e dá
a ele uma ação independente na qual esta adquire uma importância separada total e é capaz de
desenvolver, poderíamos dizer, seu próprio mundo de criação." (10)
A Sobremente vê o universo como integralmente uno e ainda composto de muitos aspectos e
potenciais para os quais ele confere ação independente. "Na Sobremente nós temos a origem da
diversificação" (11). A Realidade Divina, o Uno e o múltiplo, Alma Divina (Si), Personalidade
Divina e impersonalidade são todos aspectos e poderes da realidade una, mas cada um é também
pleno de poder para agir como uma entidade independente no todo, para chegar a completa extensão
de possibilidades de sua separada expressão e então desenvolver as conseqüências da
separatividade. Essa separatividade na Sobremente é baseada na unidade; na unidade são
encontradas infinitas possibilidades:
"Se nos referirmos aos Poderes da Realidade como muitas Divindades, nós podemos dizer que a
Sobremente lança milhões de Divindades em ação, cada uma com poderes para criar seu próprio
mundo, cada mundo capaz de relação, comunicação e interação com os outros." (12)
Enquanto a mentalidade humana vê o pessoal e o impessoal como opostos, a Sobremente os vê
como poderes separados da Realidade una que podem ser independentes e também unidos entre si
como aspectos coexistentes da existência una.
Nesse desenvolvimento de numerosos potenciais não há conflito. O conflito ocorre na divisão da
mente. Pois a Sobremente não é uma queda da verdade, é uma criadora de verdades, e não clama
por status separados para qualquer desenvolvimento.
"Cada idéia admite todas outras idéias e seu direito de ser; cada força concede um lugar para todas
outras forças e sua verdade e conseqüências; nenhum deleite de existência plena separada ou
experiência separada nega ou condena o deleite de outra existência ou outra experiência. A
Sobremente é um princípio de Verdade cósmica e uma vasta e interminável universalidade é seu
verdadeiro espírito; sua energia é um todo-dinamismo tanto quanto um princípio de dinamismo
separado." (13)
A ação da Sobremente, em sua descida, atinge uma linha que divide conhecimento (maya superior)
de ignorância (maya inferior). É a partir dessa linha que é possível para o princípio independente de
separação criado pela Sobremente dividir a mente em unidades separadas para autodesenvolvimento.
Quando tal concentração ocorre, nós temos o mental existindo no reino da
ignorância. Mas a mente não é outra senão a Supramente, ela é meramente limitada a um
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conhecimento parcial, não um conhecimento integral da verdade. Por causa do princípio da divisão,
a mente não mais se identifica com o todo:
"Este caráter de uma organização de verdades parciais em uma base de conhecimento separativo
persiste na Vida e na matéria sutil, pois a concentração exclusiva de Consciência-Força que as
coloca em ação separativa não segrega ou vela a Mente da Vida, ou a Mente e Vida da Matéria."
(14)
Apenas quando a Inconsciência tiver sido atingida poderá haver completa separação. Mente, vida e
matéria são estágios de Consciência-Força; cada um segue suas próprias possibilidades e efetua a
verdade de si próprio.
O próximo nível de involução (descida) é a Mente Intuitiva. Sri Aurobindo a vê como o original
daquela transmissão de verdade para a mente provindo dos estados mais altos, que nós conhecemos
como intuição em nossa experiência mental. Os sentidos e a mente sensorial-pensante não
conhecem nada sobre o absoluto. A única informação que os sentidos fornecem a nós é sobre forma
e movimento, sempre "misturados, combinados, agregados, relativos" (15), nunca da pura
existência. Mas existe uma consciência mais alta que a mente sensorial-pensante e esta é a intuição:
"A Intuição traz ao homem aquelas brilhantes mensagens do Desconhecido que são o início de seu
mais alto conhecimento... A Intuição nos dá aquela idéia de algo atrás e além daquilo que nós
conhecemos e que parece ser." (16)
A Intuição é mais forte que a razão ou experiência sensorial porque, como nossas faculdades mais
altas, ela alcança o conhecimento direto:
"Na mente humana, sua ação é amplamente escondida pelas intervenções de nossa inteligência
normal; uma intuição pura é uma ocorrência rara em nossa atividade mental, pois o que nós
chamamos por esse nome é usualmente um ponto de conhecimento direto que é imediatamente
tomado e recoberto com matéria mental." (17)
A intuição é obstruída por sugestão mental que tanto pode ser verdadeira como falsa, mas em
ambos os casos não é o movimento direto original que pode nos dar a experiência integral da
verdade. "Uma intuição aprovada em revisão judicial pela razão deixa de ser uma intuição e pode
apenas ter a autoridade da razão para a qual não há nenhuma fonte de certeza direta" (18). E isso
reduz amplamente para nós a utilidade da intuição:
"A Intuição tem um poder quádruplo. Um poder de visão-da-verdade revelatório, um poder de
inspiração ou audição-da-verdade, um poder de toque-da-verdade ou avaliação imediata de
significância, que é análogo à natureza ordinária de sua intervenção em nossa inteligência mental,
um poder de discriminação verdadeira e automática da ordenação e exata relação de verdade para
verdade." (19)
Por seu próprio processo, a intuição pode efetuar ação de razão, mesmo a função de inteligência
lógica que elabora corretas relações entre coisas e idéias. Ela pode transformar a mente, coração,
vida e o sentido da consciência física em uma maior integralidade. "Ela pode então alterar toda a
consciência na substância da intuição" (29), mas usualmente isto é impedido devido à inconsciência
fundamental em nossa natureza que é muito espessa para ser completamente penetrada. Tão logo
ela esteja sob a influência de nossa mente e outras obscuridades ignorantes, a intuição jamais pode
ser a mesma da consciência supramental.
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A percepção intuitiva é mais que visão e concepção; ela traz dentro de si, visão e concepção. Uma
consciência que procede por visão é o estágio entre Intuição e Mente Superior. Ela é denominada
por Sri Aurobindo a Mente-Iluminada - a mente da luz espiritual. Neste nível, uma "Verdade e
poder espirituais entram na consciência acompanhados por uma compreensão espiritual-conceitual.
Uma cascata de luz visível interior usualmente acompanha essa ação. O significado de "luz", como
empregado aqui, é primariamente uma "manifestação espiritual da Realidade Divina, iluminativa e
criativa" (21) seguida por um entusiasmo de poder interior que substitui os processos mais
deliberados dos níveis mentais ordinários.
A mente iluminada opera tanto por visão quanto por pensamento; pensamento é apenas um
movimento subordinado. O pensamento ordinário é considerado o processo de conhecimento
principal, dando-nos clarificação e detalhes precisos, mas na Mente Iluminada ele não é um
processo indispensável:
"... embora em si própria, em sua origem nos níveis de consciência mais elevados, é uma percepção,
um avaliar cognitivo do objeto ou de alguma verdade das coisas que é uma poderosa, mas ainda um
resultado menor e secundário, da visão espiritual, uma relação comparativamente externa e
superficial do si sobre o si, do sujeito sobre si próprio como objeto: pois todos eles são uma
diversidade e multiplicidade do Si. Na mente existe uma resposta superficial de percepção ao
contato de um objeto, fato ou verdade observada ou descoberta e a conseqüente formulação
conceitual desta; mas na luz espiritual existe uma resposta perceptiva mais profunda vinda da
verdadeira substância do ser, - nada mais, nenhuma representação verbal é necessária para a
precisão e compleitude desse conhecimento-de-pensamento." (22). O pensamento cria uma imagem
representativa da verdade e a mente a torna um objeto de conhecimento, mas a verdade, em
realidade, é retida na "visão espiritual" e a imagem criada pelo pensamento torna-se secundária. A
Mente Iluminada traz uma maior consciência por intermédio dessa visão espiritual.
Sri Aurobindo descobriu que quando esses graus de "energia-substância" descem (involuem) em
nós, nosso conhecimento, pensamento, consciência, atividades e tudo em nós é afetado. A pureza da
graduação depende das vibrações e prontidão de nosso ser, isto é, quanto mais densos e fechados
nós estamos para os níveis mais altos, tanto menos de substância mais pura pode entrar em nós e
tanto mais reduzida ela deve tornar-se. Na medida em que ascendemos, contudo, encontramos uma
mais poderosa luminosidade, um mais concreto deleite espiritual. É então que os estados mais
elevados são capazes de descer para dentro de nosso ser. "Isso pode ocorrer porque tudo é
fundamentalmente a mesma substância, a mesma consciência, a mesma força, mas em diferentes
formas e poderes e graus de si própria " (23).
A Mente Superior é o nível mais próximo à mente mental e outro elo no processo de descida. De
acordo com Sri Aurobindo, a Mente Superior é uma "clareza do espírito". Ela possui um sentido de
unidade do ser e ainda uma "múltipla dinamização" que formula aspectos e modos de ação em todos
que tem um conhecimento intrínseco. A Mente Superior é um poder que provém da Sobremente,
com a Supramente como sua "origem última". O caráter especial da Mente Superior é pensamento:
"Ela é uma luminosa mente-pensamento, uma mente de conhecimento conceitual nascido-doespírito"
(24).
Um aspecto desse conhecimento superior é que relações de idéia com idéia e verdade com verdade
não são derivados por dedução lógica, porque ele é um conhecimento a priori (integral) e não um
conhecimento adquirido. As relações entre idéias e verdades já existem e "emergem auto-vistas no
todo integral" (25).
Existe, na Mente Superior, o atributo de vontade e o atributo de cognição:
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"Aqui nós encontramos que esta mais brilhante mente maior atua sempre no restante do ser, a
vontade mental, o coração e seus sentimentos, a vida, o corpo, através do poder do pensamento,
através da força-idéia. Ela procura purificar através de conhecimento...
A idéia é colocada no coração ou na vida como uma força a ser aceita e desenvolvida; o coração e a
vida tornam-se conscientes da idéia e respondem a seus dinamismos e sua substância começa a
modificar a si própria naquele sentido de modo que os sentimentos e ações tornam-se as vibrações
dessa sabedoria mais alta... os impulsos da vontade e da vida são similarmente carregados com seu
poder e sua ânsia de auto-efetuação; mesmo no corpo a idéia atua dessa maneira, por exemplo, o
potente pensamento e vontade de saúde substitui sua fé na doença." (26)
A força da idéia gerada em nossa substância de mente, vida ou corpo pode ser o poder para acordarnos,
porque ela dá ao ser inteiro uma maior e mais alta consciência. Isso ainda é uma batalha,
porque a maya inferior sempre resiste a qualquer conhecimento mais alto. Mas as forças da
ignorância têm que ser superadas e a evolução em lutas deve ser substituída pela evolução em
harmonia e deleite.
"O poder da Mente Superior espiritual e sua idéia-força, modificada e diminuída como deve ser, por
sua entrada em nossa mentalidade, não é suficiente para varrer todos esses obstáculos e criar o ser
gnóstico, mas pode efetuar uma primeira alteração, uma modificação que capacitará uma ascensão
maior e uma descida mais poderosa e, além disso, preparar uma integração do ser em uma maior
Força de consciência e conhecimento." (27)
Embora a mente mental ordinária seja uma expressão da Supramente, é sua função dividir, limitar e
separar as formas de coisas da totalidade indivisível da existência. A mente Ordinária tem o impulso
constante para ir além de suas partes e tentar compreender o todo, mas ela sempre falha por causa
de suas limitações inerentes:
"A mente percebe apenas o particular e não o universal, ou concebe apenas o particular em um
universal não possuído, mas nunca ambos, o particular e o universal como um fenômeno do infinito.
Então nós temos a mente limitada que vê todo fenômeno como uma coisa-em-si-própria, uma parte
separada de um todo que novamente existe separadamente em um todo maior e assim por diante,
aumentando sempre seus agregados sem voltar ao sentido de uma verdadeira infinitude." (28)
A mente ordinária reparte o ser em totalidades, mesmo nas menores totalidades, em átomos, em
átomos primais ad-infinitum, até que possa, se possível, analisar partículas da existência, mas ela
não pode, porque todas as formas fenomenais não são divisões mas expressões da unidade infinita e
do ser eterno. "Divisão é uma aparência subordinada do processo global necessária ao seu jogo
espacial e temporal" (29).
"Por dividir à sua vontade, descer ao mais infinitesimal átomo ou forma, ao mais monstruoso
possível agregado de mundos e sistemas, você não pode, por quaisquer processos, chegar à coisa em
si; tudo são formas de uma Força que unicamente é real em si própria enquanto o restante é real
somente como auto-imagens ou auto-formas manifestadas da eterna Força-Consciência." (30)
Além disso, Sri Aurobindo propôs sete princípios como o fundamento de toda existência cósmica.
Para recapitular, a realidade última de tudo que está no universo é o triplo princípio do
Transcendente - Existência-Consciência-Deleite - a natureza do Ser Divino. A Consciência tem dois
aspectos: estático e dinâmico. A ação criativa do "todo-existente" tem seu "nodus" no quarto
princípio, a Supramente ou Real-Idéia que media entre a unidade de Sachchidananda e a
multiplicidade da mente, vida e matéria. Supramente, o princípio da vontade e conhecimento
diretivos, abrange todas as coisas em si própria como si própria. Mente, vida e matéria são um
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aspecto tríplice dos princípios superiores, mas subordinados à Divina Existência-Consciência-
Deleite e Supramente:
"Mente é um poder subordinado da Supramente que se baseia no ponto de vista da divisão,
atualmente esquecida da unidade subjacente, embora capaz de retornar a esta por re-iluminação pelo
supramental; Vida é similarmente um poder subordinado do aspecto de energia de Sachchidananda,
é uma força elaborando forma e o jogo de energia consciente a partir do ponto de vista da divisão
criada pela Mente; Matéria é a forma de substância de ser que a existência de Sachchidananda toma
quando se sujeita a essa ação fenomenal de sua própria consciência e força." (31)
O quarto princípio que vem à manifestação como o "nodus" de mente, vida e corpo é a alma. A
alma é duplamente desenvolvida; é feita da "alma de desejo que anseia pelo deleite e a posse de
coisas; e a verdadeira entidade psíquica que é o repositório real das experiências do espírito" (32).
Os princípios, então, são realmente oito, em vez de sete. São eles (33):
"Existência (Sat): torna-se Matéria
Consciência-Força (Chit): torna-se Vida
Deleite(Ananda): torna-se Psique (Alma)
Supramente : torna-se Mente
A alma-de-desejo é uma distorção exterior do princípio psíquico que não é a vida ou a mente, muito
menos o corpo, mas que mantém em si própria a abertura e florescimento da essência de todos eles
para o próprio e peculiar deleite do si, iluminar, amar, deleite e beleza e para uma refinada pureza
de ser." (34)
A alma tem sua origem em uma Alma Divina (Si) acima. A Alma Divina vive no deleite original da
Existência (Ananda) auto-contida na consciência de Sachchidananda e na unidade de maya
superior. Por distinção da Supramente Compreensiva, a Alma divina desfruta ao mesmo tempo
unidade e diferenciação com Deus e unicidade com outras Almas Divinas. Ela é consciência pura e
ilimitada em sua energia e capaz de relação livremente com formas de conhecimento.
A Alma Divina é consciente de três graus de existência supramental como auto-manifestações de
Sachchidananda: 1) conceber, perceber e sentir como seu próprio Si-de-ser e Si-de-vir-a-ser todas
existências; 2) conceber, perceber e sentir todas existências no Si como formas-alma do Uno;
3) conceber, perceber e sentir todas essas existências em sua individualidade divina.
A distorção exterior do ser psíquico (alma-de-desejo) "trabalha em nossos apetites vitais, nossas
emoções, faculdades estéticas e busca mental por poder, conhecimento e felicidade" (35). A mesma
divisão que separa mente ordinária de Supramente existe para a alma. Sri Aurobindo coloca que o
mal do mundo é que o indivíduo é incapaz de encontrar a verdadeira alma dentro e uni-la com a
Alma-Divina. Nós buscamos pela essência do ser, poder, existência-consciente, e deleite, mas, em
lugar disso recebemos as dualidades de prazer e dor, afetos e desafetos, emoções e indiferença,
coragem e medo, alcances e recuos. É, diz ele, a Alma Divina que compele nosso ser psíquico a
continuar buscando a unidade mais alta a despeito de seus retrocessos através da alma-de-desejo, "e
isto ela faz porque é impelida pelo universal a desenvolver a si própria por todas as espécies de
experiências de modo a crescer em Natureza" (36). Se nós vivêssemos apenas pela alma-de-desejo,
não poderíamos transformar a nós mesmos mais que a pedra pode transformar a si própria; de fato
poderíamos circular sobre os mesmos rastros para sempre. Nós podemos, contudo, relacionar a
alma-de-desejo a suas verdades interiores e a suas fontes divinas e esse é um movimento
indispensável se nós quisermos progredir tanto individualmente quanto como humanidade.
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