Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




AMPLIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA E EVOLUÇÃO DO SER

"Toda vida é Yoga" - "Este Yoga significa não somente a realização de Deus, mas uma completa consagração e mudança das vidas interior e exterior, até que estejam preparadas para manifestar uma consciência divina e se tornar parte do trabalho divino."

Sri Aurobindo

AMPLIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA E EVOLUÇÃO DO SER

“A Vida toda é conscientemente ou subconscientemente, um Yoga, um esforço metodizado rumo à perfeição.”

Sri Aurobindo

OBJETIVO MAIOR
Reencontro da vida na verdade do aspecto divino do ser, nesse propósito, busca transferir as raízes de tudo o que somos e fazemos da mente, da vida e do corpo para uma consciência maior e ampliada.
PASSOS PARA ESTA REALIZAÇÃO
1- Abrir-se para deixar emergir o poder divino que está dentro e em torno de nós.

2- Esforço para elevar a consciência para esferas superiores com ações cada vez mais em sintonia com os níveis mais elevados da vida.
3 - Retornar à consciência terrestre plena juntamente com a luz e o poder da consciência divina em toda atividade humana. Buscando uma transformação constante e dinâmica para atingir o aperfeiçoamento e evolução.

A Mãe

The Mother talks about Total Surrender

Sri Aurobindo -- A Homage

TRANSFORMAÇÃO

A Tripla Transformação e o Processo Central do Yoga Integral
A manifestação desse novo estágio da consciência, a supramente, requer a completa transformação da consciência atual. Essa transformação pode ser alcançada através de três movimentos chamados por Sri Aurobindo de a Tripla Transformação: Transformação Psíquica, Transformação Espiritual e Transformação Supramental.

Transformação Psíquica
É buscada através de um movimento (da consciência) para dentro, um voltar-se para o ser interior, para o Ser Psíquico. O aspirante deve mergulhar para dentro, entrar em contato com o centro de seu ser, o ser psíquico “oculto no fundo da caverna do coração” e progressivamente identificar-se com o Si dentro. Deve trazer esse ser psíquico para frente, para fora, agindo exteriormente sempre à partir desse centro psíquico interior, e colocar toda natureza, seu ser inteiro, sob o comando desse ser interior. O esforço do aspirante é por uma abertura para dentro, uma aspiração para que o Divino se manifeste no centro de seu ser e uma entrega à guiança desse ser interior, o Si dentro. O obstáculo principal é a vontade vital (prana psíquico) e a remoção desse obstáculo deve ser feita através da purificação da natureza inferior e sua orientação ao divino. O resultado é que uma guiança, um governar começa à partir de dentro, do ser psíquico.

Transformação Espiritual
É buscada através de uma abertura da consciência para o alto, para as regiões mais altas da mente. O aspirante deve abrir-se ao alto, a uma existência mais alta, a um supremo estado espiritual. O esforço do aspirante é por uma abertura para cima, uma aspiração pela descida da Paz, Força, Conhecimento, Ananda do Supremo, e uma entrega à esse princípio de consciência mais alto que progressivamente se manifesta nele. O obstáculo é o ego e a remoção desse obstáculo deve ser feita através da identificação com o Uno, da identificação com o Todo. O resultado é que uma guiança, um governar começa a partir de cima, do ser espiritual.

Transformação Supramental
É a única transformação propriamente dita. A transformação psíquica e a transformação espiritual são transformações precursoras, preparatórias. Não pode ser conquistada pelo aspirante. É uma dádiva da Graça divina. Pode apenas ser favorecida pela entrega ao divino. Quando a luz e o poder da supramente desce à natureza-terra, traz a real transmutação do subconsciente, do inconsciente, da vontade e do corpo físico. A consciência supramental é inteiramente diferente da consciência mental, e irá descer apenas como uma graça da Mahashakti. O esforço do aspirante deve ser pelo abrir-se à Mahashakti e preparar-se para ser um instrumento apropriado, através da purificação, libertação e perfeição – o Método do Yoga Integral. Aurobindo afirma ainda que a transformação supramental é inevitável na evolução da consciência da terra.

 

SUPRAMENTE (A FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO) Cap.IV

Sachchidananda é uma eterna e imutável unidade sem distinções separativas. Mente, vida e matéria
são a consciência analítica ou divisora que a mente apenas pode conhecer por separação e divisão.
Sem um princípio mediador entre eles, nós deveríamos, para alcançar a unidade transcendente de
Sachchidananda, ter que abandonar o mundo de mente, vida e matéria. Ou, se limitássemos nossa
consciência apenas ao mundo fenomenal, perderíamos parte da verdade. Se a realidade da unidade
ou da multiplicidade é negada, a esperança de uma vida divina sobre a terra é impossível.
A única saída de tal solução é encontrar um elo intermediário que estabelece uma relação entre os
dois. Sri Aurobindo descobriu essa ponte entre os dois mundos no princípio da Supramente:
"Esse termo intermediário é... o princípio e o fim de toda ordem e criação, o Alfa e o Ômega, o
ponto de partida de toda diferenciação, o instrumento de toda unificação, originativa, executiva e
consumativa de todas as harmonias realizadas ou realizáveis. Ele tem o conhecimento do Uno, mas
é capaz de extrair do Uno suas multitudes escondidas; Ele manifesta o Múltiplo, mas não perde a si
próprio em suas diferenciações." (1)
Supramente é o princípio de "Vontade e Conhecimento ativos" superiores à mente. A Supramente
não pode ser a mente racional porque, de acordo com Sri Aurobindo, a consciência na mente
racional não é suficiente para explicar a existência no universo. A mente é a faculdade que analisa
idéias e objetos, portanto ignorando a unidade dentro da multiplicidade. Ela interpreta a verdade da
existência em termos de relatividade para uso prático, mas não é uma faculdade de conhecimento ou
vontade ativa que pode criar ou mesmo dirigir a existência. A Supramente é essa faculdade de
conhecimento, pois ela retém a verdadeira natureza de Sachchidananda sem distorcê-la. Contudo, a
mente é uma expressão saída da Supramente e idêntica a ela em essência, o que significa que a
potencialidade da Supramente repousa encerrada e não manifestada na mente.
Sri Aurobindo chama a Supramente de "Real-Idéia", isto é, "um poder de Força Consciente
expressiva do ser real, nascida do ser real e participante de sua natureza e nem um filho do vácuo
nem uma trama de ficções" (2). Ela refere-se sempre à unidade acima de si e à multiplicidade
abaixo de si, portanto atuando como uma ponte pela qual a maya inferior se desenvolve a partir da
maya superior e pela qual a maya inferior retorna novamente em direção à sua fonte.
Do ponto de vista da Supramente (Consciência-Verdade), toda existência é um Ser tendo
consciência como natureza essencial; é uma consciência cuja natureza ativa é vontade; é uma
consciência-força que é deleite, quer esteja ativamente criativa, quer esteja em repouso. Isto, diz Sri
Aurobindo, é Brahman - nós mesmos em nossa essência, nosso ser não fenomenal. O Ser
Consciente concentrado em si próprio torna-se o jogo do universo e é a causa única da existência
cósmica. Este é o nosso ser real, escondido de nós pela máscara do ego e é apenas transformando
nossa presente consciência em uma consciência mais alta que podemos alcançar uma vida divina e
experienciar unidade com a Consciência Divina "que algo super-consciente em nós sempre desfruta,
- de outra maneira não poderíamos existir -, mas que nossa mentalidade consciente tem perdido"
(3).
Sri Aurobindo argumenta que a Supramente é uma necessidade lógica; Sachchidananda em si
própria é "um absoluto sem espaço e sem tempo de existência consciente que é deleite" (4), mas o
mundo não é sem tempo e sem espaço, é uma extensão no Tempo e Espaço e um movimento, um
realizar-se, um desenvolvimento de relações por causalidade no Tempo e no Espaço. Ele chama
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essa causalidade "lei Divina, e a essência dessa lei é o efetuar-se da verdade a partir de
possibilidades infinitas para o deleite da auto-manifestação". Toda manifestação do universo
desenvolve-se dessa força-consciente de conhecimento e vontade que dirige a inter-relação de
formas e é a natureza essencial da existência.
O princípio da Supramente tem três movimentos: 1) é a unidade compreensiva de todas as coisas; 2)
suporta a manifestação do Uno no múltiplo e do múltiplo no Uno; 3) suporta a evolução da
individualidade.
Primeiramente, a Supramente é uma extensão de Sachchidananda que compreende a diferenciação
tanto como sujeito e objeto de si própria. Nessa fase nenhuma individualização ocorre:
"Tudo é desenvolvido em unidade e como um; tudo é mantido por essa Consciência Divina como
formas de sua existência, e em nenhum grau como existências separadas. Algo como os
pensamentos e imagens que ocorrem em nossas mentes que não são existências separadas de nós,
mas formas tomadas por nossa consciência, assim são todos os nomes e formas para essa
Supramente primária. Ela é a intenção e formação divina pura no Infinito, - apenas uma intenção e
formação que é organizada não como um jogo real de pensamento mental, mas como uma atividade
real de ser consciente." (5)
Em segundo lugar, Supramente é a consciência apreensiva universal, isto é, ela vê a si própria como
um objeto de cognição e como o centro no qual o Ser concentra a si próprio. Aqui o sujeito
simultaneamente vê o objeto como algo distinto de si próprio e realiza a unidade entre sujeito e
objeto. Neste ponto não existe diferença essencial, mas sim uma diferença prática, isto é, a
Supramente conhece todas as formas-alma como si própria e ainda estabelece uma relação
individual com cada uma:
"Se nossa mente purificada refletisse essa forma secundária da Supramente, nossa alma poderia
suportar e ocupar sua existência individual e ali mesmo realizar a si própria como o Uno que se
tornou o todo, contém tudo, deleitando-se mesmo em sua modificação particular, sua unidade com
Deus e com suas companheiras. Em nenhuma outra circunstância da existência supramental poderia
haver qualquer mudança característica; a única mudança seria este jogo do Uno que tem
manifestado sua multiplicidade, e do Múltiplo que é ainda o Uno, com tudo aquilo que é necessário
para manter e conduzir o jogo." (6)
Em terceiro lugar, a Supramente projeta a si própria no movimento individual e torna-se envolvida
nele. Ainda assim, a unidade fundamental predomina na variedade de dualismos. Sri Aurobindo
descreve essa ação como "o campo prático de sua experiência consciente" (7) (da Supramente),
sendo as variações individuais em evolução vistas pela Supramente "em seu separado ponto de vista
vivendo como o Divino individual, cada uma com o Supremo e Uno habitando nela" (8).
"Este equilíbrio terciário poderia ser, portanto, aquele de uma espécie de dualismo deleitante
fundamental em unidade - não mais unidade qualificada por um dualismo subordinado - entre o
Divino individual e sua fonte universal, com todas as conseqüências que poderiam resultar da
manutenção e operação de tal dualismo." (9)
Esses três movimentos da Supramente são análogos aos três aspectos de Brahman: transcendente,
universal, individual. A Supramente funciona como o mediador consciente, reconhecendo o Uno
em si própria e em todas as coisas e objetos como emanações de sua própria vontade e
conhecimento.
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A Supramente é a ligação entre o Uno absoluto e o múltiplo relativo, mas considerando a distância
entre a mente como nós a conhecemos e a consciência-Verdade supramental, uma questão surge:
existe uma transição da mente para a Supramente? Se a mente é meramente uma faculdade
buscando por verdade, visto que a Supramente está em posse da verdade, existirá um poder
intermediário pelo qual a transição involucionária da Supramente para a mente racional possa
ocorrer? Sri Aurobindo nos assegura que existem gradações entre estes dois níveis de consciência -
uma transição da Supramente para nossa mente racional. Involuindo (descendo) da Supramente
estão a Sobremente, mente Intuitiva, mente Iluminada, mente Superior e então mente ordinária.
A Supramente sempre vê a verdade integral como si própria. A mente vê o mundo de seu próprio
ponto de vista relativo de separatividade individual. A Sobremente, por outro lado, embora
consciente da verdade integral da Supramente,
"procede por intermédio de uma ilimitável capacidade de separação e combinação de poderes e
aspectos da todo-compreensora indivisível e integral Unidade. Ela toma cada aspecto do Poder e dá
a ele uma ação independente na qual esta adquire uma importância separada total e é capaz de
desenvolver, poderíamos dizer, seu próprio mundo de criação." (10)
A Sobremente vê o universo como integralmente uno e ainda composto de muitos aspectos e
potenciais para os quais ele confere ação independente. "Na Sobremente nós temos a origem da
diversificação" (11). A Realidade Divina, o Uno e o múltiplo, Alma Divina (Si), Personalidade
Divina e impersonalidade são todos aspectos e poderes da realidade una, mas cada um é também
pleno de poder para agir como uma entidade independente no todo, para chegar a completa extensão
de possibilidades de sua separada expressão e então desenvolver as conseqüências da
separatividade. Essa separatividade na Sobremente é baseada na unidade; na unidade são
encontradas infinitas possibilidades:
"Se nos referirmos aos Poderes da Realidade como muitas Divindades, nós podemos dizer que a
Sobremente lança milhões de Divindades em ação, cada uma com poderes para criar seu próprio
mundo, cada mundo capaz de relação, comunicação e interação com os outros." (12)
Enquanto a mentalidade humana vê o pessoal e o impessoal como opostos, a Sobremente os vê
como poderes separados da Realidade una que podem ser independentes e também unidos entre si
como aspectos coexistentes da existência una.
Nesse desenvolvimento de numerosos potenciais não há conflito. O conflito ocorre na divisão da
mente. Pois a Sobremente não é uma queda da verdade, é uma criadora de verdades, e não clama
por status separados para qualquer desenvolvimento.
"Cada idéia admite todas outras idéias e seu direito de ser; cada força concede um lugar para todas
outras forças e sua verdade e conseqüências; nenhum deleite de existência plena separada ou
experiência separada nega ou condena o deleite de outra existência ou outra experiência. A
Sobremente é um princípio de Verdade cósmica e uma vasta e interminável universalidade é seu
verdadeiro espírito; sua energia é um todo-dinamismo tanto quanto um princípio de dinamismo
separado." (13)
A ação da Sobremente, em sua descida, atinge uma linha que divide conhecimento (maya superior)
de ignorância (maya inferior). É a partir dessa linha que é possível para o princípio independente de
separação criado pela Sobremente dividir a mente em unidades separadas para autodesenvolvimento.
Quando tal concentração ocorre, nós temos o mental existindo no reino da
ignorância. Mas a mente não é outra senão a Supramente, ela é meramente limitada a um
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conhecimento parcial, não um conhecimento integral da verdade. Por causa do princípio da divisão,
a mente não mais se identifica com o todo:
"Este caráter de uma organização de verdades parciais em uma base de conhecimento separativo
persiste na Vida e na matéria sutil, pois a concentração exclusiva de Consciência-Força que as
coloca em ação separativa não segrega ou vela a Mente da Vida, ou a Mente e Vida da Matéria."
(14)
Apenas quando a Inconsciência tiver sido atingida poderá haver completa separação. Mente, vida e
matéria são estágios de Consciência-Força; cada um segue suas próprias possibilidades e efetua a
verdade de si próprio.
O próximo nível de involução (descida) é a Mente Intuitiva. Sri Aurobindo a vê como o original
daquela transmissão de verdade para a mente provindo dos estados mais altos, que nós conhecemos
como intuição em nossa experiência mental. Os sentidos e a mente sensorial-pensante não
conhecem nada sobre o absoluto. A única informação que os sentidos fornecem a nós é sobre forma
e movimento, sempre "misturados, combinados, agregados, relativos" (15), nunca da pura
existência. Mas existe uma consciência mais alta que a mente sensorial-pensante e esta é a intuição:
"A Intuição traz ao homem aquelas brilhantes mensagens do Desconhecido que são o início de seu
mais alto conhecimento... A Intuição nos dá aquela idéia de algo atrás e além daquilo que nós
conhecemos e que parece ser." (16)
A Intuição é mais forte que a razão ou experiência sensorial porque, como nossas faculdades mais
altas, ela alcança o conhecimento direto:
"Na mente humana, sua ação é amplamente escondida pelas intervenções de nossa inteligência
normal; uma intuição pura é uma ocorrência rara em nossa atividade mental, pois o que nós
chamamos por esse nome é usualmente um ponto de conhecimento direto que é imediatamente
tomado e recoberto com matéria mental." (17)
A intuição é obstruída por sugestão mental que tanto pode ser verdadeira como falsa, mas em
ambos os casos não é o movimento direto original que pode nos dar a experiência integral da
verdade. "Uma intuição aprovada em revisão judicial pela razão deixa de ser uma intuição e pode
apenas ter a autoridade da razão para a qual não há nenhuma fonte de certeza direta" (18). E isso
reduz amplamente para nós a utilidade da intuição:
"A Intuição tem um poder quádruplo. Um poder de visão-da-verdade revelatório, um poder de
inspiração ou audição-da-verdade, um poder de toque-da-verdade ou avaliação imediata de
significância, que é análogo à natureza ordinária de sua intervenção em nossa inteligência mental,
um poder de discriminação verdadeira e automática da ordenação e exata relação de verdade para
verdade." (19)
Por seu próprio processo, a intuição pode efetuar ação de razão, mesmo a função de inteligência
lógica que elabora corretas relações entre coisas e idéias. Ela pode transformar a mente, coração,
vida e o sentido da consciência física em uma maior integralidade. "Ela pode então alterar toda a
consciência na substância da intuição" (29), mas usualmente isto é impedido devido à inconsciência
fundamental em nossa natureza que é muito espessa para ser completamente penetrada. Tão logo
ela esteja sob a influência de nossa mente e outras obscuridades ignorantes, a intuição jamais pode
ser a mesma da consciência supramental.
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A percepção intuitiva é mais que visão e concepção; ela traz dentro de si, visão e concepção. Uma
consciência que procede por visão é o estágio entre Intuição e Mente Superior. Ela é denominada
por Sri Aurobindo a Mente-Iluminada - a mente da luz espiritual. Neste nível, uma "Verdade e
poder espirituais entram na consciência acompanhados por uma compreensão espiritual-conceitual.
Uma cascata de luz visível interior usualmente acompanha essa ação. O significado de "luz", como
empregado aqui, é primariamente uma "manifestação espiritual da Realidade Divina, iluminativa e
criativa" (21) seguida por um entusiasmo de poder interior que substitui os processos mais
deliberados dos níveis mentais ordinários.
A mente iluminada opera tanto por visão quanto por pensamento; pensamento é apenas um
movimento subordinado. O pensamento ordinário é considerado o processo de conhecimento
principal, dando-nos clarificação e detalhes precisos, mas na Mente Iluminada ele não é um
processo indispensável:
"... embora em si própria, em sua origem nos níveis de consciência mais elevados, é uma percepção,
um avaliar cognitivo do objeto ou de alguma verdade das coisas que é uma poderosa, mas ainda um
resultado menor e secundário, da visão espiritual, uma relação comparativamente externa e
superficial do si sobre o si, do sujeito sobre si próprio como objeto: pois todos eles são uma
diversidade e multiplicidade do Si. Na mente existe uma resposta superficial de percepção ao
contato de um objeto, fato ou verdade observada ou descoberta e a conseqüente formulação
conceitual desta; mas na luz espiritual existe uma resposta perceptiva mais profunda vinda da
verdadeira substância do ser, - nada mais, nenhuma representação verbal é necessária para a
precisão e compleitude desse conhecimento-de-pensamento." (22). O pensamento cria uma imagem
representativa da verdade e a mente a torna um objeto de conhecimento, mas a verdade, em
realidade, é retida na "visão espiritual" e a imagem criada pelo pensamento torna-se secundária. A
Mente Iluminada traz uma maior consciência por intermédio dessa visão espiritual.
Sri Aurobindo descobriu que quando esses graus de "energia-substância" descem (involuem) em
nós, nosso conhecimento, pensamento, consciência, atividades e tudo em nós é afetado. A pureza da
graduação depende das vibrações e prontidão de nosso ser, isto é, quanto mais densos e fechados
nós estamos para os níveis mais altos, tanto menos de substância mais pura pode entrar em nós e
tanto mais reduzida ela deve tornar-se. Na medida em que ascendemos, contudo, encontramos uma
mais poderosa luminosidade, um mais concreto deleite espiritual. É então que os estados mais
elevados são capazes de descer para dentro de nosso ser. "Isso pode ocorrer porque tudo é
fundamentalmente a mesma substância, a mesma consciência, a mesma força, mas em diferentes
formas e poderes e graus de si própria " (23).
A Mente Superior é o nível mais próximo à mente mental e outro elo no processo de descida. De
acordo com Sri Aurobindo, a Mente Superior é uma "clareza do espírito". Ela possui um sentido de
unidade do ser e ainda uma "múltipla dinamização" que formula aspectos e modos de ação em todos
que tem um conhecimento intrínseco. A Mente Superior é um poder que provém da Sobremente,
com a Supramente como sua "origem última". O caráter especial da Mente Superior é pensamento:
"Ela é uma luminosa mente-pensamento, uma mente de conhecimento conceitual nascido-doespírito"
(24).
Um aspecto desse conhecimento superior é que relações de idéia com idéia e verdade com verdade
não são derivados por dedução lógica, porque ele é um conhecimento a priori (integral) e não um
conhecimento adquirido. As relações entre idéias e verdades já existem e "emergem auto-vistas no
todo integral" (25).
Existe, na Mente Superior, o atributo de vontade e o atributo de cognição:
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"Aqui nós encontramos que esta mais brilhante mente maior atua sempre no restante do ser, a
vontade mental, o coração e seus sentimentos, a vida, o corpo, através do poder do pensamento,
através da força-idéia. Ela procura purificar através de conhecimento...
A idéia é colocada no coração ou na vida como uma força a ser aceita e desenvolvida; o coração e a
vida tornam-se conscientes da idéia e respondem a seus dinamismos e sua substância começa a
modificar a si própria naquele sentido de modo que os sentimentos e ações tornam-se as vibrações
dessa sabedoria mais alta... os impulsos da vontade e da vida são similarmente carregados com seu
poder e sua ânsia de auto-efetuação; mesmo no corpo a idéia atua dessa maneira, por exemplo, o
potente pensamento e vontade de saúde substitui sua fé na doença." (26)
A força da idéia gerada em nossa substância de mente, vida ou corpo pode ser o poder para acordarnos,
porque ela dá ao ser inteiro uma maior e mais alta consciência. Isso ainda é uma batalha,
porque a maya inferior sempre resiste a qualquer conhecimento mais alto. Mas as forças da
ignorância têm que ser superadas e a evolução em lutas deve ser substituída pela evolução em
harmonia e deleite.
"O poder da Mente Superior espiritual e sua idéia-força, modificada e diminuída como deve ser, por
sua entrada em nossa mentalidade, não é suficiente para varrer todos esses obstáculos e criar o ser
gnóstico, mas pode efetuar uma primeira alteração, uma modificação que capacitará uma ascensão
maior e uma descida mais poderosa e, além disso, preparar uma integração do ser em uma maior
Força de consciência e conhecimento." (27)
Embora a mente mental ordinária seja uma expressão da Supramente, é sua função dividir, limitar e
separar as formas de coisas da totalidade indivisível da existência. A mente Ordinária tem o impulso
constante para ir além de suas partes e tentar compreender o todo, mas ela sempre falha por causa
de suas limitações inerentes:
"A mente percebe apenas o particular e não o universal, ou concebe apenas o particular em um
universal não possuído, mas nunca ambos, o particular e o universal como um fenômeno do infinito.
Então nós temos a mente limitada que vê todo fenômeno como uma coisa-em-si-própria, uma parte
separada de um todo que novamente existe separadamente em um todo maior e assim por diante,
aumentando sempre seus agregados sem voltar ao sentido de uma verdadeira infinitude." (28)
A mente ordinária reparte o ser em totalidades, mesmo nas menores totalidades, em átomos, em
átomos primais ad-infinitum, até que possa, se possível, analisar partículas da existência, mas ela
não pode, porque todas as formas fenomenais não são divisões mas expressões da unidade infinita e
do ser eterno. "Divisão é uma aparência subordinada do processo global necessária ao seu jogo
espacial e temporal" (29).
"Por dividir à sua vontade, descer ao mais infinitesimal átomo ou forma, ao mais monstruoso
possível agregado de mundos e sistemas, você não pode, por quaisquer processos, chegar à coisa em
si; tudo são formas de uma Força que unicamente é real em si própria enquanto o restante é real
somente como auto-imagens ou auto-formas manifestadas da eterna Força-Consciência." (30)
Além disso, Sri Aurobindo propôs sete princípios como o fundamento de toda existência cósmica.
Para recapitular, a realidade última de tudo que está no universo é o triplo princípio do
Transcendente - Existência-Consciência-Deleite - a natureza do Ser Divino. A Consciência tem dois
aspectos: estático e dinâmico. A ação criativa do "todo-existente" tem seu "nodus" no quarto
princípio, a Supramente ou Real-Idéia que media entre a unidade de Sachchidananda e a
multiplicidade da mente, vida e matéria. Supramente, o princípio da vontade e conhecimento
diretivos, abrange todas as coisas em si própria como si própria. Mente, vida e matéria são um
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aspecto tríplice dos princípios superiores, mas subordinados à Divina Existência-Consciência-
Deleite e Supramente:
"Mente é um poder subordinado da Supramente que se baseia no ponto de vista da divisão,
atualmente esquecida da unidade subjacente, embora capaz de retornar a esta por re-iluminação pelo
supramental; Vida é similarmente um poder subordinado do aspecto de energia de Sachchidananda,
é uma força elaborando forma e o jogo de energia consciente a partir do ponto de vista da divisão
criada pela Mente; Matéria é a forma de substância de ser que a existência de Sachchidananda toma
quando se sujeita a essa ação fenomenal de sua própria consciência e força." (31)
O quarto princípio que vem à manifestação como o "nodus" de mente, vida e corpo é a alma. A
alma é duplamente desenvolvida; é feita da "alma de desejo que anseia pelo deleite e a posse de
coisas; e a verdadeira entidade psíquica que é o repositório real das experiências do espírito" (32).
Os princípios, então, são realmente oito, em vez de sete. São eles (33):
"Existência (Sat): torna-se Matéria
Consciência-Força (Chit): torna-se Vida
Deleite(Ananda): torna-se Psique (Alma)
Supramente : torna-se Mente
A alma-de-desejo é uma distorção exterior do princípio psíquico que não é a vida ou a mente, muito
menos o corpo, mas que mantém em si própria a abertura e florescimento da essência de todos eles
para o próprio e peculiar deleite do si, iluminar, amar, deleite e beleza e para uma refinada pureza
de ser." (34)
A alma tem sua origem em uma Alma Divina (Si) acima. A Alma Divina vive no deleite original da
Existência (Ananda) auto-contida na consciência de Sachchidananda e na unidade de maya
superior. Por distinção da Supramente Compreensiva, a Alma divina desfruta ao mesmo tempo
unidade e diferenciação com Deus e unicidade com outras Almas Divinas. Ela é consciência pura e
ilimitada em sua energia e capaz de relação livremente com formas de conhecimento.
A Alma Divina é consciente de três graus de existência supramental como auto-manifestações de
Sachchidananda: 1) conceber, perceber e sentir como seu próprio Si-de-ser e Si-de-vir-a-ser todas
existências; 2) conceber, perceber e sentir todas existências no Si como formas-alma do Uno;
3) conceber, perceber e sentir todas essas existências em sua individualidade divina.
A distorção exterior do ser psíquico (alma-de-desejo) "trabalha em nossos apetites vitais, nossas
emoções, faculdades estéticas e busca mental por poder, conhecimento e felicidade" (35). A mesma
divisão que separa mente ordinária de Supramente existe para a alma. Sri Aurobindo coloca que o
mal do mundo é que o indivíduo é incapaz de encontrar a verdadeira alma dentro e uni-la com a
Alma-Divina. Nós buscamos pela essência do ser, poder, existência-consciente, e deleite, mas, em
lugar disso recebemos as dualidades de prazer e dor, afetos e desafetos, emoções e indiferença,
coragem e medo, alcances e recuos. É, diz ele, a Alma Divina que compele nosso ser psíquico a
continuar buscando a unidade mais alta a despeito de seus retrocessos através da alma-de-desejo, "e
isto ela faz porque é impelida pelo universal a desenvolver a si própria por todas as espécies de
experiências de modo a crescer em Natureza" (36). Se nós vivêssemos apenas pela alma-de-desejo,
não poderíamos transformar a nós mesmos mais que a pedra pode transformar a si própria; de fato
poderíamos circular sobre os mesmos rastros para sempre. Nós podemos, contudo, relacionar a
alma-de-desejo a suas verdades interiores e a suas fontes divinas e esse é um movimento
indispensável se nós quisermos progredir tanto individualmente quanto como humanidade.
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A SUPRAMENTE E A VIDA DIVINA

 Este artigo foi extraído, do livro que Sri Aurobindo escreveu com toda toda pressa antes de ir-se. A MANIFESTAÇÃO SUPRAMENTAL SOBRE A TERRA.
Uma vida divina sobre a terra, o ideal que colocamos diante de nós, só pode vir por uma mudança espiritual de nosso ser e uma mudança radical e fundamental, uma evolução ou revolução de nossa natureza. O ser encarnado sobre a terra teria que elevar-se acima do domínio que exercem sobre ele, seus véus de mente, vida e corpo até a plena consciência e possessão de sua realidade espiritual e sua natureza também teria que elevar-se desde a consciência e poder de consciência própria de um ser mental, vital e físico para a consciência maior e o poder maior do ser e a mais livre vida do espírito. Não perderia estes primeiros véus mas já não seriam véus ou expressões imperfeitas senão manifestações verdadeiras; seriam transformados em estados de luz, poderes de vida espiritual, veículos de uma existência espiritual. Mas novamente isto não poderia ser se a mente, a vida e o corpo não se elevarem e se transformarem por um estado do ser e uma força do ser superior a eles, um poder da Supramente tão acima de nossa natureza mental incompleta como está acima da natureza da vida animal e da Matéria animada, como está imensuravelmente acima da mera natureza material.

A Supramente é em sua mesma essência uma consciência-verdade, uma consciência sempre livre da Ignorância que é a fundação de nosso presente natural ou existência evolutiva e desde a qual a natureza em nós está tentando chegar ao auto-conhecimento e ao conhecimento do mundo e a uma consciência correta e o uso correto de nossa existência no universo. A Supramente, porque é uma consciência-verdade, tem este conhecimento inerente nela e este poder de verdadeira existência; seu curso é reto e pode ir direto a seu objetivo, seu campo é amplo e inclusive pode fazer-se ilimitável. Isto é porque sua natureza é conhecimento: não tem que adquirir conhecimento senão que o possui por direito próprio ; seus passos não são desde a nesciência ou a ignorância até alguma luz imperfeita, senão desde a verdade até a verdade maior, desde a percepção correta até uma percepção mais profunda, de intuição a intuição, de iluminação a absoluta luminosidade ilimitada, de crescente amplitude à absoluta imensidade e a mesma infinitude. Em seus cumes possui a onisciência e onipotência divina, mas inclusive em um movimento evolutivo de sua própria auto-manifestação graduada pela qual finalmente revelaria suas próprias alturas mais altas deve estar em sua mesma natureza essencialmente livre de ignorância e erro: começa da verdade e da luz e se move sempre na verdade e na luz. Como seu conhecimento é sempre verdadeiro, também sua vontade é sempre verdadeira; não manipula desajeitadamente as coisas ou se cambaleia em seus passos. Na Supramente o sentimento e a emoção não se separam de sua verdade, não se equivoca ou comete erros, não se desvia do correto e do real, não pode utilizar mal a beleza e o deleite ou torcer-se de uma retidão divina. Na Supramente o sentido não pode guiar mal ou desviar até a grosseria que aqui são suas imperfeições naturais e a causa de censura, desconfiança e mal uso por nossa ignorância. Inclusive uma declaração incompleta feita pela Supramente é uma verdade que conduz a uma verdade mais completa, sua ação incompleta é um passo para a plenitude. Toda a vida e a ação e o guia da Supramente está a salvo em sua própria natureza das falsidades e incertezas de nosso destino; se move segura para sua perfeição. Uma vez a conscência-verdade se estabeleça aqui em sua própria fundação segura, a evolução da vida divina seria um progresso na felicidade, uma marcha através da luz até a Ananda.
A Supramente é uma realidade eterna do Ser divino a Natureza divina. Em seu próprio plano já existe e sempre existe e possui sua própria lei essencial de ser; não tem que ser criada ou emergir ou evoluir na existência desde a involução na Matéria ou desde a não-existência, como poderia parecer a ela, a mente que pensa de si mesma haver emergido desse modo da vida e da Matéria ou haver evoluído de uma involução na vida e na Matéria. A natureza da Supramente sempre é a mesma, um ser de conhecimento, caminhando de verdade em verdade, criando ou melhor manifestando o que tem que ser manifestado pelo poder de um conhecimento pré-existente, no por azar senão por um destino auto-existente no próprio ser, uma necessidade da própria coisa e portanto inevitável. Sua manifestação da vida divina será também inevitável; sua própria vida em seu próprio plano é divina e, se a Supramente descende à terra, trará necessariamente a vida divina com ela e ela se estabelecerá aqui.
A Supramente é o grau da existência além da mente, da vida e da Matéria e, como a mente, a vida e a Matéria se manifestaram sobre a terra, assim também deve a Supramente no inevitável curso das coisas se manifestará neste mundo de Matéria. De fato, uma supramente já está aqui mas está involuída, oculta atrás desta mente, vida e Matéria manifestada e ainda sem atuar abertamente ou em seu próprio poder: se atua, é através destes poderes inferiores e modificada por seus caracteres e pelo ainda irreconhecível. É só mediante a aproximação e chegada da Supramente que descenda que pode ser liberada sobre a terra e revelar a si mesma na ação de nossas partes materiais, vitais e mentais de modo que estes poderes inferiores possam converter-se em porções de uma atividade totalmente divinizada de todo nosso ser: é o que nos trará uma divindade completamente realizada ou a vida divina. É certamente assim como a vida e a mente, involuídas na Matéria se tornaram realidade aqui; pois só o que está involuído pode evoluir, de outro modo não poderia haver nenhuma emergência.
A manifestação de uma consciência-verdade supramental é portanto a realidade capital que fará a vida divina possível. É quando todos os movimentos do pensamento, dos impulsos e das ações sejam governados e dirigidos por uma consciência-verdade auto-existente e automaticamente luminosa e nossa natureza completa esteja constituída por ela e feita de sua matéria que a vida divina será completa e absoluta. Inclusive como é, em realidade ainda que não na aparência das coisas, são um conhecimento e verdade secretos e auto-existentes que estão trabalhando para manifestar-se na criação aqui. O Divino está já aqui imanente dentro de nós, nós somos isso em nossa realidade mais profunda e é esta realidade que temos que manifestar; é isso o que constitui a URGÊNCIA para a vida divina e faz necessária a criação da vida divina inclusive nesta existência material.

Uma manifestação da Supramente e sua consciência-verdade é então inevitável; deve acontecer neste mundo cedo ou tarde. Mas tem dois aspectos, um descenso desde cima, uma ascensão desde baixo, uma auto-revelação do Espírito, uma evolução na Natureza. A ascensão é necessariamente um esforço, um trabalho da Natureza, um incitamento ou esforço de sua parte para elevar suas partes inferiores mediante uma mudança evolutiva ou revolucionária, uma conversão ou transformação na realidade divina e pode suceder mediante um processo e progresso ou mediante um rápido milagre. O descenso ou auto-revelação do Espírito é um ato da suprema Realidade desde o alto que torna possível a realização e pode aparecer assim como a ajuda divina que traz o cumprimento do progresso e do processo ou como a sanção do milagre. A evolução, como a vemos neste mundo, é um processo lento e difícil e, certamente, normalmente necessita anos para alcançar resultados permanentes; mas isto é porque está em sua natureza uma emergência desde começos inconscientes, um início desde a nesciência e um trabalho na ignorância de seres naturais pelo que parece ser uma força inconsciente.
Pode haver, pelo contrário, uma evolução na luz e não mais na obscuridade, na qual o ser evolutivo é um participante consciente e um colaborador, e ISTO É PRECISAMENTE O QUE DEVE TER LUGAR AQUI. Inclusive no esforço e o progresso desde a Ignorância ao Conhecimento isto deve ser em parte se não totalmente o esforço a fazer nas alturas da natureza e deve ser totalmente isso no movimento final até a mudança espiritual, a realização, a transformação. Deve ser todavia maior quando há uma transição através da linha divisória entre a Ignorância e o Conhecimento e a evolução parte do conhecimento para um conhecimento maior, desde a consciência a uma consciência maior, desde o ser a um ser maior. Então já não há nenhuma necessidade para o passo lento da evolução ordinária; pode haver uma conversão rápida, uma rápida transformação depois de uma transformação, o que pareceria a nossa atual mente normal, uma sucessão de milagres. Uma evolução nos níveis supramentais bem poderia ser dessa natureza; poderia ser igualmente, se assim o escolhesse o ser, uma passagem mais calma de um estado ou condição supramental das coisas para algo além mas ainda supramental, desde um nível divino até um nível divino, uma construção de gradações divinas, um crescimento livre para a suprema Supramente ou além dela para níveis do ser, de consciência e Ananda não sonhados todavia.

A descida da Supramente trará a quem a receba e se realize na consciência-verdade todas as possibilidades da vida divina. Elevará não só toda a experiência característica que já reconhecemos como constitutiva da vida espiritual senão também tudo o que agora excluímos dessa categoria mas que é capaz da divinização, não excluindo nada da natureza terrestre e da vida terrestre que possa ser transformado pelo toque da Supramente e elevada na vida manifestada do Espírito.
Pois uma vida divina sobre a terra não necessita ser uma coisa aparte e exclusiva que não tenha nada que ver com a existência terrestre ordinária: elevará o ser humano e a vida humana, transformará o que possa ser transformado, espiritualizará o que possa ser espiritualizado, projetará sua influência sobre o resto e efetuará ou uma mudança radical ou uma mudança que eleve, causará uma comunhão mais profunda entre o universal e o individual, invadirá o ideal com a verdade espiritual da qual é uma sombra luminosa e ajudará a elevar em ou até uma existência maior e mais alta. A mente se elevará até uma luz mais divina de pensamento e vontade, a vida para uma emoção e ação mais profunda e verdadeira, para um poder de si mesma maior, para objetivos e motivos altos. O que todavia não possa ser elevado a sua própria plena verdade de ser, será aproximado a essa plenitude; o que inclusive não esteja preparado para essa mudança, ainda verá aberta a possibilidade o elo sempre que sua todavia incompleta evolução o haja preparado para a realização de si mesmo. Inclusive o corpo, se pode suportar o toque da Supramente, será mais consciente de sua própria verdade, –pois há uma consciência corporal que tem sua própria verdade e poder instintivo de condição e ação correta, inclusive uma espécie de conhecimento oculto, não expressado, na constituição de suas células e tecidos que um dia podem fazer-se conscientes e contribuir à transformação do ser físico. Um despertar deve produzir-se na natureza terrestre e na consciência terrestre que será, senão o começo real, ao menos a preparação efetiva e os primeiros passos de sua evolução para um novo e mais divina ordem mundial.

Isto seria a realização da vida divina que a descida da Supramente e o trabalho da consciência-verdade tomando toda a natureza do ser vivente traria em
todos os que pudessem abrir-se a seu poder ou influência. Inclusive seu primeiro efeito imediato se produziria em todos os que foram capazes da possibilidade de entrar na consciência-verdade e modificar todos os movimentos da natureza mais e mais nos movimentos da verdade supramental, verdade de pensamento, verdade de vontade, verdade nos sentimentos, verdade nos atos, verdadeiras condiciones de todo o ser inclusive do corpo, finalmente transformação, uma mudança divina. Para aqueles que puderam abrir-se desse modo e permanecer abertos, não haveria nenhuma limitação para este desenvolvimento e inclusive nenhuma dificuldade fundamental; pois todas as dificuldades seriam dissolvidas pela pressão da luz e do poder supramentais desde cima vertendo-se a si mesmo na mente e na força vital e no corpo. Mas o resultado da descida supramental não necessita ser limitada àqueles que possam abrir-se inteiramente assim e não necessita ser limitado à mudança supramental; poderia também haver uma transformação menor ou secundária do ser mental dentro do campo liberado e aperfeiçoado da natureza mental. Em lugar da mente humana como é agora, uma mente limitada, imperfeita, aberta em cada instante a toda classe de desvios da verdade ou perda da verdade, aberta a toda classe de erros e aberta inclusive às persuasões de uma completa falsidade e perversão da natureza, uma mente cegada e atraída para a inconsciência e a ignorância, dificilmente chegando ao conhecimento, um intelecto inclinado a interpretar o conhecimento superior em abstrações e figuras indiretas agarrando e retendo inclusive as mensagens da intuição superior com uma compreensão incerta e disputada, poderia emergir uma mente verdadeira e capaz da livre e suprema perfeição de si mesma e seus instrumentos, uma vida governada pela mente livre e iluminada, um corpo que respondesse à luz e capaz de realizar tudo o que a mente e a vontade livres puderam demandar-lhe. Esta mudança poderia suceder não só em uns poucos, senão estender-se e generalizar-se na raça. Esta possibilidade, se se realizasse, significaria que o sonho humano de perfeição, perfeição de si mesmo, de sua natureza purificada e iluminada, de todos seus modos de ação e vida, já não seriam um sonho senão uma verdade que poderia tornar-se realidade e a humanidade seria liberada da sujeição da inconsciência e da ignorância. A vida do ser mental poderia harmonizar-se com a vida da Supramente que então seria a ordem mais elevada acima e seria inclusive uma extensão e anexo da consciência-verdade, uma parte e província da vida divina. É óbvio que se a Supramente está aí e uma ordem de ser supramental se estabelece como o princípio diretor na natureza terrestre, como a mente é agora o princípio diretor, mas com uma certeza, um governo completo da existência terrestre, uma capacidade de transformação de tudo acima de seu nível e dentro de seus limites naturais do qual a mente em sua imperfeição não foi capaz, uma mudança imensa da vida humana, inclusive se não se estendesse à transformação, seria inevitável.

Fica por considerar quais seriam os
obstáculos no caminho desta possibilidade, especialmente aqueles oferecidos pela natureza HUMANA da ordem terrestre e sua função como campo de uma evolução gradual, na qual nossa humanidade é uma etapa e, poderia arguir-se, que sua mesma imperfeição é uma necessidade evolutiva. Como faria a Supramente por sua presença e governo das coisas para poder superar esta dificuldade, respeitando simultaneamente o princípio de gradação e se não pudesse retificar a ordem errônea e ignorante imposta pela Ignorância e a Inconsciência, substituí-lo por uma gradação correta na qual a perfeição e divinização seriam possíveis? Certamente, o caminho para o indivíduo estaria aberto, mas QUALQUER GRUPO DE SERES HUMANOS QUE ASPIRE UNIDOS EM UM ESFORÇO POR UMA VIDA COLETIVA PERFEITA E INDIVIDUAL E/OU ASPIREM À VIDA DIVINA, SERIAM ASSISTIDOS PARA A CONSECUÇÃO DE SUA ASPIRAÇÃO: AO MENOS ESSA SERIA A MÍNIMA CONSEQUÊNCIA QUE SUPORIA A SUPERMENTE. Mas a possibilidade maior está também aí e poderia inclusive oferecer-se à toda a humanidade.

A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capítulo II

Capítulo II

AS DUAS NEGAÇÕES
1
A negação materialista

Ele colocou em ação a força-consciente (na austeridade do pensamento) e chegou ao conhecimento de que a Matéria é o Brahman. Pois da Matéria nascem todas as existências; uma vez nascidas, através da Matéria elas crescem, e por isso entram na Matéria em sua passagem. Então ele foi até Varuna, seu pai, e disse: “Senhor, ensine-me sobre o Brahman.” Mas seu pai lhe respondeu: “Aciona (novamente) a energia-consciente em ti; pois a energia é Brahman”.
Taittiriya Upanishad [1]

A afirmação de uma vida divina sobre a Terra e de um sentido imortal na existência mortal pode carecer de fundamento a não ser que reconheçamos não apenas o Espírito eterno como habitante desta mansão corpórea, o usuário desta vestimenta mutável, como também que aceitemos a Matéria de que ela está feita, como material apropriado e nobre com que Ele tece constantemente seus Trajes, e constrói incansavelmente a série interminável de Suas mansões.
Isso tampouco é suficiente para nos precavermos contra um retrair-se da vida no corpo, a não ser que, como os Upanishads, percebendo por trás das aparências a identidade em essência desses dois termos extremos da existência, possamos dizer, na mesma linguagem daqueles antigos escritos: “A Matéria também é o Brahman”, e conceder pleno valor à vigorosa figura com que o universo físico é descrito, como o corpo externo do Ser divino. Tampouco – tão separados, aparentemente, estão estes dois termos extremos – consegue essa identificação convencer o intelecto racional, se recusamo-nos a reconhecer uma série de termos ascendentes (Vida, Mente, Supramente e os graus que vinculam a Mente com a Supramente), que estão entre Espírito e Matéria.  Ao contrário, ambos aparecerão como oponentes inconciliáveis ligados por um infeliz matrimônio, sendo o divórcio a única solução razoável. Identificá-los, representar cada um nos termos do outro, se torna uma criação artificial do Pensamento, oposta à lógica dos fatos e só possível mediante um irracional misticismo.
Se afirmamos que só existe um Espírito puro e uma substância ou energia mecânica carente de inteligência, chamando ao primeiro Deus e à segunda Natureza, o inevitável fim será negarmos Deus ou dar às costas à Natureza. Tanto para o Pensamento como para a Vida, torna-se imperativa uma escolha. O Pensamento vai negar a Deus como ilusão da imaginação ou à Natureza como ilusão dos sentidos; A Vida vai fixar-se no imaterial e fugir de si mesma com desgosto ou cair num êxtase de auto-esquecimento, ou então negar sua própria imortalidade e orientar-se para longe de deus e em direção ao animal. Purusha e Prakriti, a passivamente luminosa Alma dos Sankhyas e sua Energia mecanicamente ativa, nada têm em comum, nem mesmo seus modos opostos de inércia; suas antinomias só podem ser resolvidas mediante a cessação da Atividade inertemente dirigida, dissolvendo-se no imutável Repouso sobre o qual o estéril cortejo de suas imagens foi projetado em vão. O mudo Shankara, o inativo Eu e sua Maya de muitos nomes e formas são igualmente entidades díspares e inconciliáveis; seu rígido antagonismo só pode terminar pela dissolução da múltipla ilusão na Verdade única de um Silêncio eterno.
O materialista tem diante de si uma tarefa mais fácil; é-lhe possível  negar o Espírito, para chegar a uma mais convincente simplicidade de  afirmação, um Monismo real, o Monismo da Matéria ou da Força. Mas é-lhe impossível persistir permanentemente nessa rigidez de critério. Ele também acaba por pressupor o incognoscível inerte, tão distante do universo conhecido como o passivo Purusha ou o silencioso Atman. Isso não tem nenhum propósito salvo o de adiar – por uma vaga concessão – as inexoráveis exigências do Pensamento, ou servir como desculpa para a recusa em estender os limites da investigação.
Por isso, nessas contradições estéreis, a mente humana não pode descansar satisfeita. Ela deve sempre buscar uma afirmação completa, e só pode encontrá-la mediante uma luminosa reconciliação entre Matéria e Espírito. Para alcançar essa reconciliação, deve passar pelos graus que nossa consciência interior nos impõe e, seja pelo método objetivo de análise aplicado à Vida e à Mente, seja pela síntese e a iluminação subjetivas, chegar ao repouso da unidade última sem negar a energia da multiplicidade manifesta.  Somente com essa completa e universal afirmação podem harmonizar-se todos os multiformes e aparentemente contraditórios dados da existência, e as múltiplas forças em conflito que governam nosso pensamento e nossa vida podem descobrir a Verdade central que aqui simbolizam e de várias formas realizam. Só então nosso Pensamento pode, tendo alcançado um verdadeiro centro, cessar de andar em círculos, trabalhar como o Brahman do Upanishad, fixo e estável  mesmo em sua forma lúdica e em sua corrida mundial, e nossa vida, conhecendo  seu objetivo, servi-lo com firme e serena alegria e luz, assim como com uma energia ritmicamente discursiva.
Mas quando esse ritmo for perturbado, será necessário e útil que o homem teste separadamente, em sua afirmação extrema, cada um dos dois grandes opostos. Esse é o meio natural da mente de retornar mais perfeitamente à afirmação que perdeu. No meio do caminho pode tentar descansar nos graus intermediários, reduzindo todas as coisas aos termos de uma Vida-Energia original, de sensação ou de Idéias; porém todas essas soluções excludentes têm sempre um ar de irrealidade.  Podem, por um tempo, satisfazer a razão lógica, que só trabalha com idéias puras, mas não podem satisfazer o sentido de realidade da mente. Pois a mente sabe que existe algo atrás de si que não é a Idéia, sabe, por outro lado, que dentro de si há algo que é mais que a Respiração vital. Tanto o Espírito como a Matéria podem oferecer, transitoriamente, um sentido de realidade última; não pode fazê-lo qualquer dos princípios intermediários. Por  isso, eles devem dirigir-se aos dois extremos antes de regressar frutiferamente ao todo. Pois, por sua própria natureza – servido por um sentido que só pode perceber com clareza as partes da existência e por uma linguagem que, igualmente, só pode obter clareza quando cuidadosamente separa e limita – o intelecto é dirigido, tendo diante de si essa multiplicidade de princípios elementais, a buscar a unidade reduzindo tudo, rudemente, aos termos de um.  Para afirmar esse um,  tenta praticamente desembaraçar-se dos outros. Para perceber a verdadeira fonte de identidade desses princípios sem esse processo excludente, ele deve ou ter  ultrapassado a si mesmo ou ter completado o circuito apenas para descobrir que todos se reduzem igualmente a Aquilo, que escapa a definições ou descrições e que não só é real mas também alcançável. Qualquer que seja o caminho por onde viajemos,  Aquilo é sempre a meta que alcançaremos, e só podemos evitá-la se recusar-mo-nos a completar o trajeto.
Por isso, é de bom augúrio que, após muitos experimentos e soluções verbais,nós nos encontremos  agora em presença em presença dos dois que suportaram sozinhos,durante muito tempo, as mais rigorosas provas de experiência, os dois extremos; e que ao final da experiência ambos tenham chegado a um resultado que o instinto universal da humanidade – esse juiz oculto,sentinela e representante do Espírito da Verdade universal – se recusa a aceitar como correto ou satisfatório. Na Europa e na Índia, respectivamente, a negação do materialista e a recusa do asceta procuraram afirmar-se como verdade única e dominar a concepção de vida. Na Índia, se o resultado se constituiu numa grande acumulação dos tesouros do Espírito – ou de alguns deles – também representou uma grande falência da Vida; na Europa, a abundância de riquezas e o domínio triunfante dos poderes e posses deste mundo progrediu rumo a uma igual bancarrota nas coisas do Espírito. Nem o intelecto, que buscava a solução de todos os problemas no termo único da Matéria, encontrou satisfação na resposta que recebeu.
Por isso, o tempo faz amadurecer e a tendência mundial se move em direção a uma nova e compreensiva afirmação no que concerne ao pensamento e à experiência interna e externa, e ao seu corolário, uma nova e rica auto-realização numa existência humana integral, para o indivíduo e para a espécie.
Da diferença nas relações de Espírito e Matéria com o Incognoscível que ambos representam, surge uma diferença de eficácia nas negações material e espiritual. A negação do materialista, embora mais insistente e de sucesso imediato, mais fácil em seu apelo à generalidade da espécie humana, é no entanto menos durável, menos efetiva, finalmente, que a absorvente e perigosa recusa do asceta. Pois carrega em si mesma a sua própria cura. Seu elemento mais poderoso é o Agnosticismo, que, admitindo o Incognoscível por trás de toda manifestação, estende os limites do incognoscível até a compreensão do que é meramente desconhecido. Sua premissa é  que os sentidos físicos são a nossa única forma de Conhecimento, e que a Razão, por isso, mesmo em seus mais extensos e vigorosos vôos, não pode escapar para além de seu domínio; ela tem que lidar sempre e somente com os fatos que eles fornecem ou sugerem; e mesmo as sugestões devem sempre estar vinculadas às suas origens; não se pode ir além, não podemos usá-las como uma ponte para um domínio em que faculdades mais poderosas e menos limitadas entrem em ação e outro tipo de investigação tenha que ser instituído.
Uma premissa tão arbitrária contém em si mesma sua própria declaração de insuficiência. Só pode ser mantida ignorando-se ou descartando todo o vasto campo de evidência e experiência que a contradiz, negando ou minimizando nobres e úteis faculdades, ativas consciente ou obscuramente ou, no pior dos casos, latentes em todo ser humano, e recusando-se a investigar fenômenos suprafísicos, exceto se manifestados em relação com a matéria e seus movimentos e concebidos como uma atividade subordinada às forças materiais. Assim que começamos a investigar as operações da mente da supramente, nelas mesmas e sem o preconceito, determinado desde o início, de ver nelas apenas um termo subordinado da Matéria, entramos em contato com um conjunto de fenômenos que escapam inteiramente ao controle rígido, ao dogmatismo limitador da fórmula materialista. E no momento em que reconhecemos - pois nossa ampla experiência nos compele a reconhecer – que existem no universo realidades cognoscíveis que estão além do alcance dos sentidos e no homem poderes e faculdades que determinam, em vez de serem determinados pelos órgãos materiais através dos quais eles mantém contato com os com o mundo dos sentidos – essa concha externa de nossa verdadeira e completa existência - a premissa do Agnosticismo materialista desaparece. Estamos prontos para uma afirmação maior e uma investigação sempre em desenvolvimento.
Mas, primeiro, é bom que reconheçamos a enorme, a indispensável utilidade do breve período de Materialismo racionalista pelo qual a humanidade esteve passando. Pois esse  vasto campo de evidência e experiência, que  agora começa a reabrir seus portões para nós, só pode ser adentrado com segurança quando o intelecto foi severamente treinado para uma clara austeridade; se adentrado por mentes imaturas, prestar-se-á  a perigosas distorções e idéias enganosas, e, realmente, no passado, incrustou-se um real núcleo de verdade com tal acréscimo de superstições deturpantes e dogmas irracionalizantes, que tornou-se impossível qualquer avanço em direção ao verdadeiro conhecimento. Tornou-se necessário, por  um certo tempo, fazer uma limpeza completa da verdade e de sua máscara, com a intenção de clarear o caminho para uma nova partida e um avanço mais seguro. A tendência racionalista do Materialismo rendeu à humanidade esse grande serviço.
Pois as faculdades que transcendem os sentidos, pelo próprio fato de estarem imersas na Matéria, destinadas a trabalhar num corpo físico, com os arreios postos para dirigir um carro em que também atuam os desejos emocionais e os impulsos nervosos, estão expostas a um funcionamento misto, em que correm o risco de iluminar a confusão em vez de esclarecer a verdade. Esse funcionamento misto resulta especialmente perigoso quando homens com mentes  indisciplinadas e sensibilidades impuras tentam escalar os domínios mais altos da experiência espiritual. Em que regiões de nuvens insubstanciais e névoa semibrilhante, ou trevas visitadas por clarões que cegam mais do que iluminam, eles não se perderiam nessa aventura prematura e temerária! Uma aventura certamente necessária dado o modo como a Natureza escolheu  efetuar seu avanço – pois ela se diverte enquanto trabalha – porém ainda, para a Razão, prematura e temerária.
É necessário, por isso, que o Conhecimento que avança tenha sua base sobre um intelecto claro, puro e disciplinado. É necessário, também, que ele corrija seus erros mediante um retorno, às vezes, às restrições do fato sensível, as realidades concretas do  mundo físico. O toque terreno é sempre revigorante para o filho da Terra, mesmo quando ele busca um Conhecimento suprafísico. Pode ser dito também que o suprafísico só pode ser dominado completamente – até as alturas que sempre podemos  alcançar – quando mantemos os pés firmemente pregados no físico. “A Terra é  a Sua base” [2], diz o Upanishad sempre que representa o Eu que se manifesta no universo. E      é certo que, quanto mais ampliamos e tornamos seguro nosso conhecimento do mundo físico, mais amplo e seguro será o nosso fundamento para obter o conhecimento superior, mesmo o mais alto, mesmo o Brahmavidya.
Por isso, ao emergir do período materialista do Conhecimento humano, devemos ter o cuidado de não condenar temerariamente o que estamos deixando para trás ou descartando, nem mesmo uma partícula de suas conquistas, antes que possamos dispor de percepções e poderes bem seguros para ocupar o seu lugar. Ao invés disso, deveríamos observar com respeito e admiração o que o trabalho que o Ateísmo fez pelo Divino e admirar o serviço que o Agnosticismo rendeu, preparando o crescimento ilimitável do conhecimento. Em nosso mundo, o erro é continuamente o servidor e o ‘achador do caminho’ da Verdade;  pois o erro é na realidade uma meia-verdade que tropeça por causa de suas limitações; muitas vezes é a Verdade que usa um disfarce para chegar, sem ser percebida, ao seu objetivo. Estaria bem se o erro pudesse ser sempre,  como foi no grande período que estamos deixando para trás, o fiel servidor, severo, consciencioso, honrado, brilhante dentro de seus limites, uma meia-verdade e não uma irrefletida e presunçosa aberração.
Certo gênero de Agnosticismo é a verdade final de todo o conhecimento. Pois quando chegamos ao final de qualquer caminho, o universo aparece como apenas um símbolo ou a aparência de uma realidade incognoscível que se traduz aqui em diferentes sistemas de valores, valores físicos, valores vitais e sensoriais, valores intelectuais, ideais e espirituais. Quanto mais Aquilo se torna real para nós, mais parece estar sempre além do pensamento definidor e além da expressão formuladora. “A Mente não chega até aqui, nem a linguagem” [3].  E no entanto, como é possível exagerar, com os Ilusionistas, a irrealidade da aparência, também é possível exagerar a incognoscibilidade do Incognoscível. Quando falamos dele como Incognoscível, queremos dizer, na realidade, que ele escapa ao alcance de nosso pensamento e de nosso discurso, instrumentos que procedem sempre pela diferenciação e expressam em forma de definição; mas, se não é cognoscível pelo pensamento, Ele é alcançável por um supremo esforço de consciência. Existe, inclusive, um gênero de conhecimento que é uno com a Identidade e através do qual, num certo sentido, Ele pode ser conhecido. Certamente, esse Conhecimento não pode ser reproduzido exitosamente em termos de pensamento e linguagem, mas, quando o alcançamos, o resultado é uma reavaliação d’Aquilo com os símbolos de nossa consciência cósmica, não só com um, mas com todas as cadeias de símbolos, o que culmina numa revolução de nosso ser interno e, através do interno, de nossa vida externa. Além disso, há também um gênero de conhecimento através do qual Aquilo se revela com todos os nomes e formas da existência fenomênica, que, para a inteligência ordinária, apenas O oculta. É esse processo superior mas não supremo do Conhecimento que podemos alcançar passando dos limites da fórmula materialista e escrutando Vida, Mente e Supramente nos fenômenos que são característicos delas, e não meramente naqueles  movimentos subordinados pelos quais eles se ligam à Matéria.
O Desconhecido não é o Incognoscível [4]; ele não necessita permanecer desconhecido para nós, a menos que optemos pela ignorância ou persistamos em nossas limitações primeiras. Pois, a todas as coisas que não são incognoscíveis todas as coisas no universo, correspondem, nesse universo, faculdades pelas quais se pode  tomar conhecimento delas,e no homem, o microcosmo, essas faculdades são sempre existentes e, num certo estágio, capazes de desenvolvimento. Podemos optar por não desenvolvê-las; onde estão parcialmente desenvolvidas, podemos desencorajá-las e impor nelas uma espécie de atrofia. Mas, fundamentalmente, todo conhecimento possível é um conhecimento acessível à humanidade. E como no homem há o impulso inalienável da Natureza em prol da auto-realização, nenhuma luta do intelecto para limitar a ação de nossas capacidades, numa determinada área, pode  prevalecer para sempre.  Quando tivermos experimentado a Matéria e percebido suas secretas possibilidades, o verdadeiro conhecimento – para o qual foi conveniente aquela temporária limitação de faculdades – vai gritar-nos, como os Guardiões Védicos: "Para diante agora,avance também em outros campos [5]."
Se o Materialismo moderno fosse simplesmente uma ignorante aceitação da vida material, o avanço seria infinitamente adiado. Mas como sua verdadeira alma é a busca do Conhecimento, será incapaz de pedir parada; no momento em que alcançar as barreiras entre sensação e conhecimento, e o raciocínio a partir de sensação –conhecimento, seu próprio ímpeto o levará além, e a rapidez e a segurança com que abraçou o universo visível é apenas um avanço de energia e êxito que esperamos que se repita na conquista do que vem adiante, uma vez que foi dado o passo para cruzar a barreira. Já vemos esse avanço em seus obscuros começos.
Não só em sua concepção final, mas na grande linha de seu resultado geral, o Conhecimento, em qualquer caminho que tome, tende a se tornar uno. Nada é mais notável e sugestivo que a extensão até a qual a Ciência moderna confirma, no campo da Matéria, as concepções e até as fórmulas de linguagem a que se chegou por um método muito diferente, no Vedanta – o Vedanta original, não o das escolas de filosofia metafísica, e sim o dos Upanishads. E estes, por outro lado, muitas vezes só revelam seu completo significado, seus conteúdos mais ricos, quando são vistos à nova luz emitida pelas descobertas da moderna Ciência – por exemplo, aquela expressão Vedântica que descreve as coisas no Cosmos como uma semente disposta pela Energia universal em múltiplas formas [6].  Especialmente significativo é o esforço da Ciência em  direção a um Monismo que é compatível com a multiplicidade, em direção à idéia Védica da essência una com suas múltiplas derivações. Mesmo se insistirmos na aparência dualística de Matéria e Força, isso não se coaduna com esse Monismo. Pois se tornará evidente que a Matéria essencial é algo inexistente para os sentidos, e é apenas, como o Pradhana dos Sankhias, uma forma conceitual de substância; e, de fato, é cada vez mais firme a conclusão de que apenas uma distinção arbitrária do pensamento  separa a forma da substância da forma da energia.
A Matéria se expressa a si mesma, por fim, como a formulação de alguma Força desconhecida. A Vida também, aquele  mistério insondado, começa a revelar-se como uma obscura energia de sensibilidade aprisionada em sua formulação material; e quando a ignorância divisória for curada, aquela que nos dá a sensação de um abismo entre Vida  Matéria,será difícil supor que Mente, Vida e Matéria sejam outra coisa senão uma Energia triplamente formulada, o triplo mundo dos profetas védicos.Também não poderá persistir o conceito de uma força bruta material como a mãe da Mente. A Energia que cria o mundo só pode ser nada mais que uma Vontade, e Vontade é apenas consciência aplicada a um trabalho e a um resultado.
Que são esse trabalho e esse resultado, senão uma auto-involução da Consciência na forma e uma auto-evolução fora da forma, como que para realizar alguma poderosa possibilidade no universo que ela criou? E o que é essa Vontade no Homem senão a vontade de ter  Vida infinita, Conhecimento ilimitado, Poder sem amarras? A própria ciência começa a sonhar com a conquista física da morte, expressa uma sede insaciável de conhecimento, está realizando algo como uma onipotência terrestre para a humanidade. O Espaço e o Tempo estão se até o ponto de fuga *, lutando de cem modos distintos para fazer do homem o mestre das circunstâncias e, assim, iluminar os grilhões da causalidade. A idéia do limite, do impossível, começa a surgir meio indistintamente,e o que aparece, em vez dela, é que o que quer que o homem deseje constantemente, ele será ao final capaz de realizar; porque a consciência da espécie finalmente achará os meios.  E ainda quando olhamos mais profundamente, não é qualquer Vontade consciente da coletividade, mas um Poder supraconsciente que usa o indivíduo como centro e meio, e a coletividade como condição e campo. E o que é isso, senão Deus no homem, a Identidade infinita,a Unidade múltipla, o Onisciente, o Onipotente que, tendo feito o homem à Sua própria imagem, com o ego como centro de funcionamento, com a espécie, o coletivo Narayana [7], o vi´svamãnava [8] como molde e circunscrição, procura expressar nestes alguma imagem da unidade, da onisciência, da onipotência que são a auto-concepção do Divino? “O que é imortal nos mortais é um Deus, estabelecido intimamente como uma energia operando em nossos poderes divinos” [9]. É a esse vasto impulso cósmico que o mundo moderno, sem conhecer suficientemente seu próprio objetivo, ainda serve, em todas as suas atividade e labores, subconscientemente, para realizá-lo.
Mas há sempre um limite e um entrave  - o limite do campo material no Conhecimento, o entrave do a maquinário material no Poder. No entanto, aqui também  a última tendência é altamente significativa de um futuro mais livre. Assim como os postos avançados do conhecimento Científico se assentam cada vez mais nas fronteiras que separam o material do imaterial, também as mais altas conquistas Da Ciência prática são as que tendem a simplificar e reduzir ao ponto de fuga* o maquinário pelo qual os maiores efeitos são produzidos. A telegrafia sem fio é um sinal exterior da Natureza e um pretexto para uma nova orientação. O meio físico sensível para a transmissão intermediária da força física é removido; só é preservado nos pontos de impulsão e recepção. Com o tempo, até estes vão desaparecer; pois, quando as leis e as forças do suprafísico forem estudadas do correto ponto de partida, infalivelmente será encontrado pela Mente, diretamente, o meio de aproveitar a energia física e despachá-la velozmente, com exatidão, conforme a sua ordem. Aí – se pudermos reconhecê-los – estão os portões que se abrem em direção às enormes perspectivas do futuro.
Mas, mesmo se tivéssemos o conhecimento completo e o controle dos mundos imediatamente acima da Matéria, ainda haveria uma limitação e ainda um além. O último nó de nossa escravidão está no ponto em que o externo puxa para uma unidade com o interno, o maquinário do próprio ego se sutiliza até o ponto de fuga(*) e a lei de nossa ação é, por fim, unidade abraçando e possuindo a multiplicidade, e não mais, como agora, multiplicidade lutando contra alguma imagem da unidade. Aí está o trono central do Conhecimento cósmico contemplando seu mais vasto domínio; aí o Império de si mesmo com o império do seu mundo [10]; aí a vida no Ser eternamente consumado [11] e a realização de Sua divina natureza [12] em nossa existência humana.

Notas:
(*) Vanishing-point significa ponto de fuga, se retiramos o traço fica “vanishing point” – ponto de desaparecimento. Se o autor aplicou-se em colocar o traço, é porque, evidentemente, queria ressaltar a diferença, e não quer dizer, como sucede em alguma tradução, que o Tempo e o Espaço desaparecem (primeiro dos asteriscos).Preferimos deixar a tradução literal, já que essa expressão pode sugerir diversas interpretações. Ponto de fuga, para o desenho técnico, na projeção cônica, é o ponto sobre o horizonte, para o qual se dirigem todas as linhas horizontais, quebrando o seu paralelismo, para dar a sensação de profundidade, e, ao mesmo tempo, é o ponto-de-vista do observador; seria, ao mesmo tempo, o zero e o infinito. A contração do campo espaço-temporal parece indicar uma qualidade do mesmo, como a possibilidade de acelerar a evolução humana, acelerando a chegada do futuro.
O dicionário de termos hindus da Sociedade Teosófica diz sobre o zero:
“Seu símbolo, o círculo, representa ao mesmo tempo nada e tudo; é o símbolo do infinito ilimitado; e um círculo pode ser definido como uma única linha não-dividida e não-terminada, ou como um número infinito de linhas infinitamente curtas. Os finais se encontram, não há nenhuma diferença essencial entre o infinitamente grande e o infinitesimal. O ponto zero é o ponto de fuga, o laya ou   estado neutro. Em matemática, esta é a posição neutra entre a série de números negativos e positivos. É também o estado neutro da matéria entre dois planos; quando a matéria física é reduzida a zero ou ao estado laya, ela está pronta a manifestar-se sobre o plano seguinte, mais alto, ou vice-versa. O mesmo se aplica à consciência e a seus planos.
Damos importância a esta nota porque, nos últimos parágrafos deste capítulo, a expressão “vanishing-point”, que só aparece três vezes em toda “A Vida divina”,precisamente aparece as citadas vezes na página anterior a esta nota, sem voltar a ser citada em toda a obra, havendo sido sublinhada pelo tradutor, não aparecendo esse sublinhado no original.
[1] III.1, 2.
[2] "Padbhyám prthví" - Mundaka Upanishad. II. 1. 4.
“PrithivI pájasyam" - Brihadaranyaka Upanishad. I. 1. 1.
[3] Kena Upanishad. I.3.
[4] Isso difere do conhecido; também está acima do desconhecido - Kena Upanishad. I.3.
[5] Rig Veda. I. 4. 5.
[6] Swetaswatara Upanishad. VI. 12.
[7] Um dos nomes de Vishnu, que, como o Deus no homem, vive constantemente associado em unidade dual com Nara, o ser humano.
[8] O homem universal.
[9] Rig Veda. IV.2.1.
[10] Svárajya y Sámrájya, o duplo objetivo proposto a si mesmo pelo