Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capítulo II

Capítulo II

AS DUAS NEGAÇÕES
1
A negação materialista

Ele colocou em ação a força-consciente (na austeridade do pensamento) e chegou ao conhecimento de que a Matéria é o Brahman. Pois da Matéria nascem todas as existências; uma vez nascidas, através da Matéria elas crescem, e por isso entram na Matéria em sua passagem. Então ele foi até Varuna, seu pai, e disse: “Senhor, ensine-me sobre o Brahman.” Mas seu pai lhe respondeu: “Aciona (novamente) a energia-consciente em ti; pois a energia é Brahman”.
Taittiriya Upanishad [1]

A afirmação de uma vida divina sobre a Terra e de um sentido imortal na existência mortal pode carecer de fundamento a não ser que reconheçamos não apenas o Espírito eterno como habitante desta mansão corpórea, o usuário desta vestimenta mutável, como também que aceitemos a Matéria de que ela está feita, como material apropriado e nobre com que Ele tece constantemente seus Trajes, e constrói incansavelmente a série interminável de Suas mansões.
Isso tampouco é suficiente para nos precavermos contra um retrair-se da vida no corpo, a não ser que, como os Upanishads, percebendo por trás das aparências a identidade em essência desses dois termos extremos da existência, possamos dizer, na mesma linguagem daqueles antigos escritos: “A Matéria também é o Brahman”, e conceder pleno valor à vigorosa figura com que o universo físico é descrito, como o corpo externo do Ser divino. Tampouco – tão separados, aparentemente, estão estes dois termos extremos – consegue essa identificação convencer o intelecto racional, se recusamo-nos a reconhecer uma série de termos ascendentes (Vida, Mente, Supramente e os graus que vinculam a Mente com a Supramente), que estão entre Espírito e Matéria.  Ao contrário, ambos aparecerão como oponentes inconciliáveis ligados por um infeliz matrimônio, sendo o divórcio a única solução razoável. Identificá-los, representar cada um nos termos do outro, se torna uma criação artificial do Pensamento, oposta à lógica dos fatos e só possível mediante um irracional misticismo.
Se afirmamos que só existe um Espírito puro e uma substância ou energia mecânica carente de inteligência, chamando ao primeiro Deus e à segunda Natureza, o inevitável fim será negarmos Deus ou dar às costas à Natureza. Tanto para o Pensamento como para a Vida, torna-se imperativa uma escolha. O Pensamento vai negar a Deus como ilusão da imaginação ou à Natureza como ilusão dos sentidos; A Vida vai fixar-se no imaterial e fugir de si mesma com desgosto ou cair num êxtase de auto-esquecimento, ou então negar sua própria imortalidade e orientar-se para longe de deus e em direção ao animal. Purusha e Prakriti, a passivamente luminosa Alma dos Sankhyas e sua Energia mecanicamente ativa, nada têm em comum, nem mesmo seus modos opostos de inércia; suas antinomias só podem ser resolvidas mediante a cessação da Atividade inertemente dirigida, dissolvendo-se no imutável Repouso sobre o qual o estéril cortejo de suas imagens foi projetado em vão. O mudo Shankara, o inativo Eu e sua Maya de muitos nomes e formas são igualmente entidades díspares e inconciliáveis; seu rígido antagonismo só pode terminar pela dissolução da múltipla ilusão na Verdade única de um Silêncio eterno.
O materialista tem diante de si uma tarefa mais fácil; é-lhe possível  negar o Espírito, para chegar a uma mais convincente simplicidade de  afirmação, um Monismo real, o Monismo da Matéria ou da Força. Mas é-lhe impossível persistir permanentemente nessa rigidez de critério. Ele também acaba por pressupor o incognoscível inerte, tão distante do universo conhecido como o passivo Purusha ou o silencioso Atman. Isso não tem nenhum propósito salvo o de adiar – por uma vaga concessão – as inexoráveis exigências do Pensamento, ou servir como desculpa para a recusa em estender os limites da investigação.
Por isso, nessas contradições estéreis, a mente humana não pode descansar satisfeita. Ela deve sempre buscar uma afirmação completa, e só pode encontrá-la mediante uma luminosa reconciliação entre Matéria e Espírito. Para alcançar essa reconciliação, deve passar pelos graus que nossa consciência interior nos impõe e, seja pelo método objetivo de análise aplicado à Vida e à Mente, seja pela síntese e a iluminação subjetivas, chegar ao repouso da unidade última sem negar a energia da multiplicidade manifesta.  Somente com essa completa e universal afirmação podem harmonizar-se todos os multiformes e aparentemente contraditórios dados da existência, e as múltiplas forças em conflito que governam nosso pensamento e nossa vida podem descobrir a Verdade central que aqui simbolizam e de várias formas realizam. Só então nosso Pensamento pode, tendo alcançado um verdadeiro centro, cessar de andar em círculos, trabalhar como o Brahman do Upanishad, fixo e estável  mesmo em sua forma lúdica e em sua corrida mundial, e nossa vida, conhecendo  seu objetivo, servi-lo com firme e serena alegria e luz, assim como com uma energia ritmicamente discursiva.
Mas quando esse ritmo for perturbado, será necessário e útil que o homem teste separadamente, em sua afirmação extrema, cada um dos dois grandes opostos. Esse é o meio natural da mente de retornar mais perfeitamente à afirmação que perdeu. No meio do caminho pode tentar descansar nos graus intermediários, reduzindo todas as coisas aos termos de uma Vida-Energia original, de sensação ou de Idéias; porém todas essas soluções excludentes têm sempre um ar de irrealidade.  Podem, por um tempo, satisfazer a razão lógica, que só trabalha com idéias puras, mas não podem satisfazer o sentido de realidade da mente. Pois a mente sabe que existe algo atrás de si que não é a Idéia, sabe, por outro lado, que dentro de si há algo que é mais que a Respiração vital. Tanto o Espírito como a Matéria podem oferecer, transitoriamente, um sentido de realidade última; não pode fazê-lo qualquer dos princípios intermediários. Por  isso, eles devem dirigir-se aos dois extremos antes de regressar frutiferamente ao todo. Pois, por sua própria natureza – servido por um sentido que só pode perceber com clareza as partes da existência e por uma linguagem que, igualmente, só pode obter clareza quando cuidadosamente separa e limita – o intelecto é dirigido, tendo diante de si essa multiplicidade de princípios elementais, a buscar a unidade reduzindo tudo, rudemente, aos termos de um.  Para afirmar esse um,  tenta praticamente desembaraçar-se dos outros. Para perceber a verdadeira fonte de identidade desses princípios sem esse processo excludente, ele deve ou ter  ultrapassado a si mesmo ou ter completado o circuito apenas para descobrir que todos se reduzem igualmente a Aquilo, que escapa a definições ou descrições e que não só é real mas também alcançável. Qualquer que seja o caminho por onde viajemos,  Aquilo é sempre a meta que alcançaremos, e só podemos evitá-la se recusar-mo-nos a completar o trajeto.
Por isso, é de bom augúrio que, após muitos experimentos e soluções verbais,nós nos encontremos  agora em presença em presença dos dois que suportaram sozinhos,durante muito tempo, as mais rigorosas provas de experiência, os dois extremos; e que ao final da experiência ambos tenham chegado a um resultado que o instinto universal da humanidade – esse juiz oculto,sentinela e representante do Espírito da Verdade universal – se recusa a aceitar como correto ou satisfatório. Na Europa e na Índia, respectivamente, a negação do materialista e a recusa do asceta procuraram afirmar-se como verdade única e dominar a concepção de vida. Na Índia, se o resultado se constituiu numa grande acumulação dos tesouros do Espírito – ou de alguns deles – também representou uma grande falência da Vida; na Europa, a abundância de riquezas e o domínio triunfante dos poderes e posses deste mundo progrediu rumo a uma igual bancarrota nas coisas do Espírito. Nem o intelecto, que buscava a solução de todos os problemas no termo único da Matéria, encontrou satisfação na resposta que recebeu.
Por isso, o tempo faz amadurecer e a tendência mundial se move em direção a uma nova e compreensiva afirmação no que concerne ao pensamento e à experiência interna e externa, e ao seu corolário, uma nova e rica auto-realização numa existência humana integral, para o indivíduo e para a espécie.
Da diferença nas relações de Espírito e Matéria com o Incognoscível que ambos representam, surge uma diferença de eficácia nas negações material e espiritual. A negação do materialista, embora mais insistente e de sucesso imediato, mais fácil em seu apelo à generalidade da espécie humana, é no entanto menos durável, menos efetiva, finalmente, que a absorvente e perigosa recusa do asceta. Pois carrega em si mesma a sua própria cura. Seu elemento mais poderoso é o Agnosticismo, que, admitindo o Incognoscível por trás de toda manifestação, estende os limites do incognoscível até a compreensão do que é meramente desconhecido. Sua premissa é  que os sentidos físicos são a nossa única forma de Conhecimento, e que a Razão, por isso, mesmo em seus mais extensos e vigorosos vôos, não pode escapar para além de seu domínio; ela tem que lidar sempre e somente com os fatos que eles fornecem ou sugerem; e mesmo as sugestões devem sempre estar vinculadas às suas origens; não se pode ir além, não podemos usá-las como uma ponte para um domínio em que faculdades mais poderosas e menos limitadas entrem em ação e outro tipo de investigação tenha que ser instituído.
Uma premissa tão arbitrária contém em si mesma sua própria declaração de insuficiência. Só pode ser mantida ignorando-se ou descartando todo o vasto campo de evidência e experiência que a contradiz, negando ou minimizando nobres e úteis faculdades, ativas consciente ou obscuramente ou, no pior dos casos, latentes em todo ser humano, e recusando-se a investigar fenômenos suprafísicos, exceto se manifestados em relação com a matéria e seus movimentos e concebidos como uma atividade subordinada às forças materiais. Assim que começamos a investigar as operações da mente da supramente, nelas mesmas e sem o preconceito, determinado desde o início, de ver nelas apenas um termo subordinado da Matéria, entramos em contato com um conjunto de fenômenos que escapam inteiramente ao controle rígido, ao dogmatismo limitador da fórmula materialista. E no momento em que reconhecemos - pois nossa ampla experiência nos compele a reconhecer – que existem no universo realidades cognoscíveis que estão além do alcance dos sentidos e no homem poderes e faculdades que determinam, em vez de serem determinados pelos órgãos materiais através dos quais eles mantém contato com os com o mundo dos sentidos – essa concha externa de nossa verdadeira e completa existência - a premissa do Agnosticismo materialista desaparece. Estamos prontos para uma afirmação maior e uma investigação sempre em desenvolvimento.
Mas, primeiro, é bom que reconheçamos a enorme, a indispensável utilidade do breve período de Materialismo racionalista pelo qual a humanidade esteve passando. Pois esse  vasto campo de evidência e experiência, que  agora começa a reabrir seus portões para nós, só pode ser adentrado com segurança quando o intelecto foi severamente treinado para uma clara austeridade; se adentrado por mentes imaturas, prestar-se-á  a perigosas distorções e idéias enganosas, e, realmente, no passado, incrustou-se um real núcleo de verdade com tal acréscimo de superstições deturpantes e dogmas irracionalizantes, que tornou-se impossível qualquer avanço em direção ao verdadeiro conhecimento. Tornou-se necessário, por  um certo tempo, fazer uma limpeza completa da verdade e de sua máscara, com a intenção de clarear o caminho para uma nova partida e um avanço mais seguro. A tendência racionalista do Materialismo rendeu à humanidade esse grande serviço.
Pois as faculdades que transcendem os sentidos, pelo próprio fato de estarem imersas na Matéria, destinadas a trabalhar num corpo físico, com os arreios postos para dirigir um carro em que também atuam os desejos emocionais e os impulsos nervosos, estão expostas a um funcionamento misto, em que correm o risco de iluminar a confusão em vez de esclarecer a verdade. Esse funcionamento misto resulta especialmente perigoso quando homens com mentes  indisciplinadas e sensibilidades impuras tentam escalar os domínios mais altos da experiência espiritual. Em que regiões de nuvens insubstanciais e névoa semibrilhante, ou trevas visitadas por clarões que cegam mais do que iluminam, eles não se perderiam nessa aventura prematura e temerária! Uma aventura certamente necessária dado o modo como a Natureza escolheu  efetuar seu avanço – pois ela se diverte enquanto trabalha – porém ainda, para a Razão, prematura e temerária.
É necessário, por isso, que o Conhecimento que avança tenha sua base sobre um intelecto claro, puro e disciplinado. É necessário, também, que ele corrija seus erros mediante um retorno, às vezes, às restrições do fato sensível, as realidades concretas do  mundo físico. O toque terreno é sempre revigorante para o filho da Terra, mesmo quando ele busca um Conhecimento suprafísico. Pode ser dito também que o suprafísico só pode ser dominado completamente – até as alturas que sempre podemos  alcançar – quando mantemos os pés firmemente pregados no físico. “A Terra é  a Sua base” [2], diz o Upanishad sempre que representa o Eu que se manifesta no universo. E      é certo que, quanto mais ampliamos e tornamos seguro nosso conhecimento do mundo físico, mais amplo e seguro será o nosso fundamento para obter o conhecimento superior, mesmo o mais alto, mesmo o Brahmavidya.
Por isso, ao emergir do período materialista do Conhecimento humano, devemos ter o cuidado de não condenar temerariamente o que estamos deixando para trás ou descartando, nem mesmo uma partícula de suas conquistas, antes que possamos dispor de percepções e poderes bem seguros para ocupar o seu lugar. Ao invés disso, deveríamos observar com respeito e admiração o que o trabalho que o Ateísmo fez pelo Divino e admirar o serviço que o Agnosticismo rendeu, preparando o crescimento ilimitável do conhecimento. Em nosso mundo, o erro é continuamente o servidor e o ‘achador do caminho’ da Verdade;  pois o erro é na realidade uma meia-verdade que tropeça por causa de suas limitações; muitas vezes é a Verdade que usa um disfarce para chegar, sem ser percebida, ao seu objetivo. Estaria bem se o erro pudesse ser sempre,  como foi no grande período que estamos deixando para trás, o fiel servidor, severo, consciencioso, honrado, brilhante dentro de seus limites, uma meia-verdade e não uma irrefletida e presunçosa aberração.
Certo gênero de Agnosticismo é a verdade final de todo o conhecimento. Pois quando chegamos ao final de qualquer caminho, o universo aparece como apenas um símbolo ou a aparência de uma realidade incognoscível que se traduz aqui em diferentes sistemas de valores, valores físicos, valores vitais e sensoriais, valores intelectuais, ideais e espirituais. Quanto mais Aquilo se torna real para nós, mais parece estar sempre além do pensamento definidor e além da expressão formuladora. “A Mente não chega até aqui, nem a linguagem” [3].  E no entanto, como é possível exagerar, com os Ilusionistas, a irrealidade da aparência, também é possível exagerar a incognoscibilidade do Incognoscível. Quando falamos dele como Incognoscível, queremos dizer, na realidade, que ele escapa ao alcance de nosso pensamento e de nosso discurso, instrumentos que procedem sempre pela diferenciação e expressam em forma de definição; mas, se não é cognoscível pelo pensamento, Ele é alcançável por um supremo esforço de consciência. Existe, inclusive, um gênero de conhecimento que é uno com a Identidade e através do qual, num certo sentido, Ele pode ser conhecido. Certamente, esse Conhecimento não pode ser reproduzido exitosamente em termos de pensamento e linguagem, mas, quando o alcançamos, o resultado é uma reavaliação d’Aquilo com os símbolos de nossa consciência cósmica, não só com um, mas com todas as cadeias de símbolos, o que culmina numa revolução de nosso ser interno e, através do interno, de nossa vida externa. Além disso, há também um gênero de conhecimento através do qual Aquilo se revela com todos os nomes e formas da existência fenomênica, que, para a inteligência ordinária, apenas O oculta. É esse processo superior mas não supremo do Conhecimento que podemos alcançar passando dos limites da fórmula materialista e escrutando Vida, Mente e Supramente nos fenômenos que são característicos delas, e não meramente naqueles  movimentos subordinados pelos quais eles se ligam à Matéria.
O Desconhecido não é o Incognoscível [4]; ele não necessita permanecer desconhecido para nós, a menos que optemos pela ignorância ou persistamos em nossas limitações primeiras. Pois, a todas as coisas que não são incognoscíveis todas as coisas no universo, correspondem, nesse universo, faculdades pelas quais se pode  tomar conhecimento delas,e no homem, o microcosmo, essas faculdades são sempre existentes e, num certo estágio, capazes de desenvolvimento. Podemos optar por não desenvolvê-las; onde estão parcialmente desenvolvidas, podemos desencorajá-las e impor nelas uma espécie de atrofia. Mas, fundamentalmente, todo conhecimento possível é um conhecimento acessível à humanidade. E como no homem há o impulso inalienável da Natureza em prol da auto-realização, nenhuma luta do intelecto para limitar a ação de nossas capacidades, numa determinada área, pode  prevalecer para sempre.  Quando tivermos experimentado a Matéria e percebido suas secretas possibilidades, o verdadeiro conhecimento – para o qual foi conveniente aquela temporária limitação de faculdades – vai gritar-nos, como os Guardiões Védicos: "Para diante agora,avance também em outros campos [5]."
Se o Materialismo moderno fosse simplesmente uma ignorante aceitação da vida material, o avanço seria infinitamente adiado. Mas como sua verdadeira alma é a busca do Conhecimento, será incapaz de pedir parada; no momento em que alcançar as barreiras entre sensação e conhecimento, e o raciocínio a partir de sensação –conhecimento, seu próprio ímpeto o levará além, e a rapidez e a segurança com que abraçou o universo visível é apenas um avanço de energia e êxito que esperamos que se repita na conquista do que vem adiante, uma vez que foi dado o passo para cruzar a barreira. Já vemos esse avanço em seus obscuros começos.
Não só em sua concepção final, mas na grande linha de seu resultado geral, o Conhecimento, em qualquer caminho que tome, tende a se tornar uno. Nada é mais notável e sugestivo que a extensão até a qual a Ciência moderna confirma, no campo da Matéria, as concepções e até as fórmulas de linguagem a que se chegou por um método muito diferente, no Vedanta – o Vedanta original, não o das escolas de filosofia metafísica, e sim o dos Upanishads. E estes, por outro lado, muitas vezes só revelam seu completo significado, seus conteúdos mais ricos, quando são vistos à nova luz emitida pelas descobertas da moderna Ciência – por exemplo, aquela expressão Vedântica que descreve as coisas no Cosmos como uma semente disposta pela Energia universal em múltiplas formas [6].  Especialmente significativo é o esforço da Ciência em  direção a um Monismo que é compatível com a multiplicidade, em direção à idéia Védica da essência una com suas múltiplas derivações. Mesmo se insistirmos na aparência dualística de Matéria e Força, isso não se coaduna com esse Monismo. Pois se tornará evidente que a Matéria essencial é algo inexistente para os sentidos, e é apenas, como o Pradhana dos Sankhias, uma forma conceitual de substância; e, de fato, é cada vez mais firme a conclusão de que apenas uma distinção arbitrária do pensamento  separa a forma da substância da forma da energia.
A Matéria se expressa a si mesma, por fim, como a formulação de alguma Força desconhecida. A Vida também, aquele  mistério insondado, começa a revelar-se como uma obscura energia de sensibilidade aprisionada em sua formulação material; e quando a ignorância divisória for curada, aquela que nos dá a sensação de um abismo entre Vida  Matéria,será difícil supor que Mente, Vida e Matéria sejam outra coisa senão uma Energia triplamente formulada, o triplo mundo dos profetas védicos.Também não poderá persistir o conceito de uma força bruta material como a mãe da Mente. A Energia que cria o mundo só pode ser nada mais que uma Vontade, e Vontade é apenas consciência aplicada a um trabalho e a um resultado.
Que são esse trabalho e esse resultado, senão uma auto-involução da Consciência na forma e uma auto-evolução fora da forma, como que para realizar alguma poderosa possibilidade no universo que ela criou? E o que é essa Vontade no Homem senão a vontade de ter  Vida infinita, Conhecimento ilimitado, Poder sem amarras? A própria ciência começa a sonhar com a conquista física da morte, expressa uma sede insaciável de conhecimento, está realizando algo como uma onipotência terrestre para a humanidade. O Espaço e o Tempo estão se até o ponto de fuga *, lutando de cem modos distintos para fazer do homem o mestre das circunstâncias e, assim, iluminar os grilhões da causalidade. A idéia do limite, do impossível, começa a surgir meio indistintamente,e o que aparece, em vez dela, é que o que quer que o homem deseje constantemente, ele será ao final capaz de realizar; porque a consciência da espécie finalmente achará os meios.  E ainda quando olhamos mais profundamente, não é qualquer Vontade consciente da coletividade, mas um Poder supraconsciente que usa o indivíduo como centro e meio, e a coletividade como condição e campo. E o que é isso, senão Deus no homem, a Identidade infinita,a Unidade múltipla, o Onisciente, o Onipotente que, tendo feito o homem à Sua própria imagem, com o ego como centro de funcionamento, com a espécie, o coletivo Narayana [7], o vi´svamãnava [8] como molde e circunscrição, procura expressar nestes alguma imagem da unidade, da onisciência, da onipotência que são a auto-concepção do Divino? “O que é imortal nos mortais é um Deus, estabelecido intimamente como uma energia operando em nossos poderes divinos” [9]. É a esse vasto impulso cósmico que o mundo moderno, sem conhecer suficientemente seu próprio objetivo, ainda serve, em todas as suas atividade e labores, subconscientemente, para realizá-lo.
Mas há sempre um limite e um entrave  - o limite do campo material no Conhecimento, o entrave do a maquinário material no Poder. No entanto, aqui também  a última tendência é altamente significativa de um futuro mais livre. Assim como os postos avançados do conhecimento Científico se assentam cada vez mais nas fronteiras que separam o material do imaterial, também as mais altas conquistas Da Ciência prática são as que tendem a simplificar e reduzir ao ponto de fuga* o maquinário pelo qual os maiores efeitos são produzidos. A telegrafia sem fio é um sinal exterior da Natureza e um pretexto para uma nova orientação. O meio físico sensível para a transmissão intermediária da força física é removido; só é preservado nos pontos de impulsão e recepção. Com o tempo, até estes vão desaparecer; pois, quando as leis e as forças do suprafísico forem estudadas do correto ponto de partida, infalivelmente será encontrado pela Mente, diretamente, o meio de aproveitar a energia física e despachá-la velozmente, com exatidão, conforme a sua ordem. Aí – se pudermos reconhecê-los – estão os portões que se abrem em direção às enormes perspectivas do futuro.
Mas, mesmo se tivéssemos o conhecimento completo e o controle dos mundos imediatamente acima da Matéria, ainda haveria uma limitação e ainda um além. O último nó de nossa escravidão está no ponto em que o externo puxa para uma unidade com o interno, o maquinário do próprio ego se sutiliza até o ponto de fuga(*) e a lei de nossa ação é, por fim, unidade abraçando e possuindo a multiplicidade, e não mais, como agora, multiplicidade lutando contra alguma imagem da unidade. Aí está o trono central do Conhecimento cósmico contemplando seu mais vasto domínio; aí o Império de si mesmo com o império do seu mundo [10]; aí a vida no Ser eternamente consumado [11] e a realização de Sua divina natureza [12] em nossa existência humana.

Notas:
(*) Vanishing-point significa ponto de fuga, se retiramos o traço fica “vanishing point” – ponto de desaparecimento. Se o autor aplicou-se em colocar o traço, é porque, evidentemente, queria ressaltar a diferença, e não quer dizer, como sucede em alguma tradução, que o Tempo e o Espaço desaparecem (primeiro dos asteriscos).Preferimos deixar a tradução literal, já que essa expressão pode sugerir diversas interpretações. Ponto de fuga, para o desenho técnico, na projeção cônica, é o ponto sobre o horizonte, para o qual se dirigem todas as linhas horizontais, quebrando o seu paralelismo, para dar a sensação de profundidade, e, ao mesmo tempo, é o ponto-de-vista do observador; seria, ao mesmo tempo, o zero e o infinito. A contração do campo espaço-temporal parece indicar uma qualidade do mesmo, como a possibilidade de acelerar a evolução humana, acelerando a chegada do futuro.
O dicionário de termos hindus da Sociedade Teosófica diz sobre o zero:
“Seu símbolo, o círculo, representa ao mesmo tempo nada e tudo; é o símbolo do infinito ilimitado; e um círculo pode ser definido como uma única linha não-dividida e não-terminada, ou como um número infinito de linhas infinitamente curtas. Os finais se encontram, não há nenhuma diferença essencial entre o infinitamente grande e o infinitesimal. O ponto zero é o ponto de fuga, o laya ou   estado neutro. Em matemática, esta é a posição neutra entre a série de números negativos e positivos. É também o estado neutro da matéria entre dois planos; quando a matéria física é reduzida a zero ou ao estado laya, ela está pronta a manifestar-se sobre o plano seguinte, mais alto, ou vice-versa. O mesmo se aplica à consciência e a seus planos.
Damos importância a esta nota porque, nos últimos parágrafos deste capítulo, a expressão “vanishing-point”, que só aparece três vezes em toda “A Vida divina”,precisamente aparece as citadas vezes na página anterior a esta nota, sem voltar a ser citada em toda a obra, havendo sido sublinhada pelo tradutor, não aparecendo esse sublinhado no original.
[1] III.1, 2.
[2] "Padbhyám prthví" - Mundaka Upanishad. II. 1. 4.
“PrithivI pájasyam" - Brihadaranyaka Upanishad. I. 1. 1.
[3] Kena Upanishad. I.3.
[4] Isso difere do conhecido; também está acima do desconhecido - Kena Upanishad. I.3.
[5] Rig Veda. I. 4. 5.
[6] Swetaswatara Upanishad. VI. 12.
[7] Um dos nomes de Vishnu, que, como o Deus no homem, vive constantemente associado em unidade dual com Nara, o ser humano.
[8] O homem universal.
[9] Rig Veda. IV.2.1.
[10] Svárajya y Sámrájya, o duplo objetivo proposto a si mesmo pelo

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