Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capítulo I

 A ASPIRAÇÃO HUMANA


Ela marcha em direção à meta daqueles que vão mais adiante, é a primeira na eterna sucessão de alvoradas por chegar; Usha se expande manifestando tudo o que vive,  despertando alguém que morreu … Qual é seu alcance, quando harmoniza as alvoradas que já brilharam com as que agora devem refulgir? Deseja as antigas manhãs e as enche de luz; projetando para diante sua iluminação, entra em comunicação com o resto do que está por vir.
Kutsa Angirasa – Rig Veda [1]
São triplos aqueles supremos nascimentos desta força divina que está no mundo; são verdadeiros, são desejáveis; se desloca no Infinito e brilha puro, luminoso e pleno… O que é imortal nos mortais, e dotado da verdade, é um deus, estabelecido interiormente como uma energia, que opera em nossos poderes divinos… Torna-te espiritualmente elevada, oh Força, atravessa todos os véus, manifesta em nós as coisas de deus.
Vamadeva – Rig Veda [2]
A primitiva preocupação do homem em seus pen­samentos despertos, e o que parece sua inevitável e última inquietude - pois ela sobrevive aos mais prolongados períodos de ceticismo e retorna após cada banimento— é também a maior preocupação que seu pensamento pode conceber. Manifesta-se no prenúncio da Divindade, no impulso em direção à perfeição, na busca da pura Verdade e deleite não misto, no sentido de uma secreta imortalidade. As antigas auroras do conhecimento humano nos legaram o testemunho desta constante aspiração; hoje em dia vemos uma humanidade - saciada mas não satisfeita pela análise vitoriosa  das exterioridades da Natureza - preparando-se para retornar a seus primitivos anelos. A fórmula primitiva da Sabedoria promete ser a última: Deus, Luz, Liberdade, Imortalidade.


Estes ideais persistentes da espécie são, ao mesmo tempo, a contradição de sua experiência normal e a afirmação de experiências superiores e mais profundas que resultam anormais para a humanidade e só hão de obter-se, em sua inteireza organizada, mediante um esforço revolucionário ou um progresso evolutivo geral. Conhecer, possuir e constituir o divino ser em uma consciência animal e egoística [3], converter nossa sombria ou crepuscular mentalidade física na plena iluminação supramental, construir paz e felicidade auto-existentes ali onde só há tensão por conseguir satisfações transitórias, perante o assédio da dor física e sofrimento emocional, estabelecer uma liberdade infinita em um mundo que se apresenta como um grupo de necessidades mecânicas, descobrir e compreender a vida imortal num corpo sujeito à morte e a constantes mutações; tudo isto se nos oferece como a manifestação de Deus na matéria e meta da Natureza em sua evolução terrestre. Para o intelecto ma­terial comum, que crê que sua presente organização da consciência é o limite de suas possibilidades, a contradição direta dos ideais irrealizados com o fato realizado é um argumento final contra sua validade. Mas se tomamos uma visão mais reflexiva do trabalhar-do-mundo, essa contradição direta parece muito mais uma parte do profundíssimo método da Natureza e o selo de sua mais completa aprovação.
Pois todos os problemas da existência são, em essência, problemas de harmonia. Surgem da percepção de uma discórdia não-resolvida e da intuição de um não-descoberto acordo ou unidade. Repousar contente com uma discórdia não resolvida é possível para a parte prática e mais animal do homem, mas é impossível para sua mente plenamente desperta, e geralmente inclusive suas partes práticas só evitam a necessidade geral de harmonizar contrários evitando o problema ou aceitando um compromisso tosco, utilitário e não-iluminado. Pois essencialmente, toda a Natureza busca uma harmonia, vida e matéria em sua própria esfera, igualmente que a mente na organização de suas percepções. Quanto maior é a desordem aparente dos materiais oferecidos ou a aparente diferença essencial - até uma oposição irreconciliável - dos elementos que serão utilizados, mais forte é o estímulo, e este leva a uma ordem mais sutil e pujante do que aquela que seria o resultado de um esforço menor. O acordo ou combinação da Vida ativa com o material com que se forja a forma - no qual o estado de atividade por si mesma parece ser a inércia - é um problema de opostos que a Natureza resolveu, e procura sempre resolver melhor com maiores complexidades; pois a solução perfeita seria a imortalidade material do corpo animal plenamente orga­nizado que serve de sustento à mente. O acordo ou combinação de uma mente consciente e da vontade consciente como uma forma e uma vida não-abertamente conscientes de si mesmas e capazes, quan­do muito, de uma vontade mecânica ou subconsciente, é outro problema de opostos em que a Natureza produziu resul­tados assombrosos e que aponta sempre para maravilhas superiores; e seu último milagre seria uma consciência animal que já não marche em busca da Verdade e a Luz senão que as possua, com a onipotência que resultará da possessão de um conhecimento direto e aperfeiçoado. Então, não apenas é racional em si mesmo o impulso ascendente do homem direção à conformidade de opostos ainda mais elevados, como é também a única finalização lógica de uma regra e de um esforço que parecem ser o método fundamental da Natureza e o próprio sentido de seus esforços universais.
Falamos da evolução da Vida na Matéria, da evolução da Mente na Matéria; mas evolução é uma palavra que apenas assinala o fenômeno, sem explicá-lo. Pois aparentemente não há razão para a Vida evoluir a partir dos elementos materiais ou a Mente a partir da forma vivente, a menos que aceitemos a solução Vedântica de que a Vida já está envolta pela Matéria e a Mente pela Vida, porque, em essência, a Matéria é uma forma velada na Vida, e a Vida é uma forma velada da Consciência. Parece que, então, há escassa objeção a um passo mais adiante na séria e à aceitação da idéia de que a própria consciência mental é apenas uma forma e um véu de estados superiores de Consciência que estão além da Mente. Nesse caso, o indomável impulso do homem em direção a Deus, a Luz, a Bem-Aventurança,  a Liberdade e a Imortalidade, se apresenta em seu lugar correto na cadeia, do mesmo modo que o impulso imperativo pelo qual a Natureza busca evoluir além da Mente parece tão natural, verdadeiro e justo quanto o impulso em direção a Mente que a Natureza implantou em certas formas de Vida. Tal como lá, aqui o impulso existe - com uma série sempre ascendente no poder de seu querer-ser; tal como lá, aqui ele evolui gradual­mente e obriga à evolução plena dos órgãos e faculdades necessários. Assim como o impulso em direção à Mente parte das mais sensíveis reações da Vida no metal e na planta, subindo até a plena organização no homem, de igual maneira no próprio homem existe a mesma série ascendente, a preparação, se não algo mais, de uma vida superior e divina. O animal é um laboratório vi­vo no qual a Natureza elaborou o homem. O  próprio homem pode ser um laboratório pensante e vivo no qual, com sua cooperação consciente, a Natureza elaborará o super-homem, o deus. Ou melhor diremos que manifestará a Deus? Pois se a evolução é a progressiva manifestação, na Na­tureza, do que dormiu ou trabalhou nela desde dentro, envolto po ela, também é, igualmente, a realização aberta do que ela é secretamente. Então não podemos atribuir lentidão a uma dada etapa de sua evolução nem temos o direito de condenar qualquer intenção que ela ponha em relevo ou qualquer esforço que realiza para ir adiante, como fazem os fanáticos religiosos, qualificando tal intenção ou esforço como perverso e presun­çoso, ou os racionalistas, considerando esta intenção ou esforço como enfermidade ou alucinação. Se é verdade que o Espírito está envolto pela Matéria e que a Natureza aparente é o Deus secreto, então a manifestação do divino em si mesmo e a realização de Deus, dentro e fora, são o objetivo supremo e mais legítimo do homem sobre a terra.
Dessa maneira, o eterno paradoxo e a eterna verdade - de uma vida divina em um corpo animal, de uma aspiração imortal ou realidade que mora numa habitação mortal; de uma única, solitária e universal consciência que se apresenta em limitadas mentes e egos divididos; de um ser transcendente, indefinível, não sujeito ao tempo nem ao espaço, que por si só, faz possível o tempo, o espaço e o cosmos, e em todos estes, a verdade superior que é realizável por meio e desde o termo inferior- se justifica, tanto perante a reflexiva razão quanto perante o persistente instinto ou intuição da humanidade. Com frequência, efetuaram-se intentos - concretados em questões muitas vezes reputadas insolúveis  pelo pensamento lógico - procurando persuadir o homem a limitar suas ativida­des aos problemas práticos e imediatos de sua existência material no universo; mas essas evasões jamais foram permanentes em seu efeito. A humanidade retorna delas com um impulso mais veemente de investigação ou uma fome mais violenta de solução imediata. Através dessa fome medra o misticismo e surgem novas religiões para substituir as antigas, que foram destruídas ou despojadas de significado por um ceticismo que em si mesmo não pode satisfazer, pois, ainda que sua atividade fosse a investigação, deliberadamente não quis investigar o suficiente. A tentativa de negar ou afogar uma verdade porque ainda é obscura em sua estrutura externa - e mui frequentemente se acha representada por uma supers­tição obscurantista ou uma fé inculta - é em si mesma um gênero de obscurantismo.
A vontade de escapar à necessidade cósmica de investigar a Verdade - porque é árdua, difícil de justificar com resultados tangíveis imediatos, lenta em regularizar suas operações - deveria haver desembocado na não-aceitação da verdade da Natureza e em uma rebelião contra a secreta e mais poderosa vontade da grande Mãe. É melhor e mais racional aceitar que ela não nos permitirá, como espécie, rechaçar essa dita Verdade, e a elevará a partir da esfera do cego instinto, da obscura intuição e da esporádica aspiração até colocá-la dentro da luz da razão e de uma vontade instruída e conscientemente-guiando-se-a-si-mesma. E se existe qualquer luz superior de iluminada intuição ou verdade auto-reveladora, que agora está obstruída e inoperante no homem ou trabalha com lampejos intermitentes - como por trás de um véu ou com manifestações ocasionais, como as luzes do norte em nossos claros céus materiais - então também não precisamos ter medo de aspirar. Pois é possível que esse seja o próximo estado superior da consciência, do qual a Mente é apenas forma e véu, através dos esplendores dessa luz pode aparecer o caminho de nosso pro­gressivo auto-engrandecimento em qualquer estado supremo em que se ache o último lugar de descanso da humanidade.

[1] I. 113. 8. 10.
[2] IV. 1. 7; IV. 2; IV. 4. 5.
[3] A palavra inglesa é “egoistic” que poderia ser traduzida por “egoística” se estivesse admitida pela R.A.E., e reservar o termo “egoísta” para sua correspondente inglesa “egoist”, mas os termos aceitados na língua espanhola, como “egocêntrica” ou “egotista”, não são melhores, o termo optado para o espanhol: “egoísta”, e há que se ter em conta esta nota, pois o termo aparece frequentemente.





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