O movimento triplo de Sachchidananda tem fornecido a chave para a compreensão da integração
entre idealismo e materialismo; mas ainda não sabemos o processo pelo qual aquela Realidade tem
transformado a si própria nesse fenômeno:
"Nós temos a chave desse enigma, temos ainda que encontrar a fechadura em que ela irá girar. Pois
essa Existência, Consciência-Força, Deleite não atua diretamente ou com uma soberana
irresponsabilidade como um mágico erigindo mundos e universos pelo mero ‘fiat’ de suas palavras.
Nós percebemos um processo, nós estamos conscientes de uma lei." (1)
A Bíblia nos diz, "Deus disse, faça-se a Luz, e fez-se a luz". Quando dizemos "faça-se a Luz", nós
postulamos um ato de poder consciente que pode trazer luz para fora daquilo que não era luz.
Quando lemos "E fez-se a Luz", presumimos um ativo poder de consciência que produz o resultado.
Sri Aurobindo refere-se a esse poder (como o fizeram os antigos sábios védicos) como Maya (2).
Sri Aurobindo fala de duas mayas, a inferior (mental) e a superior (divina). Tradicionalmente, maya
era empregado como um termo abrangente referindo-se ao mundo como uma aparência sobreposta
a Brahman, portanto ilusório e enganador. Sri Aurobindo sustenta que a maya superior não é um
engano, é um poder criativo ou mediador entre o Uno Absoluto e o mundo de multiplicidade. Um
mediador é necessário entre os dois porque um ser infinito pode apenas produzir um mundo infinito.
O atributo transcendente do absoluto está além das palavras e é indescritível. No momento em que
atribuímos qualidades ou predicados a ele, nós impomos limitações. Contudo a maya superior pode
ser caracterizada pelos mais altos e menos limitantes atributos que conhecemos. Sri Aurobindo a
denomina o Puro Existente que é "a afirmação, pelo Incognoscível, de si mesmo como a base livre
de toda existência cósmica" (3). "Quando o Puro Existente é conhecido, então tudo é conhecido",
porque o Puro Existente é um e indivisível. Atrás de todo fenômeno está o Puro Existente, infinito
e indefinível. "Se todas as formas, quantidades, qualidades desaparecessem, este deveria
permanecer" (4).
Sri Aurobindo, fiel à sua desafeição por argumentos provindos da razão pura somente, diz, "nós
devemos julgar a existência não por aquilo que concebemos mentalmente, mas por aquilo que
vemos que existe" (5).
"Como a intuição fixa a si própria sobre somente aquilo que nós nos tornamos, nós vemos a nós
próprios como uma progressão contínua de movimento e transformação na consciência na eterna
sucessão do tempo... Mas há uma experiência suprema e uma suprema intuição pelas quais nos
retiramos para trás de nosso si superficial e percebemos que esse vir-a-ser, essa transformação,
sucessão, são apenas um modo de nosso ser e que há aquilo em nós que não está de maneira
nenhuma envolvido no vir-a-ser. Nós não apenas podemos ter a intuição disso que é estável e eterno
em nós, não apenas ter um vislumbre disso na experiência por detrás do véu do contínuo e
impermanente vir-a-ser, mas podemos nos retirar para dentro disso e viver nisso inteiramente,
efetuando assim uma mudança total em nossa vida exterior e em nossa atitude e em nossa ação
sobre os movimentos do mundo. E essa estabilidade na qual podemos assim viver é precisamente
aquela que a Razão pura já nos deu, embora possa ser alcançada sem argumentações, sem conhecer
previamente o que é ela - ela é existência pura, eterna, infinita, indefinível, não afetada pela
sucessão do Tempo, não envolvida na extensão de Espaço, além da forma, quantidade, qualidade, -
Si unicamente e absoluto." (6)
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Existem, então, dois fatos de existência pura; um fato de Ser e um fato de Vir-a-Ser (tornar-se).
Negar um ou outro, diz Sri Aurobindo, é fácil; reconhecer a realidade de ambos e estudar as
relações entre eles é sabedoria. "Estabilidade e movimento... são apenas nossa representação
psicológica do Absoluto, como também são unidade e multiplicidade" (7).
A questão agora surge; é o vir-a-ser simplesmente uma ininteligível energia de movimento ou é
uma força consciente? Essa é uma questão de importância, pois de sua resposta depende a validade
da colocação de Sri Aurobindo que as pessoas, como seres transitivos, têm um objetivo de viver no
mundo uma vida divina. Isso significa que o mundo e tudo nele têm um propósito divino.
Se, como diz o materialista, a existência não é consciente e a consciência é apenas um
desenvolvimento da energia material, como é possível derivar um ser consciente de uma força
inconsciente? Os materialistas dizem que tudo o que nós podemos pesquisar é a maneira e o
processo da manifestação e seu movimento.
"Sendo Existência e Força, ambas inertes, - status inerte e impulsão inerte, - ambas inconscientes e
não inteligentes, não pode haver qualquer propósito ou meta final na evolução, ou qualquer causa
ou intenção original." (3)
Investigação e experimentação progressivas apontam para além da posição do materialismo
ortodoxo e mostram que a capacidade de nossa consciência excede de longe a capacidade de nosso
organismo físico, porque "a consciência usa o cérebro que nossos esforços em direção ao alto têm
produzido, o cérebro não tem produzido a consciência nem usa a consciência" (9). Contudo, o
materialismo é correto, como também o é o idealismo, na medida em que propõe que "o princípio
das coisas é um movimento formativo de energias" (10), pois, "este é o mundo como nós o
experienciamos e dessa experiência devemos sempre partir" (11).
"A análise física da Matéria pela ciência moderna tem chegado à mesma conclusão geral, mesmo se
umas poucas últimas dúvidas ainda persistem. Intuição e experiência confirmam essa concordância
de Ciência e Filosofia. A razão pura encontra aí a satisfação de suas próprias concepções essenciais.
Pois mesmo na visão do mundo como essencialmente um ato de consciência, um ato é implícito e,
no ato, o movimento de Força, jogo de Energia. Isso, também, quando examinamos de dentro de
nossa própria experiência, prova-se ser a natureza fundamental do mundo. Todas nossas atividades
são o jogo da força tripla das antigas filosofias, força-conhecimento, força-desejo, força-ação, e
todas elas provam-se ser realmente três correntes de um poder idêntico e original..." (12)
Aqui, Sri Aurobindo levanta duas questões: "como esse movimento veio a acontecer afinal" (13), e
porquê? O idealista absoluto coloca que o fenômeno empírico, desde que aparenta ser diferente do
uno Absoluto, não possui realidade e é, portanto, ilusório (maya). Desde que o uno Absoluto é a
única realidade, identificação com as coisas do mundo fenomenal é um engano, e assim
procedendo, nós sobrepomos à Realidade Absoluta, características que ela não possui. Como
ordinariamente percebido, o mundo todo é uma aparência do absoluto - nada mais. Quando nós
experienciarmos a verdadeira Realidade, seremos liberados da falsa identificação com o mundo
fenomenal e o compreenderemos como um movimento de energia projetado.
Sri Aurobindo responde que é a natureza da força inerente na existência ter ambas as
potencialidades de repouso e movimento. Não é nunca separada da existência infinita. Mas porque
não poderia a força permanecer sempre em repouso, livre de formação? Se não há consciência na
força ou na existência, então a questão não pode surgir. Por outro lado, se a existência é consciente,
mas a força, inconsciente, então a manifestação seria caótica, pois a força imporia a si própria à
existência e um Brahman compelido pela natureza não poderia ser Brahman, "mas um Infinito
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inerte com um conteúdo ativo em si, mais poderoso que o continente" (14). Uma absoluta existência
consciente deve ser livre para manifestar ou não manifestar e isso é análogo a dizer que a força em
movimento é consciente e inteligente.
Antes de estudar o relacionamento entre força e consciência, Sri Aurobindo diz-nos que ele não se
refere à nossa ordinária consciência mental do estado desperto, tal qual estamos conscientes durante
a maior parte de nossa existência corpórea. Essa "idéia vulgar da natureza da consciência deve
desaparecer de nosso pensamento filosófico" (15). Nós sabemos que há algo consciente em nós
quando estamos dormindo, drogados ou inconscientes. "Mesmo em nosso estado desperto, o que
denominamos então nossa consciência é apenas uma pequena seleção de nosso ser consciente
inteiro" (16).
"Atrás dele, muito mais vasto que ele, há uma mente subliminal ou subconsciente que é a maior
parte de nós mesmos e contém alturas e profundidades que nenhum homem ainda tem sondado ou
avaliado. Este conhecimento dá-nos um ponto de partida para a verdadeira ciência da Força e seus
trabalhos; isto liberta-nos definitivamente da circunscrição pelo material e da ilusão do óbvio." (17)
Desde que há associado ao sistema nervoso completo muitos níveis ou graus de consciência, do
subconsciente ao superconsciente, não é impossível "que mesmo em objetos materiais, uma mente
universal subconsciente esteja presente, embora incapaz de agir ou comunicar-se com suas
superfícies por falta de órgãos" (18). O estado material, em vez de ser um vazio de consciência,
pode ser consciência que está adormecida.
"Não há em nós, ou no mundo, formas de consciência que são sub-mentais, para as quais nós
podemos dar o nome de consciência física ou vital? Se assim é, nós devemos supor na planta e no
metal também uma força para a qual podemos dar o nome de consciência, embora não seja a
mentalidade humana ou animal para as quais temos até agora preservado o monopólio daquela
descrição. Não somente é isso provável, mas, se considerarmos as coisas desapaixonadamente, isso
é certo." (19)
Sri Aurobindo argumenta que nós temos o direito de supor que essa consciência universal tenha um
propósito universal. No animal nós vemos perfeitas e propositadas operações do instinto que
freqüentemente excedem a mentalidade animal. E nas operações da natureza inanimada, nós
podemos discernir a mesma característica de uma "inteligência oculta", "o certamente eventual ou
imediato chegando à meta buscada" (20). Ele coloca que o único argumento contrário a uma fonte
consciente e inteligente na natureza é o desperdício que nós observamos:
"Mas obviamente esta é uma objeção baseada nas limitações de nosso intelecto humano, que
procura impor sua própria racionalidade particular, boa o suficiente para fins humanos limitados,
nas operações gerais da Força-Mundo." (21)
Força, então, implica uma inteligência e propósito e é essa força que cria os mundos. Essa energiaconsciente,
conhecida como Chit, Sri Aurobindo refere-se a ela como a Mãe Divina:
"A Mãe é a Força Consciente divina que domina toda existência, una e ao mesmo tempo com tantas
faces que seguir seus movimentos é impossível mesmo para a mente mais rápida e para a mais livre
e mais vasta inteligência. A Mãe é a consciência e a força do Supremo... Transcendente, a suprema
Shakti original, ela permanece acima dos mundos e interliga a criação ao sempre não manifesto
mistério do Supremo. Universal, a Mahashakti cósmica, ela cria todos esses seres e contém e
penetra, suporta e conduz todos esses milhões de processos e forças. Individual, ela incorpora o
poder desses dois mais vastos modos de sua existência, os faz vivos e próximos a nós e intermedia
entre a personalidade humana e a Natureza divina." (22)
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Mas, mesmo se nós aceitamos Sat e Chit, Sri Aurobindo pergunta, "Porque Brahman, perfeito,
absoluto, infinito, não necessitando de nada, não desejando nada, lançou de si forças de consciência
para criar em si próprio esses mundos de formas?". "Só pode ser por uma razão, por deleite" (23).
Exatamente como o finito resulta do infinito e o mutável do imutável, assim todas as coisas
variáveis são expressões do uno invariável deleite da existência.
"Aquilo que tem lançado a si próprio em formas é a trindade Existência-Consciência-Deleite,
Sachchidananda, cuja consciência é em sua natureza uma força criativa ou ainda auto-expressiva,
capaz de variação infinita em fenômeno e forma de seu ser auto-consciente e infindável desfrutar do
deleite daquela variação." (24)
Nosso engano parece repousar em nossa maneira ordinária de olhar o problema. Nosso ponto de
vista de que o mundo é tanto um mundo de sofrimento quanto um mundo de deleite é um exagero,
"um erro de perspectiva" (25). Realmente, se pudermos olhar o mundo impessoalmente,
descobriremos que o prazer em muito excede a dor. Nós tomamos o prazer já como dado e
dificilmente o notamos. A dor nos afeta mais profundamente por que é anormal ao nosso ser. O
problema torna-se mais confuso ainda pela noção de um Deus pessoal extra-cósmico que envolve a
questão ética. Se um tal Deus extra-cósmico é pressuposto, então não há como explicar dor,
sofrimento e mal. Nesse contexto, se Deus é Deus-de-Tudo, quem criou o sofrimento? E se nós
dizemos que sofrimento é uma provação que devemos atravessar, então somos deixados com um
problema moral, pois temos projetado um Deus imoral ou não-moral. Aqui, a questão poderia
surgir: "Quem criou ou porquê ou de onde foi criado aquele mal moral que lega a punição de dor e
sofrimento?" (26). E se nós dizemos que mal moral é meramente uma forma de ignorância, quem
criou a lei que pune um ato de ignorância? Porque, se o absoluto é livre e Deus de tudo, o mal não é
impedido de existir? Sri Aurobindo responde que essa questão é falsa porque nossas idéias
ordinárias de bem derivam de uma concepção dualística das coisas, baseadas em nosso ponto de
vista relativo. Isso é atacar o problema partindo de um ponto de vista das coisas errado. Ele deseja
resolver o problema "em sua pureza original, em bases de unidade na diferença" (27).
Primeiro, diz Sri Aurobindo, se nós nos elevarmos acima do ponto de vista humano ordinário,
podemos ver que "não vivemos em um mundo ético" (28). Quando tentamos forçar um significado
ético na totalidade da natureza, nos impedimos de chegar ao conhecimento de uma visão mais
compreensiva. Aquilo que está abaixo da humanidade é não ético e sempre existe um
distanciamento daquilo que causa mal e uma atração por aquilo que beneficia. "Este distanciamento
é a origem primária da ética, mas não é em si ético" (29).
Culpa e condenação são o início da ética, seja culpando a nós mesmos ou a outros. As pessoas
desejam auto-expressão e auto-satisfação; tudo que ameaça essa expressão é considerado mal, tudo
que auxilia é bem. Então, conforme a compreensão e auto-desenvolvimento se eleva acima do ego,
isto se estende a outras pessoas e ao universo.
Ética é apenas um estágio temporário na evolução. Abaixo da humanidade existe o estágio infraético,
e acima, o estágio supra-ético. Nós não podemos aplicar ética, desse ponto de vista, à solução
total do problema, mas podemos usá-la como parte da solução. Em outras palavras, não auxiliará a
questão da bondade de Sachchidananda, referindo-se a ela como retirar-se da dor e sofrimento
experienciados pela egoística consciência humana. A consciência universal é muito maior que o
despertar humano ordinário e o deleite universal é mais que emoção e sensação do ego ordinário.
"Quando o deleite do ser busca realizar a si próprio como deleite do vir-a-ser, move-se no
movimento de forças e ele próprio toma diferentes formas de movimento dos quais prazer e dor são
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correntes negativas e positivas. Subconsciente na matéria, superconsciente além da Mente, este
deleite busca na Mente e Vida, realizar a si próprio por emergência no vir a ser, na crescente autoconsciência
do movimento." (30)
Quando nossas mentes e egos tornarem-se harmônicos com outros seres e com as forças universais,
então dor e sofrimento irão diminuir. Mas mesmo na vida ordinária é possível eliminar a dor; por
exemplo, um sujeito hipnotizado pode, com sucesso, ser proibido de sentir dor enquanto sob
hipnose, e retornar ao estado de sentir dor quando acordado:
"... o hipnotizador suspende a consciência desperta habitual que é a escrava dos hábitos nervosos e é
capaz de apelar para o ser mental subliminal nas profundezas, o ser mental interior, que é o mestre,
se ele quiser, dos nervos do corpo." (31)
A mesma liberdade pode ser alcançada pela vontade quando somos capazes de identificar-nos com
a unidade divina tanto quanto com a separação dos objetos. O Si real em nós é o ser consciente
indivisível que suporta com deleite todas nossas experiências. Como seres mentais, contudo, nos
identificamos superficialmente com todas as variedades de experiências de bom e ruim, prazer e
dor. Mas isso não é necessário; isto é apenas hábito e nós podemos, se quisermos, voltar à resposta
oposta. Em vez de reações mecânicas de prazer e dor, podemos experienciar deleite, que é "o
verdadeiro e vasto Si-de-Deleite em nós" (32). Este seria um domínio maior do que uma atitude
desapegada ou de supressão, porque não haveria mais a aceitação de imperfeições - o imperfeito é
convertido ao perfeito. O Deleite toma o lugar de todas as dualidades que se desenvolvem em nosso
plano mental. A verdadeira natureza da dualidade é devida à nossa "auto-limitação pelo egoísmo"
como conseqüência de nossa ignorância de Sachchidananda que é nosso verdadeiro si.
No universo físico, o deleite da existência está subconsciente, então emerge em um movimento de
massa que se torna sensação, e então a mente e o ego emergem na "tripla vibração de dor, prazer e
indiferença" (33). Por último, emerge a totalmente consciente Sachchidananda. Este, diz Sri
Aurobindo, é o curso do mundo. Mas, diz ele, uma outra importante questão surge: Porque deveria a
Existência Una deleitar-se em tal movimento? Foi experiência de Sri Aurobindo que a resposta
repousa no fato de que "todas as possibilidades são inerentes em Sua infinitude e que o deleite da
existência - em seu mutante vir a ser, não em seu ser imutável - repousa precisamente na variável
realização de suas possibilidades" (34).
Nessa criação, onde o ser infinito perde a si próprio na aparência do não-ser e emerge na aparência
da alma finita, onde a consciência infinita perde a si própria na aparente inconsciência e emerge na
aparência de uma consciência limitada, onde a força infinita perde a si própria no aparente caos de
átomos e emerge no aparente equilíbrio incerto do mundo, onde o deleite infinito perde a si próprio
na aparente insensibilidade da matéria e emerge na aparência de discórdia, e onde a unidade toma a
aparência da multiplicidade, a real Sachchidananda, diz Sri Aurobindo, tem que emergir. E:
"O Homem, o indivíduo, deve tornar-se e viver como um ser universal; sua limitação da consciência
mental deve ampliar-se à unidade superconsciente na qual cada um abrange o todo; seu estreito
coração deve aprender o abraço infinito e substituir sua luxúria e discórdia pelo amor universal e
seu restrito ser vital deve tornar-se equânime a todo choque do universo sobre si e ser capaz de
deleite universal; seu verdadeiro ser físico deve conhecer a si próprio não como uma entidade
separada, mas una com, e sustentando em si própria, o total fluxo da força indivisível que é todas as
coisas; sua total natureza deve reproduzir no indivíduo, a unidade, a harmonia, a unidade em tudo,
da suprema Existência-Consciência-Deleite." (35)
A visão que Sri Aurobindo está apresentando é a de uma Realidade consciente manifestando a si
própria em formas mutáveis de sua própria substância imutável. O mundo é um "nascimento
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consciente" daquele princípio de conhecimento e vontade diretivos além da mente racional e não
uma concepção parcial na mente universal. A "maya" divina é então caracterizada por descrições
que melhor representam o luminoso "vir-a-ser" da Existência, Consciência-Força, Deleite, a
tradicional Sachchidananda. A maya inferior consiste em mente, vida e matéria em nosso mundo
familiar; ela é real, mas menos real que a maya divina, que é o aspecto de Sachchidananda da
Verdade dinâmica e auto-ordenada.
"Uma Verdade de ser consciente suporta essas formas e expressa a si própria nelas, e o
conhecimento correspondente à verdade assim expressada reina como uma Consciência-Verdade
supramental (36) organizando idéias reais em uma harmonia perfeita antes que elas sejam lançadas
para dentro do molde mental-vital-material. Mente, Vida e Corpo são uma consciência inferior e
uma expressão parcial que se esforça para chegar, na forma de uma variada evolução, àquela
superior expressão de si própria já existente para o Além-Mente. Aquilo que está no Além-Mente é
o ideal que, em suas próprias condições, está laborando para realizar." (37)
Mente é o princípio de divisão e análise, que é necessário para desenvolver medições e formações.
Mas por ser a mente mais uma faculdade que procura conhecimento que uma faculdade de
conhecimento, ela não pode explicar a existência no universo. A mente interpreta a verdade da
existência universal para seu uso prático, mas não pode conhecer ou identificar-se com essa
existência.
Mente, de acordo com Sri Aurobindo, é a primeira em uma série de separações que, por
necessidade, a vida deve seguir, pois ela é uma "forma de energia de consciência intermediária e
apropriada para a ação da Mente sobre a Matéria" (38). Vida é "um aspecto de energia da Mente,
não quando esta cria e refere-se a si própria à idéias mas à movimentos de força e à formas de
substâncias" (39). A Vida, em essência, não é necessariamente como nós a percebemos em plantas e
animais, ela é:
"Consciência-Força, força-consciente inerente de ser-consciente que manifesta a si própria como
energia nervosa plena de sensação submental na planta, como sentido-desejo e vontade-desejo nas
formas animais primárias, como sentido e força auto-consciente no animal em desenvolvimento,
como vontade e conhecimento mental acima de todos os anteriores, no homem." (40)
Na vida atômica, a forma individual é a base. Ela "assegura por sua agregação com outras, uma
existência mais ou menos prolongada de formas agregadas que devem ser a base de
individualizações mentais e vitais" (41). Sendo o primeiro agregado, o átomo é a fundação de
"unidades agregadas". A Força-Vida organiza energias vitais e quando dissolução, dispersão e
reconstrução ocorrem, essas energias vitais misturam-se entre si e se unem a outros seres.
"Intercâmbio, inter-mistura e fusão de ser com ser é o verdadeiro processo da vida" (42). Parece que
existem dois princípios de vida; um protege a separatividade individual e o outro une a si próprio
com outros. O mundo físico força a separatividade individual por que precisa ter formas separadas
concretas. Então, tendo construído essas formas concretas, a natureza inverte o processo - a forma
individual perece e a vida agregada progride com os elementos da forma que é dissolvida. No
último estágio da vida, os dois princípios são harmonizados:
"... O indivíduo é capaz de persistir na consciência de sua individualidade e ainda fundir a si próprio
com outros sem perturbação do equilíbrio preservativo e interrupção de sobrevivência." (43)
Se a unidade da multiplicidade deve ser realizada, a maya inferior tem que ser transformada na
maya divina. Em sua explanação da matéria, Sri Aurobindo admite que em um certo sentido a
matéria é "irreal e não existente, isto é, nosso presente conhecimento, idéia e experiência sobre a
Matéria não é verdade" (44).
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"Quando a Ciência descobre que Matéria resolve a si própria em formas de energia, ela encontrou
uma verdade fundamental e universal; e quando a filosofia descobre que a Matéria existe apenas
como aparência substancial à consciência e que a realidade una é Espírito ou Ser consciente puro,
ela encontrou uma maior e mais completa, uma verdade ainda mais fundamental." (45)
Mas o problema do porquê a energia deveria tomar forma de matéria ou porquê o espírito deveria
admitir o fenômeno da matéria afinal, confronta-nos. Se nos lembrarmos que a existência "apresenta
as obras de sua força para sua consciência como formas de seu próprio ser" (46), o resultado é que
"matéria é a forma da substância do ser que a existência de Sachchidananda assume quando se
submete a essa ação fenomenal de sua própria consciência e força" (47).
"Mente, por sua separação de sua própria realidade mais alta na Supramente, dá à Vida a aparência
de divisão e, por sua posterior involução em sua própria Força-Vida, torna-se subconsciente na Vida
e então dá a aparência exterior de uma força inconsciente às suas obras materiais. Portanto, a
inconsciência, a inércia, a desagregação atômica da matéria deve ter sua fonte nessa ação tododivisora
e auto-envolvente da Mente pela qual nosso universo veio a ser." (48)
Separação e divisão é a condição da consciência limitada e é por isso que a matéria aparece em
nossa percepção como maciça, estável e sólida. Mesmo se a ciência vê a matéria como energia,
nossa mente sensorial diz-nos que ela é uma massa sólida, isto é, um objeto no espaço.
Sri Aurobindo diz que a verdadeira realidade subjacente à matéria é uma não atômica extensão de
substância que não é uma agregação. Sua coexistência não é pela distribuição no espaço e nossa
percepção sensorial da matéria, separação e agregação são meramente formas através das quais as
forças de maya representam o deleite da existência:
"Portanto, nós chegamos a essa verdade da Matéria de que existe uma auto-extensão formulada de
ser que desenvolve a si própria no universo como substância ou objeto de consciência e cuja Mente
e Vida cósmica, em sua ação criativa, representa através de divisão e agregação atômica como a
coisa que nós denominamos matéria. Mas essa Matéria, como Mente e Vida, é ainda Ser, ou
Brahman em sua ação auto-criativa. É uma forma da força de Ser-Consciente, uma forma dada pela
Mente e realizada pela Vida. Ela contém em si como sua própria realidade, consciência oculta de si
própria, envolvida e absorvida no resultado de sua própria auto-formação e portanto autoesquecimento."
(49)
O mundo, então, é o processo de uma unidade diferenciada, não uma batalha interminável entre
opostos irreconciliáveis. Embora pareça à nossa consciência ordinária que a maya superior e a maya
inferior estejam em pólos opostos, na realidade os dois são um movimento de Sachchidananda. O
que é necessário no esquema de Sri Aurobindo é compreender toda a hierarquia dos níveis de
consciência desde a mais inferior maya envolvida no mundo material passando pelos graus
ascendentes, até a maya divina.
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