Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capítulo III

AS DUAS NEGAÇÕES

A renúncia do asceta

"Tudo isso é o Brahman; este Eu é o Brahman e o Eu é quádruplo.
Além de toda relação, incolor, impensável, em que tudo está imóvel."
Mandukya Upanishad [1]

E AINDA existe um além.
Pois do outro lado da consciência cósmica existe uma consciência ainda mais transcendente, acessível para nós - transcendente não só para o Ego como também para o próprio Cosmos - contra a qual o universo parece sobressair-se como uma pequenina pintura contra um in­comensurável fundo. Ela (essa consciência) suporta a atividade universal - ou talvez apenas a tolera; Isso (ela) abraça a Vida em Sua vastidão - ou então a rejeita, em Sua Infinitude.
Se o materialista se justifica, do seu ponto-de-vista, insistindo na Matéria como realidade, o mundo relativo como a única coisa sobre a qual podemos, de certo forma, estar seguros, e o Além como totalmente incognoscível, senão realmente inexistente, um sonho da mente, uma abstração do Pensamento que se divorcia da realidade, assim também o Sannyasin (Asceta), enamorado desse Além, justifica-se, do seu ponto-de-vista, insistindo no puro Espírito como realidade, a única coisa livre de mudança, nasci­mento, morte, e o mundo relativo como uma criação da mente e dos sen­tidos, um sonho, uma abstração no sentido contrário ao da Mentalidade retirando-se do puro e eterno Conhecimento.
Que justificação, lógica ou experimental, pode ser dada para apoiar um extremo que não encontra uma lógica convincente e uma experiência igualmente válida no outro extremo? O mundo da Matéria é afirmado pela experiência dos sentidos físicos, que, por serem eles mesmos incapazes de perceber algo imaterial ou não-organizado como a Matéria bruta, iriam persuadir-nos de que o suprassensível é irreal. Este erro rústico ou vulgar de nossos órgãos corporais não ganha valor por ser promovido ao campo do raciocínio filosófico. Sua pretensão, obviamente, é infundada. Mesmo no mundo da Matéria, há existências das quais os sentidos físicos são incapazes de tomar conhecimento. Mas a negação do suprassensível, considerando-o necessariamente uma ilusão ou uma alucinação, depende da constante associação sensorial do real com o materialmente perceptível, o que é também uma alucinação. Presumindo todo o tempo o que ele procura estabelecer, cai no vício do argumento em círculos e não tem valor como raciocínio imparcial.
Não só existem realidades físicas que são suprassensíveis, como, se a evidência e a experiência são realmente um teste para a verdade, há também sentidos que são suprafísicos [2] e pertencentes a um outro mundo - incluídos, por assim dizer, numa organização de experiências conscientes que dependem de outro princípio que não a Matéria bruta da qual nossos sóis e terras parecem feitos.
Constantemente afirmada pela experiência humana e a hu­mana crença desde as origens do pensamento, essa verdade, agora que a preocupação exclusiva com os segredos do mundo material já não existe, começa a ser justificada por novas formas de raciocínio científico. As crescentes evidências, das quais só as mais óbvias e explícitas se colocam sob a denominação de telepatia e fenômenos derivados, não podem ser negadas a não ser por mentes enclausuradas na brilhante concha do passado, por intelectos limitados, apesar de sua acuidade, no seu campo de experiência e investigação, ou por aqueles que confundem iluminação e razão com a fiel repetição de fór­mulas legadas por um século passado e pela ciumenta conservação de dogmas intelectuais mortos ou agonizantes.
É certo que o vislumbre de realidades suprafísicas adqui­rido através de pesquisa metódica foi imperfeito e ainda é mal afirmado; pois os métodos usados são ainda defeituosos. Mas estes sentidos sutis redescobertos ao menos revelaram-se verdadeiras testemunhas dos fatos físicos que estão além do alcance dos órgãos corporais. Então não se justifica rejeitá-los como falso testemunho, quando eles confirmaram os fatos suprafísicos que estão além do campo da organização material da consciência. Como toda evidência, como a própria evidência dos sentidos, seu testemunho tem que ser controlado, escrutinado e ordenado pela razão, corretamente traduzido e corretamente relatado, e seu campo, leis e processos, determinados. Mas a verdade das grandes extensões de experiência cujos objetos existem numa substância mais sutil e são percebidos por instrumentos mais sutis do que aqueles da física Matéria bruta, reclama no final o mesmo valor que a verdade do universo material. Os mundos que estão além existem: eles têm seu ritmo universal, suas grandes linhas e formações, suas leis e energias auto-existentes poderosas, seu justo e luminoso meio de conhecimento. E aqui em nossa existência física e em nosso corpo físico eles exercem sua influência; é aqui também que eles organizam seu meio de manifestação e comissionam seus mensa­geiros e suas testemunhas.
Mas os mundos não são se não molduras para nossa experiência e sentidos, apenas instrumentos de experiência e conveniências. A Con­sciência é o grande fato subjacente, a testemunha universal para a qual o mundo é um campo de ação, e os sentidos, instrumentos. Para essa testemunha, os mundos e seus objetos apelam por sua realidade, pois tanto o único mundo como os muitos mundos, não temos outra evidência de que existam, tanto o físico como o suprafísico. Argumentou-se que isso não é uma relação peculiar entre a constituição da humanidade e sua pers­pectiva de um mundo objetivo, e sim a verdadeira natureza da existência; toda existência fenomênica consiste em uma consciência observadora mais, e a Ação não pode proceder sem a Testemunha, porque o Universo só existe na ou para a consciência que observa, e não tem realidade independente. Foi argumentado, em resposta, que o universo material desfruta de uma auto-existência eterna; ele estava aqui antes que a vida e a mente fizessem sua aparição: ele irá sobreviver depois que elas tiverem desaparecido e já não estejam perturbando - com suas dispustas efêmeras e pensamentos limitados - o ritmo eterno e inconsciente dos sóis. A diferença, tão metafísica em aparên­cia, é porém de suprema importância prática, pois ela determina a visão que o homem tem da vida, o objetivo ao qual se dirigirão seus esforços e o campo no qual ele circunscreverá suas energias. Pois aí surge a questão da realidade da existência cós­mica e, ainda mais importante, a questão do valor da vida humana.
Se levamos muito longe a conclusão materialista, chegaremos a uma insignificância e uma irrealidade na vida do indivíduo e da espécie que nos deixarão, logicamente, a opção entre um esforço fer­voroso do indivíduo por “agarrar” o que puder de uma existência efêmera, por “viver sua vida”, como se diz, e um serviço desapaixonado e sem ob­jetivo da espécie e do indivíduo, sabendo-se que este último é uma ficção efêmera da mentalidade nervosa, e o anterior, nada mais que uma forma coletiva, um pouco mais duradoura, do mesmo espasmo nervoso regular da Matéria. Nós trabalhamos e desfrutamos sob o impulso de uma energia material que nos decepciona com a breve ilusão da vida ou com a mais nobre ilusão de um objetivo ético e de uma consumação mental. O Materialismo, como o Monismo espiritual, conduz-nos a uma Maya que é e não é – é, porque é presente e compulsiva, e não é, porque é fenomênica e transitória em suas obras. Por outro lado, se acentuamos demasiado a irrealidade do mundo objetivo, chegaremos por um caminho diferente, a conclusões semelhantes porém ainda mais incisivas - o caráter fictício do Ego individual, a irrealidade e a falta de propósito da existência humana, o retorno ao Não-Ser ou Absoluto sem relações como único escape racional da confusão desprovida de sentido da vida fenomênica.
E no entanto, a questão não pode ser resolvida pelo argumento lógico com base nas informações de nossa existência física ordinária; pois nessas informações há um hiato de experiência que torna qualquer argumento inconclusivo. Não temos, normalmente nem a experiência definitiva de uma mente cósmica ou supramente não-ligada à vida do corpo individual, nem, por outro lado, nenhum limite firme de experiência que nos justificaria, supondo que nosso Eu subjetivo realmente depende da moldura física e não pode nem sobreviver a ela nem alargar-se além do corpo individual. Só por uma extensão do campo de nossa consciência ou com um inesperado aumento de nossos instrumentos de conhecimento a antiga querela poderá ser decidida.
A extensão de nossa consciência, para ser satisfatória, tem de ser necessariamente um prolongamento do indivíduo para a consciência cósmica. Para a Testemunha, se ela existe, não é a mente corporificada individual nascida no mundo, mas aquela Consciência Cósmica que abarca o universo e aparece como uma Inteligência imanente em todas suas obras, para qual cada mundo subsiste eternamente e realmente como Sua própria existência ativa, ou então da qual ele nasce e na qual ele des­aparece por um ato de Conhecimento ou por um ato de Poder consciente. Não uma Mente organizada, mas aquela que, calma e eterna, paira igualmente sobre a terra vivente e o corpo humano vivente, e para a qual mente e sentidos são instrumentos dispensáveis, e esse é a Testemunha da existência cósmica e o seu Senhor.
A possibilidade de uma consciência cósmica na humanidade esta sendo pouco a pouco admitida na moderna Psicologia, como também a possibilidade de instrumentos de conhecimento mais flexíveis de conhecimento, embora ainda não-classificados, mesmo quando seu valor e poder são admitidos, como uma alucinação. Na psicologia oriental, isso sempre foi reconhecido como realidade e como a meta de nosso progresso subjetivo. A essência da superação dessa meta é a ultrapassagem dos limites impostos em nós pelo ego-sentido, e pelo menos um compartilhamento, no máximo uma identificação do autoconhecimento-do-ser que paira secreto sobre toda a vida e sobre tudo o que parece a nós ser inanimado.
Entrando nessa Consciência, podemos continuar a habitar, como Ela, a existência universal. Então tornamo-nos conscientes — pois todos os nossos termos de consciência e mesmo nossas ex­periências sensoriais começam a mudar— da Matéria como uma existência e dos corpos como suas formações, nas quais a existência una separa-se fisicamente, no corpo individual, de si mesma e em todos os demais, e, novamente por meios físicos, estabelece comunicação entre estes múltiplos pontos de seu ser. A Mente, experimentamo-la de forma semelhante, e a Vida também, como a mesma existência una em sua multiplicidade, separando-se e reunindo-se em cada domínio como por meios apropriados a esse movi­mento. E, se desejamos, podemos ir além e, após atravessar muitas etapas conexas, tornar-nos conscientes de uma Supramente cuja operação universal é a chave para todas as atividades menores. Não nos tornamos meramente conscientes dessa existência cósmica, mas igualmente conscientes nela, recebendo-a em sensação, mas também entrando nela em conhecimento. Nela vivemos como vivíamos no Ego-sentido, ativamente, cada vez mais em contato, até mesmo unificados mais e mais com outras mentes, outras vidas, outros corpos distintos do organismo que chamamos de nós, produzindo efeitos não só em nosso ser moral e mental e no ser subjetivo de outros, mas também no mundo físico e seus eventos por meios mais próximos do divino que aqueles possíveis para nossa capa­cidade egoísta.
Real, então, para o homem que teve contato com ela ou vive nela, é essa consciência cósmica, de uma realidade maior que a física; real em si mesma, real em seus efeitos e obras. E como ela é dessa forma real para o mundo, que é a sua própria expressão total, dessa mesma forma o mundo é real para ela; mas não como uma existência inde­pendente. Pois, nessa experiência superior e sem obstáculos, per­cebemos que ser e consciência não são diferentes um do outro, e sim todo ser é uma consciência suprema, toda consciência é autoexistente, eterna em si mesma, real em suas obras e nem um sonho nem uma evolução. O mundo é real precisamente porque ele existe somente em consciência; pois é uma Energia Consciente uma com o Ser que o cria. É a exis­tência da forma material por seu próprio direito, diferente da energia auto-iluminada que assume a forma que seria uma contradição em relação à verdade das coisas, uma fantasmagoria, um pesadelo, uma falsidade impossível.
Mas este Ser Consciente que é a verdade da infinita Supramente, é mais que o Universo e vive independentemente em Sua inexpressiva infinitude, bem como nas harmonias cósmi­cas. O mundo vive através Dele; Ele não vive através do mundo. E, assim como podemos entrar na consciência cósmica e ser uno com a existência cósmica, também podemos entrar na consciência que transcende ao mundo e tornarmo-nos superiores a toda a existência cósmica. Então ressurge a questão que nos ocorreu em princípio, se essa transcendência é também, necessariamente, uma renúncia. Que relação tem este universo com o Além?
Pois, nos portões do transcendente acha-se aquele Espírito simples e perfeito descrito nos Upanishads, luminoso, puro, sustentando o mundo mas inativo nele, sem fibras de energia, sem imperfeição de dualidade, sem marcas de divisão, único, idêntico, livre de toda a aparência de divisão ou de multiplicidade - o puro Eu dos Ad­waitins [3], o inativo Brahman, o transcendente Silêncio. E a Mente, quando passa por estes portões repentinamente, sem transições inter­mediárias, recebe um senso de irrealidade do mundo e da única realidade do Silêncio, que é uma das mais poderosas e convincentes experiências das quais é capaz a mente humana. Aqui, na per­cepção desse puro Eu ou do Não-Ser por trás dele, temos o ponto de partida para a segunda negação ― paralela, no outro pólo, ao materialista, porém mais completa, mais definitiva, mais perigosa em seus efeitos sobre os indivíduos ou coletividades que ouvem seu poderoso chamado para o deserto — a renúncia do asceta.
É essa a revolta do Espírito contra a Matéria que, por dois mil anos — desde o Budismo perturbou o equilíbrio do velho mundo ariano — dominou crescentemente a mente indiana. Não que o senso da ilusão cósmica seja o total do pensamento indiano; há outras afirmações filosóficas, outras aspirações reli­giosas. Tampouco um ajuste entre os dois termos foi tentado mesmo pelas filosofias mais radicais. Mas todos viveram na sombra da grande Renúncia e do término da vida, pois essa é a atitude do asceta. A concepção da vida foi impregnada com a teoria budista da cadeia do karma e com a conseguinte antinomia da escravidão e liberação, escravidão por nasci­mento, liberação por cessação do nascimento. Por isso, todas as vozes se juntaram num grande consenso: não é neste mundo de dua­lidades que acontecerá o nosso reinado celestial, senão no mais além, nas beatitudes do eterno Vrindavan [4] ou na superior bem-aventurança de Brahmaloka [5], além de todas as manifestações nalgum inefável Nirvana [6], ou onde toda a experiência individual se perde na indis­tinta unidade da Existência indefinível. E por muitos séculos, um grande exército de brilhantes testemunhas, santos e mestres, nom­es sagrados para a memória da Índia e dominantes na imaginação indiana, mantiveram sempre o mesmo testemunho e acrescentaram sempre o mesmo sublime e distante apelo - renúncia como o único caminho para o conhecimento, a aceitação da vida física seria o ato do ignorante, a cessação dos nascimentos como o uso correto do nasci­mento humano, o chamado ao Espírito, o recuo em relação à Matéria.
Para uma era isenta de simpatia para com o espírito ascético — e através de todo o resto do mundo, a hora do Anacoreta (religioso que vive em solidão) parece ter passado ou está passando ―é fácil atribuir esta grande tendência à falta de energia vital numa antiga raça esgotada em razão de seu fardo, sua vasta contribuição ao avanço comum; exausta por sua multifacetada contribuição ao conjunto do esforço humano e ao humano conhecimento. Mas vimos que isto corresponde a uma verdade na existência, um estado de realização consciente que se encontra no verdadeiro ápice de nossas possibilidades. Na prática, também o espírito ascético é um elemento indispensável da perfeição humana, e não se pode evitar até mesmo a sua afirmação isolada até que a espécie tenha, por outro lado, liberado seu intelecto e seus hábitos vitais da sujeição a um sempre insistente animalismo.
Buscamos, na verdade, uma afirmação maior e mais completa. Percebemos, que no ideal ascético indiano, a grande fórmula Vedân­tica, “Um sem um segundo”, não foi suficientemente lida à luz daquela outra fórmula igualmente imperativa: “Tudo isso é o Brahman". A aspiração apaixonada do homem em direção ao Divino não foi suficientemente relacionada com o movimento descendente do Divino, inclinando-se para baixo para abraçar eternamente Sua manifestação. Seu significado na Matéria não foi suficientemente compreendido, como Sua verdade no Espírito. A Realidade que o Sannyasin (Asceta) busca foi captada em sua plena elevação, mas não, como dizem os antigos Vedantas, mas não em sua completa extensão e compreensão. Mas, em nossa afirmação mais completa não devemos minimizar a parte que ocupa o puro impulso espi­ritual. Vimos em que grande proporção o Materia­lismo serviu aos fins do Divino; assim, devemos reconhecer os serviços ainda maiores, rendidos pelo Ascetismo à Vida. Devemos preservar as verdades da Ciência material e suas reais utilidades na harmonia final, mesmo se muitas ou se todas as formas exis­tentes tiverem que ser quebradas ou abandonadas. Um escrúpulo ainda maior de correta conservação deve guiar-nos em nosso trato com o legado - na realidade diminuído ou depreciado - do passado Ariano.
[1] Versos 2, 7.
[2] Súksma indriya, órgãos sutis, existentes no corpo sutil (súksma deha) e o meio da visão e experiência sutis (súksma drsti).
[3 ] Os Monistas Vedânticos.
[4] Goloka, o céu dos Vaishnavas, da Beleza e Bem-aventurança eter­nas.
[5] O supremo estado da existencia, consciência e beatitude puras, al­cançável pela alma sem a completa extinção no Indefinível.
[6] Extinção, não necessariamente de todo o ser, senão do ser tal qual o conhecemos; extinção do ego, do desejo, e da ação e mentalidade egoísta.

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