AS DUAS NEGAÇÕES
A renúncia do asceta
"Tudo isso é o Brahman; este Eu é o Brahman e o Eu é quádruplo.
Além de toda relação, incolor, impensável, em que tudo está imóvel."
E AINDA existe um além.
Além de toda relação, incolor, impensável, em que tudo está imóvel."
Mandukya
Upanishad [1]
E AINDA existe um além.
Pois do
outro lado da consciência cósmica existe uma consciência ainda mais
transcendente, acessível para nós - transcendente não só para o Ego como também
para o próprio Cosmos - contra a qual o universo parece sobressair-se como uma
pequenina pintura contra um incomensurável fundo. Ela (essa consciência)
suporta a atividade universal - ou talvez apenas a tolera; Isso (ela) abraça a
Vida em Sua vastidão - ou então a rejeita, em Sua
Infinitude.
Se o
materialista se justifica, do seu ponto-de-vista, insistindo na Matéria como
realidade, o mundo relativo como a única coisa sobre a qual podemos, de certo
forma, estar seguros, e o Além como totalmente incognoscível, senão realmente
inexistente, um sonho da mente, uma abstração do Pensamento que se divorcia da
realidade, assim também o Sannyasin (Asceta), enamorado desse Além,
justifica-se, do seu ponto-de-vista, insistindo no puro Espírito como realidade,
a única coisa livre de mudança, nascimento, morte, e o mundo relativo como uma
criação da mente e dos sentidos, um sonho, uma abstração no sentido contrário
ao da Mentalidade retirando-se do puro e eterno
Conhecimento.
Que
justificação, lógica ou experimental, pode ser dada para apoiar um extremo que
não encontra uma lógica convincente e uma
experiência igualmente válida no outro extremo? O mundo da Matéria é
afirmado pela experiência dos sentidos físicos, que, por serem eles mesmos
incapazes de perceber algo imaterial ou não-organizado como a Matéria bruta,
iriam persuadir-nos de que o suprassensível é irreal. Este erro rústico ou
vulgar de nossos órgãos corporais não ganha valor por ser promovido ao campo do
raciocínio filosófico. Sua pretensão, obviamente, é infundada. Mesmo no mundo da
Matéria, há existências das quais os sentidos físicos são incapazes de tomar
conhecimento. Mas a negação do suprassensível, considerando-o necessariamente
uma ilusão ou uma alucinação, depende da constante associação sensorial do real
com o materialmente perceptível, o que é também uma alucinação. Presumindo todo
o tempo o que ele procura estabelecer, cai no vício do argumento em círculos e
não tem valor como raciocínio imparcial.
Não só
existem realidades físicas que são suprassensíveis, como, se a evidência e a
experiência são realmente um teste para a verdade, há também sentidos que são
suprafísicos [2] e
pertencentes a um outro mundo - incluídos, por assim dizer, numa organização de
experiências conscientes que dependem de outro princípio que não a Matéria
bruta da qual nossos sóis e terras parecem feitos.
Constantemente afirmada pela experiência humana e a
humana crença desde as origens do pensamento, essa verdade, agora que a
preocupação exclusiva com os segredos do mundo material já não existe, começa a
ser justificada por novas formas de raciocínio científico. As crescentes
evidências, das quais só as mais óbvias e explícitas se colocam sob a
denominação de telepatia e fenômenos derivados, não podem ser negadas a não ser
por mentes enclausuradas na brilhante concha do passado, por intelectos
limitados, apesar de sua acuidade, no seu campo de experiência e investigação,
ou por aqueles que confundem iluminação e razão com a fiel repetição de
fórmulas legadas por um século passado e pela ciumenta conservação de dogmas
intelectuais mortos ou agonizantes.
É certo
que o vislumbre de realidades suprafísicas adquirido através de pesquisa
metódica foi imperfeito e ainda é mal afirmado; pois os métodos usados são ainda
defeituosos. Mas estes sentidos sutis redescobertos ao menos revelaram-se
verdadeiras testemunhas dos fatos físicos que estão além do alcance dos órgãos
corporais. Então não se justifica rejeitá-los como falso testemunho, quando eles
confirmaram os fatos suprafísicos que estão além do campo da organização
material da consciência. Como toda evidência, como a própria evidência dos
sentidos, seu testemunho tem que ser controlado, escrutinado e ordenado pela
razão, corretamente traduzido e corretamente relatado, e seu campo, leis e
processos, determinados. Mas a verdade das grandes extensões de experiência
cujos objetos existem numa substância mais sutil e são percebidos por
instrumentos mais sutis do que aqueles da física Matéria bruta, reclama no final
o mesmo valor que a verdade do universo material. Os mundos que estão além
existem: eles têm seu ritmo universal, suas grandes linhas e formações, suas
leis e energias auto-existentes poderosas, seu justo e luminoso meio de
conhecimento. E aqui em nossa existência física e em nosso corpo físico eles
exercem sua influência; é aqui também que eles organizam seu meio de
manifestação e comissionam seus mensageiros e suas
testemunhas.
Mas os
mundos não são se não molduras para nossa experiência e sentidos, apenas
instrumentos de experiência e conveniências. A Consciência é o grande fato
subjacente, a testemunha universal para a qual o mundo é um campo de ação, e os
sentidos, instrumentos. Para essa testemunha, os mundos e seus objetos apelam
por sua realidade, pois tanto o único mundo como os muitos mundos, não temos
outra evidência de que existam, tanto o físico como o suprafísico. Argumentou-se
que isso não é uma relação peculiar entre a constituição da humanidade e sua
perspectiva de um mundo objetivo, e sim a verdadeira natureza da existência;
toda existência fenomênica consiste em uma consciência observadora mais, e a
Ação não pode proceder sem a Testemunha, porque o Universo só existe na ou para
a consciência que observa, e não tem realidade independente. Foi argumentado, em
resposta, que o universo material desfruta de uma auto-existência eterna; ele
estava aqui antes que a vida e a mente fizessem sua aparição: ele irá
sobreviver depois que elas tiverem desaparecido e já não estejam perturbando -
com suas dispustas efêmeras e pensamentos limitados - o ritmo eterno e
inconsciente dos sóis. A diferença, tão metafísica em aparência, é porém de
suprema importância prática, pois ela determina a visão que o homem tem da vida,
o objetivo ao qual se dirigirão seus esforços e o campo no qual ele
circunscreverá suas energias. Pois aí surge a questão da realidade da existência
cósmica e, ainda mais importante, a questão do valor da vida
humana.
Se
levamos muito longe a conclusão materialista, chegaremos a uma insignificância e
uma irrealidade na vida do indivíduo e da espécie que nos deixarão, logicamente,
a opção entre um esforço fervoroso do indivíduo por “agarrar” o que puder de
uma existência efêmera, por “viver sua vida”, como se diz, e um serviço
desapaixonado e sem objetivo da espécie e do indivíduo, sabendo-se que este
último é uma ficção efêmera da mentalidade nervosa, e o anterior, nada mais que
uma forma coletiva, um pouco mais duradoura, do mesmo espasmo nervoso regular da
Matéria. Nós trabalhamos e desfrutamos sob o impulso de uma energia material que
nos decepciona com a breve ilusão da vida ou com a mais nobre ilusão de um
objetivo ético e de uma consumação mental. O Materialismo, como o Monismo
espiritual, conduz-nos a uma Maya que é e não é – é, porque é presente e
compulsiva, e não é, porque é fenomênica e transitória em suas obras. Por outro
lado, se acentuamos demasiado a irrealidade do mundo objetivo, chegaremos por um
caminho diferente, a conclusões semelhantes porém ainda mais incisivas - o
caráter fictício do Ego individual, a irrealidade e a falta de propósito da
existência humana, o retorno ao Não-Ser ou Absoluto sem relações como único
escape racional da confusão desprovida de sentido da vida
fenomênica.
E no
entanto, a questão não pode ser resolvida pelo argumento lógico com base nas
informações de nossa existência física ordinária; pois nessas informações há um
hiato de experiência que torna qualquer argumento inconclusivo. Não temos,
normalmente nem a experiência definitiva de uma mente cósmica ou supramente
não-ligada à vida do corpo individual, nem, por outro lado, nenhum limite firme
de experiência que nos justificaria, supondo que nosso Eu subjetivo realmente
depende da moldura física e não pode nem sobreviver a ela nem alargar-se além do
corpo individual. Só por uma extensão do campo de nossa consciência ou com um
inesperado aumento de nossos instrumentos de conhecimento a antiga querela
poderá ser decidida.
A
extensão de nossa consciência, para ser satisfatória, tem de ser necessariamente
um prolongamento do indivíduo para a consciência cósmica. Para a Testemunha, se
ela existe, não é a mente corporificada individual nascida no mundo, mas aquela
Consciência Cósmica que abarca o universo e aparece como uma Inteligência
imanente em todas suas obras, para qual cada mundo subsiste eternamente e
realmente como Sua própria existência ativa, ou então da qual ele nasce e na
qual ele desaparece por um ato de Conhecimento ou por um ato de Poder
consciente. Não uma Mente organizada, mas aquela que, calma e eterna, paira
igualmente sobre a terra vivente e o corpo humano vivente, e para a qual mente e
sentidos são instrumentos dispensáveis, e esse é a Testemunha da existência
cósmica e o seu Senhor.
A
possibilidade de uma consciência cósmica na humanidade esta sendo pouco a pouco
admitida na moderna Psicologia, como também a possibilidade de instrumentos de
conhecimento mais flexíveis de conhecimento, embora ainda não-classificados,
mesmo quando seu valor e poder são admitidos, como uma alucinação. Na psicologia
oriental, isso sempre foi reconhecido como realidade e como a meta de nosso
progresso subjetivo. A essência da superação dessa meta é a ultrapassagem dos
limites impostos em nós pelo ego-sentido, e pelo menos um compartilhamento, no
máximo uma identificação do autoconhecimento-do-ser que paira secreto sobre toda
a vida e sobre tudo o que parece a nós ser inanimado.
Entrando nessa Consciência, podemos continuar a
habitar, como Ela, a existência universal. Então tornamo-nos conscientes — pois
todos os nossos termos de consciência e mesmo nossas experiências sensoriais
começam a mudar— da Matéria como uma existência e dos corpos como suas
formações, nas quais a existência una separa-se fisicamente, no corpo
individual, de si mesma e em todos os demais, e, novamente por meios físicos,
estabelece comunicação entre estes múltiplos pontos de seu ser. A Mente,
experimentamo-la de forma semelhante, e a Vida também, como a mesma existência
una em sua multiplicidade, separando-se e reunindo-se em cada domínio como por
meios apropriados a esse movimento. E, se desejamos, podemos ir além e, após
atravessar muitas etapas conexas, tornar-nos conscientes de uma Supramente cuja
operação universal é a chave para todas as atividades menores. Não nos tornamos
meramente conscientes dessa existência cósmica, mas igualmente conscientes nela,
recebendo-a em sensação, mas também entrando nela em conhecimento. Nela vivemos
como vivíamos no Ego-sentido, ativamente, cada vez mais em contato, até mesmo
unificados mais e mais com outras mentes, outras vidas, outros corpos distintos
do organismo que chamamos de nós, produzindo efeitos não só em nosso ser moral e
mental e no ser subjetivo de outros, mas também no mundo físico e seus eventos
por meios mais próximos do divino que aqueles possíveis para nossa capacidade
egoísta.
Real,
então, para o homem que teve contato com ela ou vive nela, é essa consciência
cósmica, de uma realidade maior que a física; real em si mesma, real em seus
efeitos e obras. E como ela é dessa forma real para o mundo, que é a sua própria
expressão total, dessa mesma forma o mundo é real para ela; mas não como uma
existência independente. Pois, nessa experiência superior e sem obstáculos,
percebemos que ser e consciência não são diferentes um do outro, e sim todo ser
é uma consciência suprema, toda consciência é autoexistente, eterna em si mesma,
real em suas obras e nem um sonho nem uma evolução. O mundo é real precisamente
porque ele existe somente em consciência; pois é uma Energia Consciente uma com
o Ser que o cria. É a existência da forma material por seu próprio direito,
diferente da energia auto-iluminada que assume a forma que seria uma contradição
em relação à verdade das coisas, uma fantasmagoria, um pesadelo, uma falsidade
impossível.
Mas
este Ser Consciente que é a verdade da infinita Supramente, é mais que o
Universo e vive independentemente em Sua inexpressiva infinitude, bem como nas
harmonias cósmicas. O mundo vive através Dele; Ele não vive através do mundo.
E, assim como podemos entrar na consciência cósmica e ser uno com a existência
cósmica, também podemos entrar na consciência que transcende ao mundo e
tornarmo-nos superiores a toda a existência cósmica. Então ressurge a questão
que nos ocorreu em princípio, se essa transcendência é também, necessariamente,
uma renúncia. Que relação tem este universo com o Além?
Pois,
nos portões do transcendente acha-se aquele Espírito simples e perfeito descrito
nos Upanishads, luminoso,
puro, sustentando o mundo mas inativo nele, sem fibras de energia, sem
imperfeição de dualidade, sem marcas de divisão, único, idêntico, livre de toda
a aparência de divisão ou de multiplicidade - o puro Eu dos Adwaitins
[3], o inativo
Brahman, o transcendente Silêncio. E a Mente, quando passa por estes portões
repentinamente, sem transições intermediárias, recebe um senso de irrealidade
do mundo e da única realidade do Silêncio, que é uma das mais poderosas e
convincentes experiências das quais é capaz a mente humana. Aqui, na percepção
desse puro Eu ou do Não-Ser por trás dele, temos o ponto de partida para a
segunda negação ― paralela, no outro pólo, ao materialista, porém mais completa,
mais definitiva, mais perigosa em seus efeitos sobre os indivíduos ou
coletividades que ouvem seu poderoso chamado para o deserto — a renúncia do
asceta.
É essa
a revolta do Espírito contra a Matéria que, por dois mil anos — desde o Budismo
perturbou o equilíbrio do velho mundo ariano — dominou crescentemente a mente
indiana. Não que o senso da ilusão cósmica seja o total do pensamento indiano;
há outras afirmações filosóficas, outras aspirações religiosas. Tampouco um
ajuste entre os dois termos foi tentado mesmo pelas filosofias mais radicais.
Mas todos viveram na sombra da grande Renúncia e do término da vida, pois essa é
a atitude do asceta. A concepção da vida foi impregnada com a teoria budista da
cadeia do karma e com a conseguinte antinomia da escravidão e liberação,
escravidão por nascimento, liberação por cessação do nascimento. Por isso,
todas as vozes se juntaram num grande consenso: não é neste mundo de dualidades
que acontecerá o nosso reinado celestial, senão no mais além, nas beatitudes do
eterno Vrindavan [4]
ou na superior bem-aventurança de Brahmaloka [5], além de todas as manifestações
nalgum inefável Nirvana
[6], ou onde toda a experiência individual se perde na
indistinta unidade da Existência indefinível. E por muitos séculos, um grande
exército de brilhantes testemunhas, santos e mestres, nomes sagrados para a
memória da Índia e dominantes na imaginação indiana, mantiveram sempre o mesmo
testemunho e acrescentaram sempre o mesmo sublime e distante apelo - renúncia
como o único caminho para o conhecimento, a aceitação da vida física seria o ato
do ignorante, a cessação dos nascimentos como o uso correto do nascimento
humano, o chamado ao Espírito, o recuo em relação à Matéria.
Para
uma era isenta de simpatia para com o espírito ascético — e através de todo o
resto do mundo, a hora do Anacoreta (religioso que vive em solidão) parece ter
passado ou está passando ―é fácil atribuir esta grande tendência à falta de
energia vital numa antiga raça esgotada em razão de seu fardo, sua vasta
contribuição ao avanço comum; exausta por sua multifacetada contribuição ao
conjunto do esforço humano e ao humano conhecimento. Mas vimos que isto
corresponde a uma verdade na existência, um estado de realização consciente que
se encontra no verdadeiro ápice de nossas possibilidades. Na prática, também o
espírito ascético é um elemento indispensável da perfeição humana, e não se pode
evitar até mesmo a sua afirmação isolada até que a espécie tenha, por outro
lado, liberado seu intelecto e seus hábitos vitais da sujeição a um sempre
insistente animalismo.
Buscamos, na verdade, uma afirmação maior e mais
completa. Percebemos, que no ideal ascético indiano, a grande fórmula
Vedântica, “Um sem um segundo”, não foi suficientemente lida à luz daquela
outra fórmula igualmente imperativa: “Tudo isso é o Brahman". A aspiração
apaixonada do homem em direção ao Divino não foi suficientemente relacionada com
o movimento descendente do Divino, inclinando-se para baixo para abraçar
eternamente Sua manifestação. Seu significado na Matéria não foi suficientemente
compreendido, como Sua verdade no Espírito. A Realidade que o Sannyasin (Asceta)
busca foi captada em sua plena elevação, mas não, como dizem os antigos
Vedantas, mas não em sua completa extensão e compreensão. Mas, em nossa
afirmação mais completa não devemos minimizar a parte que ocupa o puro impulso
espiritual. Vimos em que grande proporção o Materialismo serviu aos fins do
Divino; assim, devemos reconhecer os serviços ainda maiores, rendidos pelo
Ascetismo à Vida. Devemos preservar as verdades da Ciência material e suas reais
utilidades na harmonia final, mesmo se muitas ou se todas as formas existentes
tiverem que ser quebradas ou abandonadas. Um escrúpulo ainda maior de correta
conservação deve guiar-nos em nosso trato com o legado - na realidade diminuído
ou depreciado - do passado Ariano.
[1] Versos 2, 7.
[2] Súksma
indriya, órgãos sutis, existentes no corpo sutil (súksma deha) e o meio da visão
e experiência sutis (súksma drsti).
[3 ] Os Monistas Vedânticos.
[4] Goloka,
o céu dos Vaishnavas, da Beleza e Bem-aventurança
eternas.
[5] O
supremo estado da existencia, consciência e beatitude puras,
alcançável pela alma sem a completa extinção no
Indefinível.
[6] Extinção, não necessariamente de todo o ser, senão
do ser tal qual o conhecemos; extinção do ego, do desejo, e da ação e
mentalidade egoísta.
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