Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




REALIDADE ONIPRESENTE (A Filosofia de Sri Aurobindo) Cap.II

REALIDADE ONIPRESENTE
A base fundamental sobre a qual repousa a estrutura da metafísica de Sri Aurobindo é que tanto a



matéria como o espírito são reais. Nem o espírito nem a matéria devem ser rejeitados como uma

ilusão. A filosofia idealista que nega a matéria tem visão tão limitada quanto a filosofia materialista

que nega o espírito. Ambas, se levadas às suas conclusões extremas, conduzem a uma

desvalorização da existência cósmica e da vida humana individual. Permanecendo à parte como

filosofias separadas, nem o materialismo nem o idealismo podem apresentar qualquer motivo

satisfatório para o esforço de aperfeiçoar o mundo ou a nós mesmos no mundo.

Partindo de um ponto de vista idealista absoluto, o mundo fenomenal é uma ilusão, uma miragem,

ou, no máximo, uma aparência da realidade última que é Espírito ou Idéia Arquetípica, e apenas

existe como alguma forma de realidade para a mente ignorante ou não iluminada, isto é, quando nós

alcançamos o conhecimento e iluminação, o mundo fenomenal será percebido como ilusório. O

materialista, por outro lado, não aceita a realidade do Espírito ou Idéia Arquetípica e refere-se a

toda experiência mental ou espiritual como um mero fenômeno secundário, incapaz de produzir

resultados. O materialista argumenta que existe apenas uma substância ou energia mecânica não

inteligível chamada natureza que irá sobreviver ao nosso momento particular da história humana.

Ao propor um monismo mecânico de energia, o materialista fica limitado na busca da verdade

metafísica e deve necessariamente levar a busca à transcendência, imortalidade e liberdade.

Sri Aurobindo afirma que nessas contradições, a mente humana não pode chegar a uma conclusão

satisfatória, pois a mente procura reconciliar e:

"Para alcançar aquela reconciliação, deve-se ultrapassar os graus que nossa consciência interior

impõe sobre nós e, seja por método objetivo de análise aplicado à Vida e Mente e Matéria, seja por

síntese subjetiva e iluminação, chegar ao ponto onde repousa a unidade última sem negar a energia

da multiplicidade expressiva." (1)

Longe disso, contudo, a humanidade tem necessitado testar separadamente, a seus extremos limites,

cada uma dessas oposições. Por exemplo, o argumento materialista falha porque pode ser

demonstrado que mesmo o conhecimento sensorial transcende os sentidos; ele é uma reconstrução

das sensações pelos poderes mais altos da mente. Nós sabemos que para os sentidos o sol gira em

torno da terra. Por outro lado, o materialismo tem servido a um propósito filosófico favorável

orientando a mente das pessoas em direção ao mundo objetivo e admitindo um desconhecido por

detrás de toda manifestação. Sri Aurobindo considera que um saudável agnosticismo é a chave para

o conhecimento, pois o universo sempre se apresenta como um mero símbolo de uma realidade

desconhecida "que se traduz aqui em diferentes sistemas de valores" (2).

O idealista também tem prestado um serviço filosófico auxiliando a orientar a mente das pessoas

em direção à procura de uma união mais alta com Deus. A verdade das percepções e concepções

dos idealistas sobre a divindade transcendente é inegável e tem uma maior realidade que o físico

desde que é livre de todas aparências de relações.

O conceito maior de Sri Aurobindo é que cada escola de pensamento limita a si própria a suas

próprias experiências ao recusar a validade das outras. A diferença entre o materialista e o idealista

pode parecer meramente metafísica, mas tem uma importância extremamente prática; ela determina

nossa inteira visão sobre a existência e "levanta a questão do valor da vida humana" (3). Em outras

palavras, se nós somos meramente indivíduos transitórios, então metas éticas, esforços mentais,



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aspirações e mesmo a própria vida podem ser apenas uma breve ilusão. Idealismo absoluto e

materialismo absoluto, ambos chegam a um mundo que é e não é ao mesmo tempo, -"é, porque é

presente e compelidor, e não é, porque é fenomenal e transitório..." (4).

Era experiência de Sri Aurobindo que ambas escolas de pensamento são parte da verdade e uma não

precisa comprometer ou contradizer a outra. A verdadeira reconciliação surge quando nós

"admitimos tanto o clamor do Espírito Puro para manifestar em nós sua liberdade absoluta como o

clamor da matéria universal, para ser o molde e a condição de nossa manifestação" (5).

Se a noção idealista de Espírito Puro e o conceito materialista de Matéria são dois lados da verdade,

a questão do Uno (espírito) e o múltiplo (matéria) se levanta. Como pode o Uno tornar-se o múltiplo

e o múltiplo permanecer o múltiplo sem diminuir a unidade do Uno? A resposta de Sri Aurobindo

repousa na sua afirmação do Uno absoluto como a Realidade Onipresente: "Um sem um segundo...

Tudo isso (tanto espírito como matéria) é o Brahman" (6). Nesse sentido, Brahman (a Divindade) é

ao mesmo tempo imanente e transcendente. Sri Aurobindo fala de seus três aspectos como

transcendente, cósmico e individual:

"Brahman é o absoluto, o Transcendente e incomunicável, a Existência Supracósmica que sustenta

o cosmos, o Si Cósmico que mantém todos os seres, mas é também o si de cada indivíduo: a alma,

ou a entidade psíquica é uma porção eterna do Ishvara (7); é sua Natureza suprema ou Consciência-

Força que se tornou o ser vivente em um mundo de seres vivos. O Brahman sozinho é, e por causa

dele todos são, pois tudo é Brahman; esta Realidade é a realidade de tudo o que nós vemos no Si e

na Natureza... O Senhor dos Seres é aquele que é consciente no ser consciente, mas ele também é o

Consciente em coisas inconscientes, o uno que é mestre e controla o múltiplo que está passivo nas

mãos da Força-Natureza. Ele é o Atemporal e o Tempo; Ele é o Espaço e tudo o que está no

Espaço; Ele é Causalidade e a causa e o efeito: Ele é o pensador e seu pensamento, o guerreiro e sua

coragem, o jogador e seus dados lançados. Todas realidades e todos aspectos e todos semblantes são

Brahman." (8)

Esses três, o transcendente, o cósmico e o individual, têm realidade, mas a primazia permanece com

o transcendente. O mundo existe pelo transcendente, o transcendente não existe pelo mundo.

A realidade onipresente, como Sri Aurobindo a concebe, é o princípio Sachchidananda (9) (Sat:

Existência, Chit: Consciência-Força, Ananda: Deleite ou Bem-Aventurança). Esses três atributos

são um e inseparáveis; isto é, Sat é Chit e também Ananda. Existência é Consciência-Força que é

também Deleite. O Absoluto Transcendente Uno é a realidade básica. Desde que Brahman é não

apenas transcendente, mas também imanente, a atividade cósmica e a individual como manifestação

do "Aquilo" são igualmente reais. Aí repousa a verdadeira reconciliação de espírito e matéria.

O Brahman silencioso (transcendente) e o Brahman ativo (imanente) não são opostos

irreconciliáveis, eles são dois atributos de Brahman - positivo e negativo, cada um sendo necessário

ao outro. "É para fora desse Silêncio que a palavra que criou os mundos para sempre se origina..."

(10). Em outras palavras, do Silêncio emana energias ativas para dentro do universo. O silêncio

transcendente pode ser chamado não-ser que está além de toda existência cósmica. Mas isso não

nega o cósmico e o individual como expressão de Si próprio. "No princípio", diz Sri Aurobindo,

"tudo isso era o Não-Ser. Foi então que o Ser nasceu" (11). Existência é uma expressão do não-ser,

mas é chamado não-ser para indicar sua liberdade de qualquer necessidade ou atividade que seja"

(12).

O segundo aspecto da triplicidade, Chit (consciência) é também referida como "Chit-Shakti" ou

Consciência-Força. Sri Aurobindo chama essa força de Força-Mãe (princípio feminino). Ela é uma

força consciente inerente em Sat, e aí pode estar em movimento ou em repouso, mas, seja qual for o



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modo, a força existe; é a natureza de Chit ter "três diferentes estados de sua consciência em relação

a sua própria eternidade" (13). O primeiro estado é aquele de repouso, auto-absorvida ou autoconsciente,

sem desenvolvimento de consciência em movimento. Este é denominado por Sri

Aurobindo sua "Eternidade sem tempo". O segundo é a "Todo-Consciência" das relações de tudo

pertencente a uma potencial manifestação ou manifestação já em processo. Aqui, passado, presente

e futuro são unidos em um. O terceiro estado é aquele de um movimento em processo da

Consciência-Força: o movimento "Tempo". Há ao mesmo tempo esta simultânea multiplicidade da

Realidade una que, diz Sri Aurobindo, co-existe com um eterno atemporal e uma eternidade do

tempo. Desde que Chit é o princípio operativo do universo, "pode ver o Atemporal desenvolver o

movimento-do-Tempo sem cessar de ser o Atemporal" (14). Nessas três formas, Chit:

"permanece acima dos mundos e interliga a criação ao sempre não manifesto... [e] cria todos esses

seres e contém, penetra, suporta e conduz todos esses milhões de processos e forças... incorpora o

poder deles... os faz vivos e próximos a nós". (15)

Por essa asserção de Consciência com Força, Sri Aurobindo evita o idealismo absoluto.

Talvez um dos mais proeminentes aspectos da filosofia de Sri Aurobindo seja a importância que ele

atribui a Chit-Shakti, a Mãe divina da filosofia Tântrica (16) original. Ela é o ser e o vir-a-ser:

"Tudo é ela, pois tudo é parcela e porção da Consciência-Força divina. Nada pode ocorrer aqui ou

em qualquer outro lugar além do que ela decidir e o Supremo sancionar; nada pode tomar forma

exceto o que ela, movida pelo Supremo, percebe e forma após lançar este em semente em sua

Ananda criadora." (17)

A natureza da Ananda (Deleite, Bem-Aventurança) de Sachchidananda é manifestada como a

multiplicidade de seres finitos e dos processos-de-mundo. Aqui, Brahman torna-se forma em

substância material para desfrutar "auto-manifestação" na consciência relativa e fenomenal:

"Brahman está nesse mundo para representar a si próprio nos valores da Vida. A Vida existe em

Brahman para descobrir Brahman em si própria. Portanto a importância do homem no mundo é que

ele dá ao mundo aquele desenvolvimento de consciência no qual sua transfiguração por uma

perfeita auto-descoberta torna-se possível. Cumprir Deus na vida é a humanidade do homem. Ele

parte da vitalidade animal e suas atividades, mas uma existência divina é seu objetivo." (18)

A Consciência-Força está em tudo que existe e tudo existe em virtude dessa Consciência-Força;

também, em tudo que é, reside Ananda, o deleite da existência, e as coisas são o que elas são por

causa desse deleite. Mas para nossa mente existem duas contradições significativas, a consciência

emocional e sensitiva da dor e o problema ético do mal. Como é possível explicar a presença

universal da dor e sofrimento se supõe-se que o mundo é o deleite da existência?

Se Brahman fosse um Deus pessoal e extra-cósmico sobre e acima do universo, e não afetado pela

existência, dor e sofrimento não poderiam ser explicados. Mas se é verdade que "Sachchidananda...

é uma existência sem um segundo; tudo o que é, é Ele" (19), então dor e sofrimento e mal são mais

manifestações de Deleite que negações de Deleite. As noções ordinárias de bem e amor que nós

julgamos Deleite e Bem-Aventurança vem de nossa equivocada concepção dualística das coisas.

Dessa base de referência dualística nós construímos um padrão de ética a respeito de o que é bom e

o que é ruim, mas é o mundo em que vivemos um mundo ético?

"A tentativa do pensamento humano em forçar um significado ético na totalidade da Natureza é um

daqueles atos de deliberada e obstinada auto-confusão, uma daquelas patéticas tentativas do ser

humano de ler a si próprio, seu habitual limitado si humano, em todas as coisas e julgá-los do ponto



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de vista que ele desenvolveu pessoalmente, que mais efetivamente impede-o de chegar a um real

conhecimento e completa visão." (20)

Ética é apenas um estágio na evolução e nela repousa o impulso para a auto-expressão. O mundo

possui três estágios: infra-ético, ético e supra-ético. Comum a eles está a Consciência-Força

desenvolvendo-se em formas para encontrar seu deleite. Moralidade, portanto, não deve ser tratada

como um padrão último de realidade.

A maioria de nós tende a julgar prazer e dor pela consciência mental e emocional ordinária, que é

limitada e depende quase inteiramente de hábito. Mas :

"Quando o deleite de ser busca realizar a si próprio como deleite do vir-a-ser, entra no movimento

de forças e toma diferentes formas de movimento do qual prazer e dor são correntes positivas e

negativas." (21)

No estágio ético, o deleite é caracterizado por dualidades de certo e errado, bom e mal, prazer e dor.

Conforme nosso próprio estado de consciência se move em direção a uma consciência mais cósmica

e além de nossas visões limitadas, nós experienciaremos o verdadeiro deleite universal dentro de

nós.

A natureza da Realidade Onipresente é então o Absoluto transcendente manifestando a Si próprio

como uma Consciência-Força universal e criando multiplicidades individuais para fora do autodeleite.

E esta é a realidade que a humanidade é - a causa e a meta do crescimento e criatividade:

"Como o poeta, artista ou músico quando cria não faz realmente nada, mas apenas desenvolve

alguma potencialidade de seu Si não manifestado em uma forma de manifestação e como o

pensador, estadista, mecanicista apenas dão forma a coisas que jaziam escondidas neles próprios

quando sua criação é posta em forma, assim ocorre com o mundo e o eterno." (22)

Toda criação ou vir-a-ser é esta auto-manifestação. "Para fora da semente evolui aquilo que já está

na semente..." (23). E se há uma meta na manifestação da auto-existência, diz Sri Aurobindo, ela

apenas pode ser uma complementação ou perfeição do indivíduo. Mas se, como algumas escolas de

pensamento colocam, a consciência individual está concentrada dentro dos limites das formas

finitas, uma completude é impossível. A meta final é a "emergência da consciência infinita no

individual" (24). A única maneira de podermos recobrar a verdade de quem somos nós é por autoconhecimento,

que é a verdade do Infinito em consciência, ser e deleite. O finito é meramente um

instrumento para essa expressão infinita.

"Então, pela verdadeira natureza do jogo-de-mundo como tem sido realizado por Sachchidananda

na vastidão de Sua existência estendida como Espaço e Tempo, nós temos que conceber primeiro

uma involução e uma auto-absorção do ser consciente para dentro da densidade e divisibilidade

infinita da substância, pois de outra maneira não poderia haver variação infinita; depois, uma

emergência da força auto-aprisionada para ser formal, ser vivo, ser pensante; e finalmente uma

liberação do ser pensante formado em uma livre realização de si próprio como o Uno e o Infinito

em ação no mundo e pela liberação, sua recuperação da Existência-Consciência-Deleite sem limites

que mesmo agora é secretamente, realmente e eternamente. Esse triplo movimento é a chave

integral do enigma-do-mundo." (25)

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