Essencialmente, Aurobindo diz que a evolução ainda não terminou, que um novo princípio de consciência deve emergir, a Supramente, e o Yoga é uma tomada de consciência e um auxiliar conscientemente a Natureza em seu processo evolucionário.




A VIDA DIVINA (SRI AUROBINDO) -- Capítulo III

AS DUAS NEGAÇÕES

A renúncia do asceta

"Tudo isso é o Brahman; este Eu é o Brahman e o Eu é quádruplo.
Além de toda relação, incolor, impensável, em que tudo está imóvel."
Mandukya Upanishad [1]

E AINDA existe um além.
Pois do outro lado da consciência cósmica existe uma consciência ainda mais transcendente, acessível para nós - transcendente não só para o Ego como também para o próprio Cosmos - contra a qual o universo parece sobressair-se como uma pequenina pintura contra um in­comensurável fundo. Ela (essa consciência) suporta a atividade universal - ou talvez apenas a tolera; Isso (ela) abraça a Vida em Sua vastidão - ou então a rejeita, em Sua Infinitude.
Se o materialista se justifica, do seu ponto-de-vista, insistindo na Matéria como realidade, o mundo relativo como a única coisa sobre a qual podemos, de certo forma, estar seguros, e o Além como totalmente incognoscível, senão realmente inexistente, um sonho da mente, uma abstração do Pensamento que se divorcia da realidade, assim também o Sannyasin (Asceta), enamorado desse Além, justifica-se, do seu ponto-de-vista, insistindo no puro Espírito como realidade, a única coisa livre de mudança, nasci­mento, morte, e o mundo relativo como uma criação da mente e dos sen­tidos, um sonho, uma abstração no sentido contrário ao da Mentalidade retirando-se do puro e eterno Conhecimento.
Que justificação, lógica ou experimental, pode ser dada para apoiar um extremo que não encontra uma lógica convincente e uma experiência igualmente válida no outro extremo? O mundo da Matéria é afirmado pela experiência dos sentidos físicos, que, por serem eles mesmos incapazes de perceber algo imaterial ou não-organizado como a Matéria bruta, iriam persuadir-nos de que o suprassensível é irreal. Este erro rústico ou vulgar de nossos órgãos corporais não ganha valor por ser promovido ao campo do raciocínio filosófico. Sua pretensão, obviamente, é infundada. Mesmo no mundo da Matéria, há existências das quais os sentidos físicos são incapazes de tomar conhecimento. Mas a negação do suprassensível, considerando-o necessariamente uma ilusão ou uma alucinação, depende da constante associação sensorial do real com o materialmente perceptível, o que é também uma alucinação. Presumindo todo o tempo o que ele procura estabelecer, cai no vício do argumento em círculos e não tem valor como raciocínio imparcial.
Não só existem realidades físicas que são suprassensíveis, como, se a evidência e a experiência são realmente um teste para a verdade, há também sentidos que são suprafísicos [2] e pertencentes a um outro mundo - incluídos, por assim dizer, numa organização de experiências conscientes que dependem de outro princípio que não a Matéria bruta da qual nossos sóis e terras parecem feitos.
Constantemente afirmada pela experiência humana e a hu­mana crença desde as origens do pensamento, essa verdade, agora que a preocupação exclusiva com os segredos do mundo material já não existe, começa a ser justificada por novas formas de raciocínio científico. As crescentes evidências, das quais só as mais óbvias e explícitas se colocam sob a denominação de telepatia e fenômenos derivados, não podem ser negadas a não ser por mentes enclausuradas na brilhante concha do passado, por intelectos limitados, apesar de sua acuidade, no seu campo de experiência e investigação, ou por aqueles que confundem iluminação e razão com a fiel repetição de fór­mulas legadas por um século passado e pela ciumenta conservação de dogmas intelectuais mortos ou agonizantes.
É certo que o vislumbre de realidades suprafísicas adqui­rido através de pesquisa metódica foi imperfeito e ainda é mal afirmado; pois os métodos usados são ainda defeituosos. Mas estes sentidos sutis redescobertos ao menos revelaram-se verdadeiras testemunhas dos fatos físicos que estão além do alcance dos órgãos corporais. Então não se justifica rejeitá-los como falso testemunho, quando eles confirmaram os fatos suprafísicos que estão além do campo da organização material da consciência. Como toda evidência, como a própria evidência dos sentidos, seu testemunho tem que ser controlado, escrutinado e ordenado pela razão, corretamente traduzido e corretamente relatado, e seu campo, leis e processos, determinados. Mas a verdade das grandes extensões de experiência cujos objetos existem numa substância mais sutil e são percebidos por instrumentos mais sutis do que aqueles da física Matéria bruta, reclama no final o mesmo valor que a verdade do universo material. Os mundos que estão além existem: eles têm seu ritmo universal, suas grandes linhas e formações, suas leis e energias auto-existentes poderosas, seu justo e luminoso meio de conhecimento. E aqui em nossa existência física e em nosso corpo físico eles exercem sua influência; é aqui também que eles organizam seu meio de manifestação e comissionam seus mensa­geiros e suas testemunhas.
Mas os mundos não são se não molduras para nossa experiência e sentidos, apenas instrumentos de experiência e conveniências. A Con­sciência é o grande fato subjacente, a testemunha universal para a qual o mundo é um campo de ação, e os sentidos, instrumentos. Para essa testemunha, os mundos e seus objetos apelam por sua realidade, pois tanto o único mundo como os muitos mundos, não temos outra evidência de que existam, tanto o físico como o suprafísico. Argumentou-se que isso não é uma relação peculiar entre a constituição da humanidade e sua pers­pectiva de um mundo objetivo, e sim a verdadeira natureza da existência; toda existência fenomênica consiste em uma consciência observadora mais, e a Ação não pode proceder sem a Testemunha, porque o Universo só existe na ou para a consciência que observa, e não tem realidade independente. Foi argumentado, em resposta, que o universo material desfruta de uma auto-existência eterna; ele estava aqui antes que a vida e a mente fizessem sua aparição: ele irá sobreviver depois que elas tiverem desaparecido e já não estejam perturbando - com suas dispustas efêmeras e pensamentos limitados - o ritmo eterno e inconsciente dos sóis. A diferença, tão metafísica em aparên­cia, é porém de suprema importância prática, pois ela determina a visão que o homem tem da vida, o objetivo ao qual se dirigirão seus esforços e o campo no qual ele circunscreverá suas energias. Pois aí surge a questão da realidade da existência cós­mica e, ainda mais importante, a questão do valor da vida humana.
Se levamos muito longe a conclusão materialista, chegaremos a uma insignificância e uma irrealidade na vida do indivíduo e da espécie que nos deixarão, logicamente, a opção entre um esforço fer­voroso do indivíduo por “agarrar” o que puder de uma existência efêmera, por “viver sua vida”, como se diz, e um serviço desapaixonado e sem ob­jetivo da espécie e do indivíduo, sabendo-se que este último é uma ficção efêmera da mentalidade nervosa, e o anterior, nada mais que uma forma coletiva, um pouco mais duradoura, do mesmo espasmo nervoso regular da Matéria. Nós trabalhamos e desfrutamos sob o impulso de uma energia material que nos decepciona com a breve ilusão da vida ou com a mais nobre ilusão de um objetivo ético e de uma consumação mental. O Materialismo, como o Monismo espiritual, conduz-nos a uma Maya que é e não é – é, porque é presente e compulsiva, e não é, porque é fenomênica e transitória em suas obras. Por outro lado, se acentuamos demasiado a irrealidade do mundo objetivo, chegaremos por um caminho diferente, a conclusões semelhantes porém ainda mais incisivas - o caráter fictício do Ego individual, a irrealidade e a falta de propósito da existência humana, o retorno ao Não-Ser ou Absoluto sem relações como único escape racional da confusão desprovida de sentido da vida fenomênica.
E no entanto, a questão não pode ser resolvida pelo argumento lógico com base nas informações de nossa existência física ordinária; pois nessas informações há um hiato de experiência que torna qualquer argumento inconclusivo. Não temos, normalmente nem a experiência definitiva de uma mente cósmica ou supramente não-ligada à vida do corpo individual, nem, por outro lado, nenhum limite firme de experiência que nos justificaria, supondo que nosso Eu subjetivo realmente depende da moldura física e não pode nem sobreviver a ela nem alargar-se além do corpo individual. Só por uma extensão do campo de nossa consciência ou com um inesperado aumento de nossos instrumentos de conhecimento a antiga querela poderá ser decidida.
A extensão de nossa consciência, para ser satisfatória, tem de ser necessariamente um prolongamento do indivíduo para a consciência cósmica. Para a Testemunha, se ela existe, não é a mente corporificada individual nascida no mundo, mas aquela Consciência Cósmica que abarca o universo e aparece como uma Inteligência imanente em todas suas obras, para qual cada mundo subsiste eternamente e realmente como Sua própria existência ativa, ou então da qual ele nasce e na qual ele des­aparece por um ato de Conhecimento ou por um ato de Poder consciente. Não uma Mente organizada, mas aquela que, calma e eterna, paira igualmente sobre a terra vivente e o corpo humano vivente, e para a qual mente e sentidos são instrumentos dispensáveis, e esse é a Testemunha da existência cósmica e o seu Senhor.
A possibilidade de uma consciência cósmica na humanidade esta sendo pouco a pouco admitida na moderna Psicologia, como também a possibilidade de instrumentos de conhecimento mais flexíveis de conhecimento, embora ainda não-classificados, mesmo quando seu valor e poder são admitidos, como uma alucinação. Na psicologia oriental, isso sempre foi reconhecido como realidade e como a meta de nosso progresso subjetivo. A essência da superação dessa meta é a ultrapassagem dos limites impostos em nós pelo ego-sentido, e pelo menos um compartilhamento, no máximo uma identificação do autoconhecimento-do-ser que paira secreto sobre toda a vida e sobre tudo o que parece a nós ser inanimado.
Entrando nessa Consciência, podemos continuar a habitar, como Ela, a existência universal. Então tornamo-nos conscientes — pois todos os nossos termos de consciência e mesmo nossas ex­periências sensoriais começam a mudar— da Matéria como uma existência e dos corpos como suas formações, nas quais a existência una separa-se fisicamente, no corpo individual, de si mesma e em todos os demais, e, novamente por meios físicos, estabelece comunicação entre estes múltiplos pontos de seu ser. A Mente, experimentamo-la de forma semelhante, e a Vida também, como a mesma existência una em sua multiplicidade, separando-se e reunindo-se em cada domínio como por meios apropriados a esse movi­mento. E, se desejamos, podemos ir além e, após atravessar muitas etapas conexas, tornar-nos conscientes de uma Supramente cuja operação universal é a chave para todas as atividades menores. Não nos tornamos meramente conscientes dessa existência cósmica, mas igualmente conscientes nela, recebendo-a em sensação, mas também entrando nela em conhecimento. Nela vivemos como vivíamos no Ego-sentido, ativamente, cada vez mais em contato, até mesmo unificados mais e mais com outras mentes, outras vidas, outros corpos distintos do organismo que chamamos de nós, produzindo efeitos não só em nosso ser moral e mental e no ser subjetivo de outros, mas também no mundo físico e seus eventos por meios mais próximos do divino que aqueles possíveis para nossa capa­cidade egoísta.
Real, então, para o homem que teve contato com ela ou vive nela, é essa consciência cósmica, de uma realidade maior que a física; real em si mesma, real em seus efeitos e obras. E como ela é dessa forma real para o mundo, que é a sua própria expressão total, dessa mesma forma o mundo é real para ela; mas não como uma existência inde­pendente. Pois, nessa experiência superior e sem obstáculos, per­cebemos que ser e consciência não são diferentes um do outro, e sim todo ser é uma consciência suprema, toda consciência é autoexistente, eterna em si mesma, real em suas obras e nem um sonho nem uma evolução. O mundo é real precisamente porque ele existe somente em consciência; pois é uma Energia Consciente uma com o Ser que o cria. É a exis­tência da forma material por seu próprio direito, diferente da energia auto-iluminada que assume a forma que seria uma contradição em relação à verdade das coisas, uma fantasmagoria, um pesadelo, uma falsidade impossível.
Mas este Ser Consciente que é a verdade da infinita Supramente, é mais que o Universo e vive independentemente em Sua inexpressiva infinitude, bem como nas harmonias cósmi­cas. O mundo vive através Dele; Ele não vive através do mundo. E, assim como podemos entrar na consciência cósmica e ser uno com a existência cósmica, também podemos entrar na consciência que transcende ao mundo e tornarmo-nos superiores a toda a existência cósmica. Então ressurge a questão que nos ocorreu em princípio, se essa transcendência é também, necessariamente, uma renúncia. Que relação tem este universo com o Além?
Pois, nos portões do transcendente acha-se aquele Espírito simples e perfeito descrito nos Upanishads, luminoso, puro, sustentando o mundo mas inativo nele, sem fibras de energia, sem imperfeição de dualidade, sem marcas de divisão, único, idêntico, livre de toda a aparência de divisão ou de multiplicidade - o puro Eu dos Ad­waitins [3], o inativo Brahman, o transcendente Silêncio. E a Mente, quando passa por estes portões repentinamente, sem transições inter­mediárias, recebe um senso de irrealidade do mundo e da única realidade do Silêncio, que é uma das mais poderosas e convincentes experiências das quais é capaz a mente humana. Aqui, na per­cepção desse puro Eu ou do Não-Ser por trás dele, temos o ponto de partida para a segunda negação ― paralela, no outro pólo, ao materialista, porém mais completa, mais definitiva, mais perigosa em seus efeitos sobre os indivíduos ou coletividades que ouvem seu poderoso chamado para o deserto — a renúncia do asceta.
É essa a revolta do Espírito contra a Matéria que, por dois mil anos — desde o Budismo perturbou o equilíbrio do velho mundo ariano — dominou crescentemente a mente indiana. Não que o senso da ilusão cósmica seja o total do pensamento indiano; há outras afirmações filosóficas, outras aspirações reli­giosas. Tampouco um ajuste entre os dois termos foi tentado mesmo pelas filosofias mais radicais. Mas todos viveram na sombra da grande Renúncia e do término da vida, pois essa é a atitude do asceta. A concepção da vida foi impregnada com a teoria budista da cadeia do karma e com a conseguinte antinomia da escravidão e liberação, escravidão por nasci­mento, liberação por cessação do nascimento. Por isso, todas as vozes se juntaram num grande consenso: não é neste mundo de dua­lidades que acontecerá o nosso reinado celestial, senão no mais além, nas beatitudes do eterno Vrindavan [4] ou na superior bem-aventurança de Brahmaloka [5], além de todas as manifestações nalgum inefável Nirvana [6], ou onde toda a experiência individual se perde na indis­tinta unidade da Existência indefinível. E por muitos séculos, um grande exército de brilhantes testemunhas, santos e mestres, nom­es sagrados para a memória da Índia e dominantes na imaginação indiana, mantiveram sempre o mesmo testemunho e acrescentaram sempre o mesmo sublime e distante apelo - renúncia como o único caminho para o conhecimento, a aceitação da vida física seria o ato do ignorante, a cessação dos nascimentos como o uso correto do nasci­mento humano, o chamado ao Espírito, o recuo em relação à Matéria.
Para uma era isenta de simpatia para com o espírito ascético — e através de todo o resto do mundo, a hora do Anacoreta (religioso que vive em solidão) parece ter passado ou está passando ―é fácil atribuir esta grande tendência à falta de energia vital numa antiga raça esgotada em razão de seu fardo, sua vasta contribuição ao avanço comum; exausta por sua multifacetada contribuição ao conjunto do esforço humano e ao humano conhecimento. Mas vimos que isto corresponde a uma verdade na existência, um estado de realização consciente que se encontra no verdadeiro ápice de nossas possibilidades. Na prática, também o espírito ascético é um elemento indispensável da perfeição humana, e não se pode evitar até mesmo a sua afirmação isolada até que a espécie tenha, por outro lado, liberado seu intelecto e seus hábitos vitais da sujeição a um sempre insistente animalismo.
Buscamos, na verdade, uma afirmação maior e mais completa. Percebemos, que no ideal ascético indiano, a grande fórmula Vedân­tica, “Um sem um segundo”, não foi suficientemente lida à luz daquela outra fórmula igualmente imperativa: “Tudo isso é o Brahman". A aspiração apaixonada do homem em direção ao Divino não foi suficientemente relacionada com o movimento descendente do Divino, inclinando-se para baixo para abraçar eternamente Sua manifestação. Seu significado na Matéria não foi suficientemente compreendido, como Sua verdade no Espírito. A Realidade que o Sannyasin (Asceta) busca foi captada em sua plena elevação, mas não, como dizem os antigos Vedantas, mas não em sua completa extensão e compreensão. Mas, em nossa afirmação mais completa não devemos minimizar a parte que ocupa o puro impulso espi­ritual. Vimos em que grande proporção o Materia­lismo serviu aos fins do Divino; assim, devemos reconhecer os serviços ainda maiores, rendidos pelo Ascetismo à Vida. Devemos preservar as verdades da Ciência material e suas reais utilidades na harmonia final, mesmo se muitas ou se todas as formas exis­tentes tiverem que ser quebradas ou abandonadas. Um escrúpulo ainda maior de correta conservação deve guiar-nos em nosso trato com o legado - na realidade diminuído ou depreciado - do passado Ariano.
[1] Versos 2, 7.
[2] Súksma indriya, órgãos sutis, existentes no corpo sutil (súksma deha) e o meio da visão e experiência sutis (súksma drsti).
[3 ] Os Monistas Vedânticos.
[4] Goloka, o céu dos Vaishnavas, da Beleza e Bem-aventurança eter­nas.
[5] O supremo estado da existencia, consciência e beatitude puras, al­cançável pela alma sem a completa extinção no Indefinível.
[6] Extinção, não necessariamente de todo o ser, senão do ser tal qual o conhecemos; extinção do ego, do desejo, e da ação e mentalidade egoísta.

AMPLIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA E EVOLUÇÃO DO SER

"Toda vida é Yoga" - "Este Yoga significa não somente a realização de Deus, mas uma completa consagração e mudança das vidas interior e exterior, até que estejam preparadas para manifestar uma consciência divina e se tornar parte do trabalho divino."

Sri Aurobindo

AMPLIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA E EVOLUÇÃO DO SER

“A Vida toda é conscientemente ou subconscientemente, um Yoga, um esforço metodizado rumo à perfeição.”

Sri Aurobindo

OBJETIVO MAIOR
Reencontro da vida na verdade do aspecto divino do ser, nesse propósito, busca transferir as raízes de tudo o que somos e fazemos da mente, da vida e do corpo para uma consciência maior e ampliada.
PASSOS PARA ESTA REALIZAÇÃO
1- Abrir-se para deixar emergir o poder divino que está dentro e em torno de nós.

2- Esforço para elevar a consciência para esferas superiores com ações cada vez mais em sintonia com os níveis mais elevados da vida.
3 - Retornar à consciência terrestre plena juntamente com a luz e o poder da consciência divina em toda atividade humana. Buscando uma transformação constante e dinâmica para atingir o aperfeiçoamento e evolução.

A Mãe

The Mother talks about Total Surrender

Sri Aurobindo -- A Homage

TRANSFORMAÇÃO

A Tripla Transformação e o Processo Central do Yoga Integral
A manifestação desse novo estágio da consciência, a supramente, requer a completa transformação da consciência atual. Essa transformação pode ser alcançada através de três movimentos chamados por Sri Aurobindo de a Tripla Transformação: Transformação Psíquica, Transformação Espiritual e Transformação Supramental.

Transformação Psíquica
É buscada através de um movimento (da consciência) para dentro, um voltar-se para o ser interior, para o Ser Psíquico. O aspirante deve mergulhar para dentro, entrar em contato com o centro de seu ser, o ser psíquico “oculto no fundo da caverna do coração” e progressivamente identificar-se com o Si dentro. Deve trazer esse ser psíquico para frente, para fora, agindo exteriormente sempre à partir desse centro psíquico interior, e colocar toda natureza, seu ser inteiro, sob o comando desse ser interior. O esforço do aspirante é por uma abertura para dentro, uma aspiração para que o Divino se manifeste no centro de seu ser e uma entrega à guiança desse ser interior, o Si dentro. O obstáculo principal é a vontade vital (prana psíquico) e a remoção desse obstáculo deve ser feita através da purificação da natureza inferior e sua orientação ao divino. O resultado é que uma guiança, um governar começa à partir de dentro, do ser psíquico.

Transformação Espiritual
É buscada através de uma abertura da consciência para o alto, para as regiões mais altas da mente. O aspirante deve abrir-se ao alto, a uma existência mais alta, a um supremo estado espiritual. O esforço do aspirante é por uma abertura para cima, uma aspiração pela descida da Paz, Força, Conhecimento, Ananda do Supremo, e uma entrega à esse princípio de consciência mais alto que progressivamente se manifesta nele. O obstáculo é o ego e a remoção desse obstáculo deve ser feita através da identificação com o Uno, da identificação com o Todo. O resultado é que uma guiança, um governar começa a partir de cima, do ser espiritual.

Transformação Supramental
É a única transformação propriamente dita. A transformação psíquica e a transformação espiritual são transformações precursoras, preparatórias. Não pode ser conquistada pelo aspirante. É uma dádiva da Graça divina. Pode apenas ser favorecida pela entrega ao divino. Quando a luz e o poder da supramente desce à natureza-terra, traz a real transmutação do subconsciente, do inconsciente, da vontade e do corpo físico. A consciência supramental é inteiramente diferente da consciência mental, e irá descer apenas como uma graça da Mahashakti. O esforço do aspirante deve ser pelo abrir-se à Mahashakti e preparar-se para ser um instrumento apropriado, através da purificação, libertação e perfeição – o Método do Yoga Integral. Aurobindo afirma ainda que a transformação supramental é inevitável na evolução da consciência da terra.

 

SUPRAMENTE (A FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO) Cap.IV

Sachchidananda é uma eterna e imutável unidade sem distinções separativas. Mente, vida e matéria
são a consciência analítica ou divisora que a mente apenas pode conhecer por separação e divisão.
Sem um princípio mediador entre eles, nós deveríamos, para alcançar a unidade transcendente de
Sachchidananda, ter que abandonar o mundo de mente, vida e matéria. Ou, se limitássemos nossa
consciência apenas ao mundo fenomenal, perderíamos parte da verdade. Se a realidade da unidade
ou da multiplicidade é negada, a esperança de uma vida divina sobre a terra é impossível.
A única saída de tal solução é encontrar um elo intermediário que estabelece uma relação entre os
dois. Sri Aurobindo descobriu essa ponte entre os dois mundos no princípio da Supramente:
"Esse termo intermediário é... o princípio e o fim de toda ordem e criação, o Alfa e o Ômega, o
ponto de partida de toda diferenciação, o instrumento de toda unificação, originativa, executiva e
consumativa de todas as harmonias realizadas ou realizáveis. Ele tem o conhecimento do Uno, mas
é capaz de extrair do Uno suas multitudes escondidas; Ele manifesta o Múltiplo, mas não perde a si
próprio em suas diferenciações." (1)
Supramente é o princípio de "Vontade e Conhecimento ativos" superiores à mente. A Supramente
não pode ser a mente racional porque, de acordo com Sri Aurobindo, a consciência na mente
racional não é suficiente para explicar a existência no universo. A mente é a faculdade que analisa
idéias e objetos, portanto ignorando a unidade dentro da multiplicidade. Ela interpreta a verdade da
existência em termos de relatividade para uso prático, mas não é uma faculdade de conhecimento ou
vontade ativa que pode criar ou mesmo dirigir a existência. A Supramente é essa faculdade de
conhecimento, pois ela retém a verdadeira natureza de Sachchidananda sem distorcê-la. Contudo, a
mente é uma expressão saída da Supramente e idêntica a ela em essência, o que significa que a
potencialidade da Supramente repousa encerrada e não manifestada na mente.
Sri Aurobindo chama a Supramente de "Real-Idéia", isto é, "um poder de Força Consciente
expressiva do ser real, nascida do ser real e participante de sua natureza e nem um filho do vácuo
nem uma trama de ficções" (2). Ela refere-se sempre à unidade acima de si e à multiplicidade
abaixo de si, portanto atuando como uma ponte pela qual a maya inferior se desenvolve a partir da
maya superior e pela qual a maya inferior retorna novamente em direção à sua fonte.
Do ponto de vista da Supramente (Consciência-Verdade), toda existência é um Ser tendo
consciência como natureza essencial; é uma consciência cuja natureza ativa é vontade; é uma
consciência-força que é deleite, quer esteja ativamente criativa, quer esteja em repouso. Isto, diz Sri
Aurobindo, é Brahman - nós mesmos em nossa essência, nosso ser não fenomenal. O Ser
Consciente concentrado em si próprio torna-se o jogo do universo e é a causa única da existência
cósmica. Este é o nosso ser real, escondido de nós pela máscara do ego e é apenas transformando
nossa presente consciência em uma consciência mais alta que podemos alcançar uma vida divina e
experienciar unidade com a Consciência Divina "que algo super-consciente em nós sempre desfruta,
- de outra maneira não poderíamos existir -, mas que nossa mentalidade consciente tem perdido"
(3).
Sri Aurobindo argumenta que a Supramente é uma necessidade lógica; Sachchidananda em si
própria é "um absoluto sem espaço e sem tempo de existência consciente que é deleite" (4), mas o
mundo não é sem tempo e sem espaço, é uma extensão no Tempo e Espaço e um movimento, um
realizar-se, um desenvolvimento de relações por causalidade no Tempo e no Espaço. Ele chama
UMA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DE SRI AUROBINDO - Joan Price
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essa causalidade "lei Divina, e a essência dessa lei é o efetuar-se da verdade a partir de
possibilidades infinitas para o deleite da auto-manifestação". Toda manifestação do universo
desenvolve-se dessa força-consciente de conhecimento e vontade que dirige a inter-relação de
formas e é a natureza essencial da existência.
O princípio da Supramente tem três movimentos: 1) é a unidade compreensiva de todas as coisas; 2)
suporta a manifestação do Uno no múltiplo e do múltiplo no Uno; 3) suporta a evolução da
individualidade.
Primeiramente, a Supramente é uma extensão de Sachchidananda que compreende a diferenciação
tanto como sujeito e objeto de si própria. Nessa fase nenhuma individualização ocorre:
"Tudo é desenvolvido em unidade e como um; tudo é mantido por essa Consciência Divina como
formas de sua existência, e em nenhum grau como existências separadas. Algo como os
pensamentos e imagens que ocorrem em nossas mentes que não são existências separadas de nós,
mas formas tomadas por nossa consciência, assim são todos os nomes e formas para essa
Supramente primária. Ela é a intenção e formação divina pura no Infinito, - apenas uma intenção e
formação que é organizada não como um jogo real de pensamento mental, mas como uma atividade
real de ser consciente." (5)
Em segundo lugar, Supramente é a consciência apreensiva universal, isto é, ela vê a si própria como
um objeto de cognição e como o centro no qual o Ser concentra a si próprio. Aqui o sujeito
simultaneamente vê o objeto como algo distinto de si próprio e realiza a unidade entre sujeito e
objeto. Neste ponto não existe diferença essencial, mas sim uma diferença prática, isto é, a
Supramente conhece todas as formas-alma como si própria e ainda estabelece uma relação
individual com cada uma:
"Se nossa mente purificada refletisse essa forma secundária da Supramente, nossa alma poderia
suportar e ocupar sua existência individual e ali mesmo realizar a si própria como o Uno que se
tornou o todo, contém tudo, deleitando-se mesmo em sua modificação particular, sua unidade com
Deus e com suas companheiras. Em nenhuma outra circunstância da existência supramental poderia
haver qualquer mudança característica; a única mudança seria este jogo do Uno que tem
manifestado sua multiplicidade, e do Múltiplo que é ainda o Uno, com tudo aquilo que é necessário
para manter e conduzir o jogo." (6)
Em terceiro lugar, a Supramente projeta a si própria no movimento individual e torna-se envolvida
nele. Ainda assim, a unidade fundamental predomina na variedade de dualismos. Sri Aurobindo
descreve essa ação como "o campo prático de sua experiência consciente" (7) (da Supramente),
sendo as variações individuais em evolução vistas pela Supramente "em seu separado ponto de vista
vivendo como o Divino individual, cada uma com o Supremo e Uno habitando nela" (8).
"Este equilíbrio terciário poderia ser, portanto, aquele de uma espécie de dualismo deleitante
fundamental em unidade - não mais unidade qualificada por um dualismo subordinado - entre o
Divino individual e sua fonte universal, com todas as conseqüências que poderiam resultar da
manutenção e operação de tal dualismo." (9)
Esses três movimentos da Supramente são análogos aos três aspectos de Brahman: transcendente,
universal, individual. A Supramente funciona como o mediador consciente, reconhecendo o Uno
em si própria e em todas as coisas e objetos como emanações de sua própria vontade e
conhecimento.
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A Supramente é a ligação entre o Uno absoluto e o múltiplo relativo, mas considerando a distância
entre a mente como nós a conhecemos e a consciência-Verdade supramental, uma questão surge:
existe uma transição da mente para a Supramente? Se a mente é meramente uma faculdade
buscando por verdade, visto que a Supramente está em posse da verdade, existirá um poder
intermediário pelo qual a transição involucionária da Supramente para a mente racional possa
ocorrer? Sri Aurobindo nos assegura que existem gradações entre estes dois níveis de consciência -
uma transição da Supramente para nossa mente racional. Involuindo (descendo) da Supramente
estão a Sobremente, mente Intuitiva, mente Iluminada, mente Superior e então mente ordinária.
A Supramente sempre vê a verdade integral como si própria. A mente vê o mundo de seu próprio
ponto de vista relativo de separatividade individual. A Sobremente, por outro lado, embora
consciente da verdade integral da Supramente,
"procede por intermédio de uma ilimitável capacidade de separação e combinação de poderes e
aspectos da todo-compreensora indivisível e integral Unidade. Ela toma cada aspecto do Poder e dá
a ele uma ação independente na qual esta adquire uma importância separada total e é capaz de
desenvolver, poderíamos dizer, seu próprio mundo de criação." (10)
A Sobremente vê o universo como integralmente uno e ainda composto de muitos aspectos e
potenciais para os quais ele confere ação independente. "Na Sobremente nós temos a origem da
diversificação" (11). A Realidade Divina, o Uno e o múltiplo, Alma Divina (Si), Personalidade
Divina e impersonalidade são todos aspectos e poderes da realidade una, mas cada um é também
pleno de poder para agir como uma entidade independente no todo, para chegar a completa extensão
de possibilidades de sua separada expressão e então desenvolver as conseqüências da
separatividade. Essa separatividade na Sobremente é baseada na unidade; na unidade são
encontradas infinitas possibilidades:
"Se nos referirmos aos Poderes da Realidade como muitas Divindades, nós podemos dizer que a
Sobremente lança milhões de Divindades em ação, cada uma com poderes para criar seu próprio
mundo, cada mundo capaz de relação, comunicação e interação com os outros." (12)
Enquanto a mentalidade humana vê o pessoal e o impessoal como opostos, a Sobremente os vê
como poderes separados da Realidade una que podem ser independentes e também unidos entre si
como aspectos coexistentes da existência una.
Nesse desenvolvimento de numerosos potenciais não há conflito. O conflito ocorre na divisão da
mente. Pois a Sobremente não é uma queda da verdade, é uma criadora de verdades, e não clama
por status separados para qualquer desenvolvimento.
"Cada idéia admite todas outras idéias e seu direito de ser; cada força concede um lugar para todas
outras forças e sua verdade e conseqüências; nenhum deleite de existência plena separada ou
experiência separada nega ou condena o deleite de outra existência ou outra experiência. A
Sobremente é um princípio de Verdade cósmica e uma vasta e interminável universalidade é seu
verdadeiro espírito; sua energia é um todo-dinamismo tanto quanto um princípio de dinamismo
separado." (13)
A ação da Sobremente, em sua descida, atinge uma linha que divide conhecimento (maya superior)
de ignorância (maya inferior). É a partir dessa linha que é possível para o princípio independente de
separação criado pela Sobremente dividir a mente em unidades separadas para autodesenvolvimento.
Quando tal concentração ocorre, nós temos o mental existindo no reino da
ignorância. Mas a mente não é outra senão a Supramente, ela é meramente limitada a um
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conhecimento parcial, não um conhecimento integral da verdade. Por causa do princípio da divisão,
a mente não mais se identifica com o todo:
"Este caráter de uma organização de verdades parciais em uma base de conhecimento separativo
persiste na Vida e na matéria sutil, pois a concentração exclusiva de Consciência-Força que as
coloca em ação separativa não segrega ou vela a Mente da Vida, ou a Mente e Vida da Matéria."
(14)
Apenas quando a Inconsciência tiver sido atingida poderá haver completa separação. Mente, vida e
matéria são estágios de Consciência-Força; cada um segue suas próprias possibilidades e efetua a
verdade de si próprio.
O próximo nível de involução (descida) é a Mente Intuitiva. Sri Aurobindo a vê como o original
daquela transmissão de verdade para a mente provindo dos estados mais altos, que nós conhecemos
como intuição em nossa experiência mental. Os sentidos e a mente sensorial-pensante não
conhecem nada sobre o absoluto. A única informação que os sentidos fornecem a nós é sobre forma
e movimento, sempre "misturados, combinados, agregados, relativos" (15), nunca da pura
existência. Mas existe uma consciência mais alta que a mente sensorial-pensante e esta é a intuição:
"A Intuição traz ao homem aquelas brilhantes mensagens do Desconhecido que são o início de seu
mais alto conhecimento... A Intuição nos dá aquela idéia de algo atrás e além daquilo que nós
conhecemos e que parece ser." (16)
A Intuição é mais forte que a razão ou experiência sensorial porque, como nossas faculdades mais
altas, ela alcança o conhecimento direto:
"Na mente humana, sua ação é amplamente escondida pelas intervenções de nossa inteligência
normal; uma intuição pura é uma ocorrência rara em nossa atividade mental, pois o que nós
chamamos por esse nome é usualmente um ponto de conhecimento direto que é imediatamente
tomado e recoberto com matéria mental." (17)
A intuição é obstruída por sugestão mental que tanto pode ser verdadeira como falsa, mas em
ambos os casos não é o movimento direto original que pode nos dar a experiência integral da
verdade. "Uma intuição aprovada em revisão judicial pela razão deixa de ser uma intuição e pode
apenas ter a autoridade da razão para a qual não há nenhuma fonte de certeza direta" (18). E isso
reduz amplamente para nós a utilidade da intuição:
"A Intuição tem um poder quádruplo. Um poder de visão-da-verdade revelatório, um poder de
inspiração ou audição-da-verdade, um poder de toque-da-verdade ou avaliação imediata de
significância, que é análogo à natureza ordinária de sua intervenção em nossa inteligência mental,
um poder de discriminação verdadeira e automática da ordenação e exata relação de verdade para
verdade." (19)
Por seu próprio processo, a intuição pode efetuar ação de razão, mesmo a função de inteligência
lógica que elabora corretas relações entre coisas e idéias. Ela pode transformar a mente, coração,
vida e o sentido da consciência física em uma maior integralidade. "Ela pode então alterar toda a
consciência na substância da intuição" (29), mas usualmente isto é impedido devido à inconsciência
fundamental em nossa natureza que é muito espessa para ser completamente penetrada. Tão logo
ela esteja sob a influência de nossa mente e outras obscuridades ignorantes, a intuição jamais pode
ser a mesma da consciência supramental.
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A percepção intuitiva é mais que visão e concepção; ela traz dentro de si, visão e concepção. Uma
consciência que procede por visão é o estágio entre Intuição e Mente Superior. Ela é denominada
por Sri Aurobindo a Mente-Iluminada - a mente da luz espiritual. Neste nível, uma "Verdade e
poder espirituais entram na consciência acompanhados por uma compreensão espiritual-conceitual.
Uma cascata de luz visível interior usualmente acompanha essa ação. O significado de "luz", como
empregado aqui, é primariamente uma "manifestação espiritual da Realidade Divina, iluminativa e
criativa" (21) seguida por um entusiasmo de poder interior que substitui os processos mais
deliberados dos níveis mentais ordinários.
A mente iluminada opera tanto por visão quanto por pensamento; pensamento é apenas um
movimento subordinado. O pensamento ordinário é considerado o processo de conhecimento
principal, dando-nos clarificação e detalhes precisos, mas na Mente Iluminada ele não é um
processo indispensável:
"... embora em si própria, em sua origem nos níveis de consciência mais elevados, é uma percepção,
um avaliar cognitivo do objeto ou de alguma verdade das coisas que é uma poderosa, mas ainda um
resultado menor e secundário, da visão espiritual, uma relação comparativamente externa e
superficial do si sobre o si, do sujeito sobre si próprio como objeto: pois todos eles são uma
diversidade e multiplicidade do Si. Na mente existe uma resposta superficial de percepção ao
contato de um objeto, fato ou verdade observada ou descoberta e a conseqüente formulação
conceitual desta; mas na luz espiritual existe uma resposta perceptiva mais profunda vinda da
verdadeira substância do ser, - nada mais, nenhuma representação verbal é necessária para a
precisão e compleitude desse conhecimento-de-pensamento." (22). O pensamento cria uma imagem
representativa da verdade e a mente a torna um objeto de conhecimento, mas a verdade, em
realidade, é retida na "visão espiritual" e a imagem criada pelo pensamento torna-se secundária. A
Mente Iluminada traz uma maior consciência por intermédio dessa visão espiritual.
Sri Aurobindo descobriu que quando esses graus de "energia-substância" descem (involuem) em
nós, nosso conhecimento, pensamento, consciência, atividades e tudo em nós é afetado. A pureza da
graduação depende das vibrações e prontidão de nosso ser, isto é, quanto mais densos e fechados
nós estamos para os níveis mais altos, tanto menos de substância mais pura pode entrar em nós e
tanto mais reduzida ela deve tornar-se. Na medida em que ascendemos, contudo, encontramos uma
mais poderosa luminosidade, um mais concreto deleite espiritual. É então que os estados mais
elevados são capazes de descer para dentro de nosso ser. "Isso pode ocorrer porque tudo é
fundamentalmente a mesma substância, a mesma consciência, a mesma força, mas em diferentes
formas e poderes e graus de si própria " (23).
A Mente Superior é o nível mais próximo à mente mental e outro elo no processo de descida. De
acordo com Sri Aurobindo, a Mente Superior é uma "clareza do espírito". Ela possui um sentido de
unidade do ser e ainda uma "múltipla dinamização" que formula aspectos e modos de ação em todos
que tem um conhecimento intrínseco. A Mente Superior é um poder que provém da Sobremente,
com a Supramente como sua "origem última". O caráter especial da Mente Superior é pensamento:
"Ela é uma luminosa mente-pensamento, uma mente de conhecimento conceitual nascido-doespírito"
(24).
Um aspecto desse conhecimento superior é que relações de idéia com idéia e verdade com verdade
não são derivados por dedução lógica, porque ele é um conhecimento a priori (integral) e não um
conhecimento adquirido. As relações entre idéias e verdades já existem e "emergem auto-vistas no
todo integral" (25).
Existe, na Mente Superior, o atributo de vontade e o atributo de cognição:
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"Aqui nós encontramos que esta mais brilhante mente maior atua sempre no restante do ser, a
vontade mental, o coração e seus sentimentos, a vida, o corpo, através do poder do pensamento,
através da força-idéia. Ela procura purificar através de conhecimento...
A idéia é colocada no coração ou na vida como uma força a ser aceita e desenvolvida; o coração e a
vida tornam-se conscientes da idéia e respondem a seus dinamismos e sua substância começa a
modificar a si própria naquele sentido de modo que os sentimentos e ações tornam-se as vibrações
dessa sabedoria mais alta... os impulsos da vontade e da vida são similarmente carregados com seu
poder e sua ânsia de auto-efetuação; mesmo no corpo a idéia atua dessa maneira, por exemplo, o
potente pensamento e vontade de saúde substitui sua fé na doença." (26)
A força da idéia gerada em nossa substância de mente, vida ou corpo pode ser o poder para acordarnos,
porque ela dá ao ser inteiro uma maior e mais alta consciência. Isso ainda é uma batalha,
porque a maya inferior sempre resiste a qualquer conhecimento mais alto. Mas as forças da
ignorância têm que ser superadas e a evolução em lutas deve ser substituída pela evolução em
harmonia e deleite.
"O poder da Mente Superior espiritual e sua idéia-força, modificada e diminuída como deve ser, por
sua entrada em nossa mentalidade, não é suficiente para varrer todos esses obstáculos e criar o ser
gnóstico, mas pode efetuar uma primeira alteração, uma modificação que capacitará uma ascensão
maior e uma descida mais poderosa e, além disso, preparar uma integração do ser em uma maior
Força de consciência e conhecimento." (27)
Embora a mente mental ordinária seja uma expressão da Supramente, é sua função dividir, limitar e
separar as formas de coisas da totalidade indivisível da existência. A mente Ordinária tem o impulso
constante para ir além de suas partes e tentar compreender o todo, mas ela sempre falha por causa
de suas limitações inerentes:
"A mente percebe apenas o particular e não o universal, ou concebe apenas o particular em um
universal não possuído, mas nunca ambos, o particular e o universal como um fenômeno do infinito.
Então nós temos a mente limitada que vê todo fenômeno como uma coisa-em-si-própria, uma parte
separada de um todo que novamente existe separadamente em um todo maior e assim por diante,
aumentando sempre seus agregados sem voltar ao sentido de uma verdadeira infinitude." (28)
A mente ordinária reparte o ser em totalidades, mesmo nas menores totalidades, em átomos, em
átomos primais ad-infinitum, até que possa, se possível, analisar partículas da existência, mas ela
não pode, porque todas as formas fenomenais não são divisões mas expressões da unidade infinita e
do ser eterno. "Divisão é uma aparência subordinada do processo global necessária ao seu jogo
espacial e temporal" (29).
"Por dividir à sua vontade, descer ao mais infinitesimal átomo ou forma, ao mais monstruoso
possível agregado de mundos e sistemas, você não pode, por quaisquer processos, chegar à coisa em
si; tudo são formas de uma Força que unicamente é real em si própria enquanto o restante é real
somente como auto-imagens ou auto-formas manifestadas da eterna Força-Consciência." (30)
Além disso, Sri Aurobindo propôs sete princípios como o fundamento de toda existência cósmica.
Para recapitular, a realidade última de tudo que está no universo é o triplo princípio do
Transcendente - Existência-Consciência-Deleite - a natureza do Ser Divino. A Consciência tem dois
aspectos: estático e dinâmico. A ação criativa do "todo-existente" tem seu "nodus" no quarto
princípio, a Supramente ou Real-Idéia que media entre a unidade de Sachchidananda e a
multiplicidade da mente, vida e matéria. Supramente, o princípio da vontade e conhecimento
diretivos, abrange todas as coisas em si própria como si própria. Mente, vida e matéria são um
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aspecto tríplice dos princípios superiores, mas subordinados à Divina Existência-Consciência-
Deleite e Supramente:
"Mente é um poder subordinado da Supramente que se baseia no ponto de vista da divisão,
atualmente esquecida da unidade subjacente, embora capaz de retornar a esta por re-iluminação pelo
supramental; Vida é similarmente um poder subordinado do aspecto de energia de Sachchidananda,
é uma força elaborando forma e o jogo de energia consciente a partir do ponto de vista da divisão
criada pela Mente; Matéria é a forma de substância de ser que a existência de Sachchidananda toma
quando se sujeita a essa ação fenomenal de sua própria consciência e força." (31)
O quarto princípio que vem à manifestação como o "nodus" de mente, vida e corpo é a alma. A
alma é duplamente desenvolvida; é feita da "alma de desejo que anseia pelo deleite e a posse de
coisas; e a verdadeira entidade psíquica que é o repositório real das experiências do espírito" (32).
Os princípios, então, são realmente oito, em vez de sete. São eles (33):
"Existência (Sat): torna-se Matéria
Consciência-Força (Chit): torna-se Vida
Deleite(Ananda): torna-se Psique (Alma)
Supramente : torna-se Mente
A alma-de-desejo é uma distorção exterior do princípio psíquico que não é a vida ou a mente, muito
menos o corpo, mas que mantém em si própria a abertura e florescimento da essência de todos eles
para o próprio e peculiar deleite do si, iluminar, amar, deleite e beleza e para uma refinada pureza
de ser." (34)
A alma tem sua origem em uma Alma Divina (Si) acima. A Alma Divina vive no deleite original da
Existência (Ananda) auto-contida na consciência de Sachchidananda e na unidade de maya
superior. Por distinção da Supramente Compreensiva, a Alma divina desfruta ao mesmo tempo
unidade e diferenciação com Deus e unicidade com outras Almas Divinas. Ela é consciência pura e
ilimitada em sua energia e capaz de relação livremente com formas de conhecimento.
A Alma Divina é consciente de três graus de existência supramental como auto-manifestações de
Sachchidananda: 1) conceber, perceber e sentir como seu próprio Si-de-ser e Si-de-vir-a-ser todas
existências; 2) conceber, perceber e sentir todas existências no Si como formas-alma do Uno;
3) conceber, perceber e sentir todas essas existências em sua individualidade divina.
A distorção exterior do ser psíquico (alma-de-desejo) "trabalha em nossos apetites vitais, nossas
emoções, faculdades estéticas e busca mental por poder, conhecimento e felicidade" (35). A mesma
divisão que separa mente ordinária de Supramente existe para a alma. Sri Aurobindo coloca que o
mal do mundo é que o indivíduo é incapaz de encontrar a verdadeira alma dentro e uni-la com a
Alma-Divina. Nós buscamos pela essência do ser, poder, existência-consciente, e deleite, mas, em
lugar disso recebemos as dualidades de prazer e dor, afetos e desafetos, emoções e indiferença,
coragem e medo, alcances e recuos. É, diz ele, a Alma Divina que compele nosso ser psíquico a
continuar buscando a unidade mais alta a despeito de seus retrocessos através da alma-de-desejo, "e
isto ela faz porque é impelida pelo universal a desenvolver a si própria por todas as espécies de
experiências de modo a crescer em Natureza" (36). Se nós vivêssemos apenas pela alma-de-desejo,
não poderíamos transformar a nós mesmos mais que a pedra pode transformar a si própria; de fato
poderíamos circular sobre os mesmos rastros para sempre. Nós podemos, contudo, relacionar a
alma-de-desejo a suas verdades interiores e a suas fontes divinas e esse é um movimento
indispensável se nós quisermos progredir tanto individualmente quanto como humanidade.
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